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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Testei "apê smart" e me decepcionei com a falta de inteligência

Casai: startup oferece apartamentos "inteligentes" por assinatura - Lucas Carvalho/Tilt
Casai: startup oferece apartamentos "inteligentes" por assinatura Imagem: Lucas Carvalho/Tilt

Lucas Carvalho

De Tilt, em São Paulo

23/06/2021 04h00Atualizada em 23/06/2021 13h01

Sem tempo, irmão

  • Casai é uma startup mexicana que acaba de chegar ao Brasil unindo Airbnb e Netflix
  • Empresa oferece apartamentos "inteligentes" por assinatura em SP; preços vão de R$ 200 a R$ 700
  • Passei a noite em um desses apartamentos, mas descobri que não são tão "inteligentes" assim

Você pagaria entre R$ 200 e R$ 700 para passar uma noite em um apartamento inteligente? Essa é a proposta da Casai, uma startup mexicana que acaba de desembarcar no Brasil com um modelo de negócios que mistura Airbnb e Netflix: apartamentos por assinatura controlados pelo celular.

A convite da Casai, passei uma noite em um dos seus apartamentos "smart" em São Paulo. O que eu descobri foi que, embora se apresentem como "inteligentes", os imóveis da startup ainda não são tão futuristas quanto sua propaganda faz parecer. Mas têm potencial para isso.

O nome Casai (que no México se pronuncia "caçái", enquanto os executivos brasileiros chamam de "cazái") vem da junção das palavras "casa" e o "i" de "inteligente". Essa inteligência tem a ver com o aplicativo da startup, usado para agendar estadias, gerir a burocracia do aluguel e até manter contato com um concierge virtual.

Além disso, todos os apartamentos da empresa são equipados com o Google Nest, a caixinha de som conectada que responde a comandos de voz pelo Google Assistente; um Chromecast, o aparelho do Google que permite controlar a TV pelo celular; uma fechadura eletrônica que não precisa de chaves; uma smart TV e Wi-Fi de alta velocidade.

Em termos de tecnologia que você pode tocar, é aí que termina a inteligência dos apartamentos da Casai. As lâmpadas não são controladas por app, a geladeira não é conectada, nem as torneiras funcionavam com aproximação.

No apartamento onde eu fiquei hospedado, havia um adesivo com um QR code colado no microondas que levava a um site de receitas e um cooktop. Mas só isso. Segundo Luiz Mazetto, diretor geral da Casai no Brasil, a ideia é continuar fazendo "upgrades" aos apartamentos com o passar do tempo.

Mas o conceito de "inteligência" que a Casai promete é mais ligado à experiência geral do hóspede do que à parafernália digital que eu esperava encontrar no imóvel em si.

De acordo com Mazetto, o objetivo é oferecer uma estadia tão luxuosa quanto a de um hotel cinco estrelas —todos os 100 apartamentos da Casai no Brasil ficam em bairros de classe alta em São Paulo—, mas com a praticidade de usar um app como o do Airbnb.

"A Casai veio para unir o melhor de dois mundos: esse lado de localidade, de te fazer sentir em casa num apartamento alugado, com a consistência e sofisticação de um hotel", diz Mazetto. "Somos uma empresa de tecnologia que fornece serviço de hospitalidade."

Uma olhada de perto no apê inteligente

O app da Casai, disponível para Android e iOS, funciona bem, sem bugs ou travamentos. Mas algumas seções ainda esperam ser traduzidas —esbarrei mais de uma vez em uma tela com instruções em inglês ou espanhol, em vez do português que aparece em todo o resto do aplicativo.

Antes de ir até o apartamento, recebi por WhatsApp um contato da equipe da Casai. A primeira mensagem parecia ter sido enviada automaticamente, mas conforme eu enviava perguntas, ficava mais nítida a sensação de estar falando com uma pessoa de verdade, e não um robô. Um representante da Casai confirmou que se é proposital: o objetivo é tornar a experiência mais personalizada.

Mas a ausência de um tique verde que indicasse que eu estava falando com uma empresa no WhatsApp dá uma sensação de um contato quase improvisado — que, acredito, não ter sido o objetivo. O foco da experiência da Casai, porém, não é o WhatsApp, mas o seu próprio app. Foi ali que encontrei facilmente a senha que eu teria que digitar na fechadura eletrônica do apartamento para poder entrar sem usar chaves.

Fechadura eletrônica em apartamento da Casai em São Paulo (SP) - Lucas Carvalho/Tilt - Lucas Carvalho/Tilt
Fechadura eletrônica em apartamento da Casai em São Paulo (SP)
Imagem: Lucas Carvalho/Tilt

Além dos já citados Google Nest e Chromecast, havia só um cooktop elétrico que tornava a casa um pouco mais "tecnológica", mas não necessariamente inteligente.

