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Achei que a taquicardia mostrada pelo smartwatch era paranoia, mas não era

Camila descobriu que batimentos cardíacos estavam irregulares com ajuda de relógio - Arquivo pessoal
Camila descobriu que batimentos cardíacos estavam irregulares com ajuda de relógio Imagem: Arquivo pessoal

Camila Corsini

Colaboração para Tilt

05/07/2021 04h00

Boa parte da minha família, do lado materno e paterno, tem histórico de doenças cardiovasculares. Isso sempre me fez uma pessoa muito regrada com check-up médico periódico e exames de sangue todos os anos por precaução. Em junho de 2020, um mês depois de um tio de 50 anos ter um infarto, coloquei na cabeça que precisava comprar um smartwatch como incentivo para ter uma vida mais saudável.

Eu já usava uma pulseira fitness simples há alguns meses, a Mi band 3, da Xiaomi, mas queria algo mais sofisticado. Decidi comprar o Apple Watch 3. Apesar de não ser o último modelo disponível e não ter a capacidade de realizar um eletrocardiograma, como o modelo a partir da linha Series 4, acreditei que era uma boa opção para quem estava começando a ampliar a atividade física.

No primeiro dia de uso, precisei fazer uma caminhada longa e que exigia maior esforço do que eu estava acostumada. Fui sedentária durante toda a adolescência e, aos 23 anos, no meio de uma pandemia e em home office, não era diferente.

Coração acelerado "sem motivo"

Era um trajeto de 1,6 km predominado por descida. Depois de uns 15 minutos, o relógio apitou avisando que meus batimentos por minuto (bpm) estavam em 210. Eu não tinha ideia do que aquilo significava e nem o que seria um patamar aceitável, mas sabia que estava acima do considerado normal. Nos dias seguintes, continuei monitorando. Em caminhadas curtas sem esforço, a frequência chegava a 130 bpm. Em repouso, nunca menos que 100 bpm.

Usei o "Dr. Google" para tentar descobrir o que era frequência média padrão de bpm. Os primeiros resultados me mandaram procurar um médico urgente: para uma pessoa da minha idade e do sexo feminino, estava muito acima do patamar que já é considerado muito alto.

De acordo com o diretor do Centro de Parada Cardíaca e Ciência da Ressuscitação do InCor (Instituto do Coração), Sérgio Timerman, o nosso coração bate entre 60 e 100 vezes por minuto quando está em repouso. "Quando esses batimentos superam 100 vezes por minuto, nós chamamos de taquicardia. É normal que um coração bata de forma mais acelerada durante um exercício físico e, conforme a pessoa descanse e relaxe, volte ao normal", explicou a Tilt.

"Se isso não acontecer ou a pessoa tem a sensação de coração acelerado e palpitação mesmo em descanso, ela pode ser diagnosticada com a taquicardia", acrescentou.

Decidi marcar uma consulta com o cardiologista o mais rápido possível. Eu só queria ter a certeza de que tinha entrado em paranoia à toa. Afinal, apesar do sobrepeso, tinha 23 anos, não fumava, bebia pouco, praticamente não comia frituras e fast food, hábitos que a ciência já mostrou que podem impactar nossa saúde.

Contei para o médico tudo o que havia acontecido nos últimos dias. A primeira coisa que ele me pediu foi calma, mas completou dizendo que frequentemente recebia pacientes com alertas parecidos e que confirmavam posteriormente problemas a partir do monitoramento de smartwatches.

O doutor Sérgio Timerman concordou com a percepção do meu médico. Segundo ele, esses dispositivos se tornaram aliados para identificar irregularidades e incentivar os pacientes a buscar ajuda médica.

"Os smartwatches têm sido bem úteis para o diagnóstico de arritmias. Esses equipamentos têm aplicativos muito interessantes. Além de detectar arritmia, taquicardia e fibrilação atrial, eles disparam um sistema de alerta. Se a pessoa estiver passando mal e não consegue atender ao alarme, o smartwatch pode chamar o serviço de emergência", disse.

Voltando ao meu caso, ainda no consultório, o cardiologista me examinou e disse que a frequência cardíaca realmente era alta. Poderia ser fruto de nervoso e estresse momentâneo? Poderia, mas que certamente não era apenas isso.

Diagnóstico: taquicardia

Com o pedido para uma bateria de exames em mãos, ele me apresentou três potenciais culpados: uso de anticoncepcional, problema na tireoide e uso de remédios psiquiátricos (hipótese descartada, pois não tomava). Após me consultar com a ginecologista e um endócrino, as duas primeiras suspeitas também foram riscadas da lista — o entrevistado doutor Timerman adicionaria os fatores de riscos: pressão alta e diabetes. Mas também não era o meu caso.

Durante os meus exames cardíacos, o holter 24 horas (exame semelhante ao eletrocardiograma, que monitora a frequência cardíaca por um dia inteiro) indicou uma média de 99 bpm em repouso. Já o teste ergométrico, também conhecido como "exame da esteira", chamou a atenção: em menos de um minuto, em uma caminhada leve, fui de 110 bpm para 190 bpm.

Como os outros exames não indicaram nada anormal ou mais grave, o diagnóstico final foi taquicardia — um dos tipos de arritmia que podem ocorrer no sistema elétrico do coração. Entendi que, em curto prazo, isso não me traria problemas. Mas que, se eu não descobrisse agora, isso poderia agravar e trazer maiores problemas no futuro, segundo o meu médico.

A orientação não foi incluir remédio, apenas mudança de hábitos. Dali em diante comecei o acompanhamento com uma nutricionista, além da endocrinologista, e inclui exercícios físicos no meu dia a dia. Tentei não ignorar o controle dos batimentos pelo relógio e ficar de olho nos sintomas físicos.

De acordo com o meu médico, ao menor sinal de falta de ar ou daquela sensação de o coração "sair pela boca", era para eu pegar mais leve e procurá-lo novamente. Aos poucos, notei que essas pequenas mudanças me fizeram muito mais ativa e tolerante ao esforço físico.

Sobre isso, o doutor Timerman explicou que pessoas sedentárias podem ter taquicardia principalmente pela falta de condicionamento físico.

Covid-19

Em fevereiro deste ano, porém, peguei covid-19, e fui obrigada a desacelerar. Apesar do quadro leve e boa oxigenação, eu não pude fazer exercícios por um tempo. Depois de recuperada, já era hora de um novo check-up com o cardiologista. Mesmo com a pausa forçada, tanto os exames físicos e laboratoriais indicaram que meus batimentos já estavam bem mais baixos — por volta de 90 bpm.

Ainda não era o ideal, mas não apresentavam mais riscos como alguns meses anteriores. Segundo o meu médico, algumas pessoas são mais propensas a ter batimentos elevados, independentemente de hábitos de saúde, e esse provavelmente era o meu caso — somado ao estresse, ansiedade e sedentarismo.

O diretor do Centro de Parada Cardíaca do InCor ressalta que ter os batimentos muito baixos também pode ser sinal de alerta. "Nunca deixe para ver depois", conclui.