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Vênus e cometa 'se encontram' em dezembro; chuva de meteoros pode acontecer

Superfície de Vênus - Nasa
Superfície de Vênus Imagem: Nasa

Sarah Alves

Colaboração para Tilt, de São Paulo

27/08/2021 11h28

A descoberta de evidências de vida em Vênus no ano passado só aumentou a admiração dos terráqueos pelos mistérios do planeta. E agora em dezembro os olhares daqui da Terra certamente estarão mais atentos ao que acontece por lá.

Pesquisadores descobriram que Vênus e o cometa Leonard, detectado em janeiro deste ano, vão se cruzar. O fenômeno tem chances de resultar em uma chuva de meteoros com possibilidade, ainda imprecisa, de ser vista aqui da Terra, segundo artigo submetido ao periódico científico The Astronomical Journal.

De acordo com informações do site Space, em 19 de dezembro, três dias após a passagem do cometa Leonard, chamado de C/2021 A1, Vênus cruza quase o mesmo local. "A órbita do cometa e a órbita de Vênus se cruzam quase perfeitamente", explica Qicheng Zhang, principal autor do estudo, e estudante de graduação em ciências planetárias no Instituto da Califórnia de Tecnologia (nos EUA).

Caso ocorra uma chuva de meteoros que possa ser vista da Terra, as chances de observação são mais possíveis "a um corredor estreito através do Oceano Atlântico e as porções mais orientais do Canadá e do Brasil", diz um trecho do artigo.

Cometa de longo período

Os cometas são grandes bolas de gelo sujo, poeira e gases, que dão voltas em torno do Sistema Solar. Nessas passagens, podem deixar rastros de sujeiras — as chuvas de meteoros. De maneira geral, os meteoros são poeira e rocha espaciais, que causam o efeito que conhecemos como estrelas cadentes.

Em casos mais raros, a chuva de meteoros é causada por cometas de longo período (tecnicamente chamados cometas de trajetória hiperbólica), que podem demorar até séculos para voltar ao mesmo local. Para se ter ideia, o trajeto é tão demorado que a mesma visita nunca se repete durante o tempo de vida humana.

É o caso de Leonard, que deve levar 80 mil anos para retornar ao mesmo local. Isso se não for destruído antes, já que qualquer cometa convive com o risco de ser desintegrado pelo calor do Sol.

Preparem os telescópios?

O artigo diz ser impreciso cravar se a chuva de meteoros conseguirá ser observada da Terra ou mesmo se vai ocorrer. A hipótese é difícil, mas não impossível, segundo o autor do artigo. "As chances não são particularmente boas para observar este evento, mas não está fora do reino das possibilidades e não seria completamente surpreendente se algo acabasse sendo observado."

Isso acontece porque ainda não há certeza sobre a intensidade de Leonard em sua rota, pela incapacidade de registro exato dos destroços. O cometa precisa estar ativo para que a chuva de meteoros aconteça, e, neste caso, só daria para afirmar isso se ele estivesse a uma distância entre 500 e mil vezes do Sol em relação à da Terra, e já em atividade.

"Se tivéssemos uma detecção positiva de meteoros em Vênus a partir deste evento, isso nos diria que este cometa estava bastante ativo em grandes distâncias do Sol", comenta Qicheng Zhang.

No entanto, caso o fenômeno possa ser visto, telescópios menores e equipamentos não profissionais já são suficientes para identificar o "tímido flash", descrevem os cientistas. A equipe acredita ainda que a própria passagem do cometa também poderá ser vista com ajuda dos aparelhos.

Indicar a chuva de meteoros seria mais fácil se Leonard sofresse uma explosão muito grande, "o tipo que poucos cometas na história produziram". "Isso não é algo que você normalmente esperaria ver em um cometa e seria altamente incomum", completa Zhang.

Visualização em Vênus é difícil

Um fato interessante sobre o fenômeno é a dificuldade em ver o céu na superfície de Vênus. A grande atmosfera de dióxido de carbono que cobre o planeta impede que exista pausa nas nuvens. Acima disso, no entanto, as condições são semelhantes à da Terra, criando um céu noturno parecido ao visto por aqui.

Ou seja, acima das nuvens, a chuva de meteoros acontece de forma muito parecida. "Não consigo pensar em nenhuma razão pela qual você não veria listras de estrelas cadentes enquanto as coisas queimam", disse o cientista planetário Paul Byrne, da Universidade de Washington (EUA), ao site Space. No entanto, podem acontecer mudanças na cor em que os meteoros são vistos, por exemplo.

Registro em Marte

Em outubro de 2014, o cometa Siding Spring passou por Marte a uma distância ainda mais próxima da que será registrada em dezembro, causando uma chuva de meteoros. Na ocasião, a missão MAVEN (Atmosfera de Marte e Evolução Volátil, em inglês), da Nasa, registrou o rastro de poeira espacial.

O encontro entre Vênus e o cometa Leonard em dezembro será bem diferente: além da maior distância entre os corpos, Marte possui quatro orbitadores — como o MAVEN — enquanto Vênus tem apenas um, o japonês Akatsuki. Ou seja, uma cobertura de captação muito menor em relação à do planeta vermelho.