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Por que uma startup recebeu R$ 80 mi para trazer mamutes de volta à vida?

Mamutes foram xtintos há cerca de 5.600 anos - Divulgação/ Pixabay/ Michi-Nordlicht
Mamutes foram xtintos há cerca de 5.600 anos Imagem: Divulgação/ Pixabay/ Michi-Nordlicht

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt, de São Paulo

23/09/2021 04h00

Os mamutes — espécie de elefante pré-histórico — foram extintos há cerca de 5.600 anos. Mas uma startup disse que vai ressuscitá-los. A Colossal já recebeu mais de US$ 15 milhões (cerca de R$ 80 milhões, em conversão direta) de investidores privados, mas é vista com desconfiança por alguns cientistas.

O plano ambicioso é, por meio de tecnologia genética, trazer estes magníficos animais de volta à vida, e então levar centenas deles para a Sibéria, habitat original do mamute, no bioma tundra. A técnica escolhida é a edição do DNA dos elefantes atuais, para adicionar genes com as características dos mamutes, como pelo denso e uma grossa capa de gordura, para suportar as gélidas temperaturas do Ártico.

O biólogo George Church, da Escola de Medicina de Harvard, há oito anos lidera uma equipe de pesquisadores, desenvolvendo ferramentas para reviver mamutes. Inicialmente, a ideia era fazer isso a partir de fragmentos de DNA extraídos de fósseis e restos mortais, reconstruindo o genoma original. Mas ele foi além: quer reviver espécies extintas a partir de seus "parentes" que ainda vivem.

Os elefantes asiáticos e os mamutes compartilham um ancestral em comum, que habitou a Terra há cerca de seis milhões de anos. A partir dele, então, seria possível produzir em laboratório algo que se pareça e aja como um antigo mamute. Para isso, é preciso fazer algo inédito: remover parte do DNA de óvulos de elefantes e substituí-los pelos "tipo mamute". De acordo com a pesquisa, 60 genes definem seus traços mais distintivos.

Church cogitou implantar os embriões em "barrigas de aluguel" de elefantas vivas. Mas, mesmo que ele conseguisse fazer a fertilização in vitro de elefantes —o que ninguém fez até hoje— seria impraticável formar uma manada desta maneira, necessitando de muitas mães e muito tempo.

Então, decidiu fazer um útero artificial de mamute, com tecido criado a partir de células-tronco. Mas ele precisa ser grande o suficiente para abrigar um feto, que chega a 100 kg, por cerca de dois anos. Desenvolvê-lo é outro grande desafio do projeto.

O financiamento inicial vem de investidores desde o Climate Capital, uma empresa que apoia esforços para reduzir as emissões de carbono, até os gêmeos Winklevoss, conhecidos por suas batalhas pelo Facebook e por investimentos em Bitcoin.

A Colossal vai apoiar a pesquisa de Church, além de realizar experimentos em laboratórios próprios, em Boston e Dallas (EUA). Em alguns anos, a empresa pretende produzir os primeiros embriões destes elefantes-mamutes, para em um futuro criar populações inteiras.

Muitos cientistas veem o plano de "desextinção" com olhos céticos. Além do imenso desafio em conseguir recriar um mamute funcional, há sérias questões éticas a serem analisadas. É correto revivermos um animal desaparecido há tanto tempo, sobre cuja biologia sabemos tão pouco? Quem decide se eles podem ser liberados na natureza? Quão profundos serão seus impactos nos ecossistemas?

Todos se lembram do que aconteceu nos filmes clássicos "Jurassic Park". Além disso, uma espécie deste tipo é conhecida pelos intensos cuidados parentais. Mãe e filhotes criam um vínculo que dura muitos anos. Como isso aconteceria com filhos sem os pais?

De acordo com Church, a presença dos mamutes poderia ajudar o meio ambiente. A tundra da Sibéria e da América do Norte está dominada por musgo e tem sofrido um processo de aquecimento global e emissão de gás carbônico. Há milhares de anos, era uma grande pastagem, pois os mamutes atuavam como engenheiros, quebrando o musgo, derrubando árvores e fertilizando a terra.

Ecologistas russos já levaram bisões e outras espécies atuais para um parque na Sibéria, na esperança de reverter o processo e restaurar o matagal — que protege o solo, impede derretimento e erosão, além de prender o gás carbônico. Mas mamutes seriam mais eficientes nesta tarefa.

Mesmo que o objetivo final da startup Colossal não seja atingido, a pesquisa pode trazer avanços importantes nas áreas de engenharia genética e tecnologia reprodutiva. Novos negócios podem surgir daí, levando retorno financeiro para os investidores.

Os pesquisadores também podem ajudar a proteger espécies que estão ameaçadas, mas ainda não extintas — por exemplo, com manipulação genética para torná-las mais resistentes ou para reproduzi-las mais rapidamente.

*Com informações do jornal New York Times