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É seguro comprar vitaminas que inteligência artificial recomenda?

Suplementação personalizada de vitaminas oferecida por apps pode não ser capaz de corrigir deficiências nutricionais  - Getty Images
Suplementação personalizada de vitaminas oferecida por apps pode não ser capaz de corrigir deficiências nutricionais Imagem: Getty Images

Rosália Vasconcelos

Colaboração para Tilt

07/07/2021 04h00

Startups que oferecem suplementação de vitaminas, minerais e outros produtos por assinatura estão se tornando um filão de negócios no mercado das health techs (empresas com foco na junção de saúde e tecnologia), especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas será que dá para confiar?

A partir de buscas em sites internacionais, é possível ver que elas destacam a proposta de personalizar um hábito que já existe em muitos países: o de comprar polivitamínicos de um jeito prático. Em geral, elas afirmam que se baseiam em estudos científicos e uso de inteligência artificial para que as recomendações de vitaminas, minerais, fitoterápicos, entre outros, sejam direcionadas ao perfil de cada consumidor.

Para isso, o(a) cliente responde a um questionário sobre seu estilo de vida — e porque procura a suplementação. Após análise, a empresa envia os produtos para o endereço indicado.

De acordo com especialistas ouvidos por Tilt, a assinatura de serviços como esses que unem tecnologia e saúde não é recomendada por aqui. Para eles, por mais detalhadas que sejam as informações reunidas no questionário, ele não é capaz de substituir uma avaliação clínica feita por um profissional de saúde das áreas de endocrinologia e nutrição, além do que pode ser complementado com exames de sangue. Outro alerta é que o consumo em excesso de polivitamínicos pode fazer mal à saúde.

"Ainda faltam estudos robustos, randomizados e controlados para confirmar o papel exato da inteligência artificial na produção e uso de compostos vitamínicos", diz o professor Carlos Antonio Negrato, do curso de medicina da USP (Universidade de São Paulo) em Bauru (SP).

Segundo ele, não é possível afirmar que, da maneira individualizada como propõem empresas do ramo, os sistemas de inteligência artificial desenvolvidos até agora sejam eficientes a ponto de entender as necessidades de nutrientes por uma pessoa sadia.

Aplicativo oferece quase o mesmo que farmácia

Da mesma forma, a complementação vitamínica personalizada feita por meio de um aplicativo pode não ser capaz de corrigir deficiências nutricionais específicas ou prevenir doenças. Na prática, o resultado alcançado com um app não é tão diferente de ir até uma farmácia e escolher um complexo vitamínico de prateleira, de acordo com os especialistas.

"Fiz a aplicação de minhas informações de saúde em um site e obtive como resposta a sugestão de dois carotenoides, entre outras substâncias. Um deles, a astaxantina [antioxidante], que não tem nenhuma recomendação por ter poucos estudos, e o outro, a luteína, com estudos mostrando a melhora da cognição em idosos", relata Sérgio Rupp de Paiva, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e membro da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.

"Entretanto, não percebi no quiz [questionário] perguntas sobre o consumo de folhas verdes escuras ou de abacate [fontes de luteína], que podem ser suficientes", aponta o docente como possível falha.

Nem todo excesso sai no xixi

Existe uma ideia geral de que, ao consumir vitaminas além do necessário para o organismo, tudo o que sobrar será eliminado pelo corpo. Mas não é bem assim. De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o excesso de vitaminas pode representar riscos à saúde e nem todo tipo é liberado no xixi.

No Brasil, as preparações à base de vitaminas podem ser produzidas como alimentos ou medicamentos, a depender de sua composição, limites e, principalmente, finalidade. No caso dos suplementos alimentares de vitaminas, eles devem seguir as regras da Resolução RDC nº 243, de 2018, e da Instrução Normativa IN nº 28, de 2018, da Anvisa. Elas são regulamentações de controle que limitam os níveis de cada nutriente nas fórmulas.

Segundo Sérgio Rupp, o uso de polivitamínicos e minerais só é recomendado após medidas para corrigir a dieta alimentar, que deve ser bem equilibrada e colorida para satisfazer as necessidades de micronutrientes de maneira natural.

O médico endocrinologista Henrique Suplicy, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e professor aposentado da UFPR (Universidade Federal do Paraná), explica que existem dois tipos de vitaminas: as solúveis, que o corpo elimina (como as vitaminas C e do complexo B), e as lipossolúveis, que ficam armazenadas no organismo (como as vitaminas A, D, E e K).

"O excesso de algumas vitaminas pode afetar o fígado, provocar cálculo renal, alteração óssea, queda de cabelo e sobrancelhas. O consumo [suplementar] de vitamina só deve ser feito por indicação. A pessoa que se alimenta de forma saudável não tem necessidade de tomar suplementação de vitaminas", reforça Suplicy.

De acordo com dados da SBAN (Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição) e da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), o consumo em excesso pode:

  • Vitamina A - provocar fibrose hepática, hipertensão intracraniana e hipercalcemia;
  • Vitamina B6 (piridoxina) - causar neuropatia pelo teor tóxico;
  • Vitamina D - provocar cálculo renal, alteração óssea, esclerose de vasos sanguíneos e risco de AVC;
  • Vitamina E - aumentar o colesterol;
  • Vitamina K - interferir na coagulação, tem efeito laxativo e pode causar alteração hepática.

Afinal, qual é o produto vendido pelas health techs?

Embora tenham um histórico recente no mercado de tecnologia, as health techs com foco em personalização de vitamínicos têm formado um grande banco de dados a partir dos seus questionários, com informações sobre saúde, hábitos alimentares, esportivos e de sono. Essas informações são um tesouro para indústrias desses segmentos, como as farmacêuticas.

O professor Leandro Almeida, do Centro de Informática e Tecnologia da Informação da Universidade Federal de Pernambuco, é especializado em health tech. Ele diz que startups com esse propósito são muito mais interessantes para o investidor final (grandes empresas) do que exatamente para o cliente que vai consumir o produto "personalizado".

No questionário de um app que oferece suplementação, é preciso fornecer dados relevantes para o mercado, alimentando um banco de dados vastíssimo. É preciso estarmos atentos a isso.

"O Brasil ainda tem carência de tecnologia em saúde, que é um mercado que se expande no mundo todo. Mas, no caso de aplicações para indicar compostos e vitaminas nutricionais, é mais indicado um profissional de saúde, um nutrólogo, que poderá fornecer com mais eficácia os nutrientes que cada pessoa precisa, para que não faça mal à saúde", orienta Almeida.

A Anvisa reforça o mesmo que os médicos: consumo de vitaminas deve ter orientação médica-nutricional.