Os dois aparelhos do Google, aliás, já estavam configurados quando entrei. Admito que fui até lá na expectativa de ter que passar alguns minutos pareando os aparelhos ao meu celular, mas foi uma grata surpresa ver que eles já estavam todos prontos para o uso e conectados a uma conta da Casai —ou seja, não precisei deixar minha senha em mais um canto da cidade.

O lado ruim dessa configuração prévia é que o Google Nest Mini só respondia em inglês —mesmo tentando trocar pelo app do Google Home, não consegui, o que, suspeito, seja um bug do Google.

E vale notar que o aplicativo da Netflix instalado na smart TV do quarto já estava logado na conta de alguém que passou por ali antes de mim e esqueceu de se desconectar. Um tipo de deslize que a própria Casai tenta contornar emitindo um alerta aos usuários prestes a fazer check-out para que eles não esqueçam suas contas nos aparelhos da casa.

"Nós incentivamos que as pessoas usem o recurso de espelhar o celular na tela da smart TV em vez de fazer login no app da televisão justamente para evitar esse tipo de caso", me disse Mazetto.

A não ser pela escassez de aparelhos conectados, não há muito do que reclamar da experiência. O Wi-Fi era mesmo bem rápido —atingi 270 Mbps no celular— e estável.

Mas vale destacar que a senha da internet no meu quarto também servia para as redes dos outros quartos da Casai no andar do prédio em que eu fiquei —o que, segundo Mazetto, é intencional. A empresa apenas sugere que o hóspede use a rede do seu próprio quarto.

Privacidade

Logins de Netflix esquecidos, senhas de Wi-Fi compartilhadas. Tudo isso por fazer você se perguntar: como a Casai lida com a privacidade dos seus hóspedes? Mazetto não deu respostas diretas sobre isso, mas garantiu que a startup se inteirou da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) antes de desembarcar no Brasil.

"Tivemos que fazer adequações mínimas porque a legislação no México já é muito parecida", disse o executivo, acrescentando que o Google Nest e o Chromecast não coletam dados pessoais de usuários. Como isso é possível, ele não explica.

Como qualquer produto do Google, Nests e Chromecasts costumam armazenar o histórico de atividade. Suponho que os dois aparelhos estivessem conectados a uma conta da Casai, por isso não precisei configurá-los. Se for o caso, os comandos de voz que dei ao Nest Mini e os vídeos que vi no Chromecast deveriam, sim, ficar salvos na conta da empresa.

Nesse caso, quem está armazenando meus dados é o Google, não a Casai. E esses dados não são ligados diretamente a mim. Mas, ainda assim, algumas pessoas podem ficar preocupadas com o destino dessas informações. Questionada sobre isso, a startup apenas reforçou que "não armazena dados dos hóspedes em nenhum dispositivo e está em conformidade com a LGPD".

Google Nest Mini - Lucas Carvalho/Tilt - Lucas Carvalho/Tilt
Google Nest Mini no apartamento da Casai em São Paulo (SP)
Imagem: Lucas Carvalho/Tilt

A política de privacidade do app da Casai diz que os dados que a empresa coleta no momento do cadastro (de número de telefone a comprovante de endereço e RG) podem ser usados por ela e também "para o compartilhamento com terceiros que vendam produtos ou prestem serviços relacionados" — uma prática comum no meio online, mas é fundamental que todos saibam disso.

A Casai tem parceria com outras empresas, como a WeWork, que oferece aos hóspedes um espaço em seus escritórios compartilhados; e com um laboratório particular que faz testes PCR de covid-19 em domicílio. Há também convênio com serviços de delivery e com aulas de educação física online.

Vale destacar que nenhum desses pontos vai contra a LGPD —pelo contrário. Mas é importante que futuros hóspedes saibam como seus dados são tratados pela Casai, ainda que as práticas estejam de acordo com a lei.

Vale a pena?

Entre os upgrades que a Casai diz estar preparando para tornar seus quartos mais inteligentes do que eles são hoje, o mais empolgante tem a ver com o Butler ("mordomo", em inglês): um sistema que centraliza no app da startup o controle de todos os aspectos da casa, da fechadura eletrônica ao Wi-Fi.

O plano é que, numa futura atualização, esse mordomo virtual também controle outros equipamentos, como as vindouras lâmpadas conectadas.

Após arrecadar R$ 100 milhões de investidores privados para a sua expansão no Brasil, a Casai vai precisar tirar o Butler do papel e bater de frente com rivais como a Nomah, da Loft (que tem um modelo de negócios semelhante), além da própria rede hoteleira e do Airbnb, para realizar por completo a promessa da "casa inteligente por assinatura". Ainda não foi desta vez.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que dizia uma versão anterior deste texto, no penúltimo parágrafo, o sistema "Butler" já existe e já está em funcionamento no app da Casai. A intenção da empresa é melhorá-lo. O erro foi corrigido.
Diferentemente do que dizia uma versão anterior deste texto, no oitavo parágrafo, a Casai possui 100 apartamentos em São Paulo, não apenas quatro. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL