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Limpeza total: como seria se usássemos ímã para tirar microplástico do mar?

Como seria usar um ímã para retirar microplásticos da água - Arte/UOL
Como seria usar um ímã para retirar microplásticos da água Imagem: Arte/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt, em São Paulo

12/10/2021 04h00

Estamos em 2021 e a essa altura você deve saber bem que plásticos contribuem, e muito, para a poluição do planeta. E isso vale ainda mais para corpos d'água, como rios e, principalmente, oceanos. Nos mares, além de se acumularem em verdadeiros lixões flutuantes —existe até uma "ilha de lixo" no Oceano Pacífico, que tem três vezes o tamanho da França e reúne em torno de 1,8 trilhão de pedaços de plástico —, há outro problema quase invisível.

Estamos falando dos microplásticos, resíduos desse material com até 5 milímetros de diâmetro e que causam uma série de problemas. Ele pode ser encarado como uma "poeira de plástico" —tipo glitter, que fica em nossas roupas, produtos cosméticos e de limpeza. Após a lavagem de roupas ou faxinas em geral, esse material acaba sendo descartado no esgoto, onde não ficam retidos por filtros e acabam caindo na natureza.

Mas como seria se encontrássemos um jeito de tirar esses pequenos plásticos das águas? Quais problemas deixariam de existir? E como o meio ambiente reagiria?

Magnetismo é o segredo

Desde pequeno, o jovem inventor irlandês Fionn Ferreira sempre se incomodou com a presença de plásticos no oceano. E a situação piorou quando ele soube dos microplásticos. Curiosamente, isso ocorreu antes de ele ter 12 anos de idade, o que fez com que ele tomasse para si o desafio de encontrar uma solução para o problema.

Isso começou com ele construindo seu próprio espectrômetro, um aparelho que mede a composição química de determinadas amostras e permitiu que ele pudesse observar a presença de microplásticos na água.

Em seguida, chamou a sua atenção o fato de que um respingo de óleo era capaz de atrair uma grande quantidade de microplásticos.

O problema aqui é que espalhar óleo na água dos oceanos não é algo viável, tampouco benéfico. O que Ferreira fez foi misturar óleo com pó de óxido de ferro, criando o chamado ferrofluido.

Ao colocar essa substância na água, ela acaba atraindo os microplásticos presentes e pode ser removida totalmente da água usando um ímã. O resultado é água pura, sem a presença de plástico nem de ferrofluido. Ferreira fez 5 mil testes com esse procedimento, alcançando 87% de eficiência.

Larga escala

Em 2019, a invenção foi apresentada em uma Feira de Ciência do Google e rendeu a ele o primeiro prêmio e uma bolsa de estudos no valor de US$ 50 mil.

Ele agora trabalha em um dispositivo que use esse método de extração magnética para capturar os microplásticos enquanto a água flui pelo aparato.

A ideia é que seja algo pequeno o suficiente para caber em canos d'água. Além disso, ele também trabalha em um sistema para ser instalado em navios, de forma que eles possam extrair o plástico dos oceanos enquanto navegam.

Por fim, há também um projeto que visa criar um dispositivo com esse mesmo fim para ser instalado na entrada e saída de água de residências. A expectativa é que essas invenções comecem a ser comercializadas em dois anos.

Lixo até não poder mais

Segundo o Unep (Programa Ambiental das Nações Unidas), a atividade humana ao redor do mundo produz 300 milhões de toneladas de resíduos plásticos todos os anos, sendo que pouco mais de 3% dessa quantidade vai parar nos oceanos. Parece pouco, mas falamos aqui de 10 milhões de toneladas.

Para dar uma noção do que isso significa, é como se despejássemos 3.800 sacos de arroz de 5 kg nos oceanos por minuto. Só que em plástico e, claro, incluindo os tais microplásticos.

Seja "micro" ou não, uma vez na natureza, os plásticos tendem a permanecer por lá muito tempo. Ainda que o tema careça de mais estudos, a estimativa é a de que plásticos levem mais de 400 anos para se decompor na natureza.

E a tendência, segundo o Fórum Econômico Mundial, é que isso piore, já que a previsão é de que a produção de plásticos aumente 60% até 2030 e triplique até 2050.

Pequeno grande problema

Enquanto pedaços maiores de plástico representam um risco mais visível — como animais que ficam presos e acabam morrendo, ou tendo a vida normal comprometida por não conseguirem se livrar desse tipo de resíduo —, os microplásticos causam danos mais "escondidos".

Apesar de citarmos aqui acima os oceanos, especificamente os microplásticos também estão presentes em corpos de água doce, como rios, lagos e represas. E uma vez em ambiente aquático, esse resíduo acaba sendo consumido por animais que vivem na água e, também por humanos.

Um estudo de 2019 feito pela Universidade de Newcastle, na Inglaterra, apontou que consumimos, em média, 5 gramas de plástico por semana. Seria como, semanalmente, triturar um cartão de crédito e polvilhar na comida como queijo ralado sobre o macarrão.

Ainda sabe-se pouco sobre os efeitos do consumo desses microplásticos, mas em geral as notícias não são boas: há estudos que correlacionam esse material a doenças como câncer, problemas cardíacos e má-formação de fetos, além de stress oxidativo, inflamações e problemas respiratórios.

Outro possível problema é que esses pequenos pedaços de plástico sirvam como meio de transporte para patógenos.

Usar soluções como a desenvolvida por Ferreira em escala massiva, portanto, seria uma garantia de redução no consumo desse tipo de detrito. Considerando que, de fato, esses resíduos causem problemas sérios de saúde, a consequência mais direta da retirada de microplástico das águas seria termos um ganho considerável em termos de saúde. E com reflexos tanto em qualidade de vida quanto em custo de saúde pública como um todo.