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Como nosso DNA prova que nação brasileira foi produzida na desigualdade

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Bárbara Therrie

Colaboração para Tilt

16/06/2021 04h00Atualizada em 16/06/2021 17h03

Não é nenhuma novidade que somos um povo super miscigenado. Basta olhar ao nosso redor para vermos a mistura de raças, etnias e culturas. As ciências humanas têm explicado há anos em que contexto tudo isso se deu. Agora, é o nosso DNA quem nos ajuda a contar essa história. E o código genético é a prova de que a nossa origem foi violenta e baseada na desigualdade.

Os primeiros resultados do projeto DNA do Brasil, que quer montar a maior biblioteca de genomas do nosso país para tratar de questões de saúde pública, mostrou que 75% da nossa herança genética paterna é europeia, 14,5% é africana e apenas 0,5% é indígena. Do lado materno, 70% da nossa herança vem de mulheres africanas e indígenas.

Foram sequenciados e analisados o DNA de 1.247 pessoas em várias partes do Brasil. Até o final deste ano, o projeto pretende mapear o genoma de 15 mil pessoas.

Laura Moutinho, coordenadora do programa de pós-graduação em antropologia social da USP (Universidade de São Paulo), contou durante a sua participação no painel "Como o DNA reconstruiu a história do Brasil", promovido por Tilt na conferência para desenvolvedores TDC (The Developer's Conference), que os dados confirmam o que a historiografia, antropologia e sociologia já sabiam.

"O Brasil é uma nação miscigenada, os dados do projeto DNA do Brasil vêm para confirmar que essa nação foi produzida na desigualdade. Esse tipo de dado, olhar isso através do DNA é uma forma de reconsiderar o nosso próprio trabalho, (...) traz uma outra perspectiva e uma interlocução entre ciências e produções científicas distintas", disse.

Tilt publicou no fim do ano passado uma reportagem especial sobre esse tema.

"O estupro foi frequente"

Moutinho, que também é autora de "Razão, Cor e Desejo: uma análise dos relacionamentos afetivo-sexuais inter-raciais no Brasil e África do Sul", explica que existe uma ideia de que a nossa nação foi construída a partir de portugueses que "gostavam" mais de interagir com mulheres indígenas, africanas e mestiças.

"Eu diria que o estupro foi frequente, e mesmo quando negociado, não deixa de ser violento, porque tem uma relação de desigualdade. Eu acho que o genoma ajuda a gente a qualificar nossa hipótese a respeito da violência que está na base da produção da nossa nação", afirmou.

A pesquisadora destacou ainda que os portugueses não chegaram ao Brasil para criar um paraíso. Era uma máquina de guerra, um processo de colonização e incorporação de territórios. "O estupro é uma arma de guerra e é também uma forma de incorporação de outras sociedades. E as mulheres são parte constitutiva do processo colonial", explica.

Após ser questionada sobre a ideia romântica de um encontro de raças e da ideia de amor entre colonizadores e mulheres oprimidas passada pelas telenovelas, Tábita Hünemeier, professora de genética evolutiva da Universidade de São Paulo, reitera que não dá para falar de amor em uma estrutura violenta, com quatro séculos de escravidão seguidos por pelo menos mais meio século de uma política eugenista.

"Ninguém veio para cá para fazer amigos, eles vieram para cá para explorar o país. Claro que vai existir essa ideia de romantizado do brasileiro ser, não ser fruto disso, mas isso não se encaixa nem com os fatos históricos", disse a pesquisadora, que também é uma das coordenadoras do projeto DNA do Brasil.

Genocídio indígena

Hünemeier contou ainda que, do ponto de vista demográfico, até o século 17 só 10% da população era europeia, a maioria dela formada por homens. Por isso, o fato de termos 75% de cromossomo Y (herança paterna) europeu é de uma assimetria enorme e é resultado dessa política de dominação violenta.

Segundo ela, isso é explicado pelo declínio de 90% da população indígenas e pelo fato de os escravos terem sido trazidos para trabalhar e morrer de exaustão.

"Essa política violenta se estendeu até 1945, até a [Segunda] Guerra [Mundial], quando ficou chato seguir com a eugenia. A gente tem muito pouco tempo de história tendendo a ser igualitária no Brasil. A construção do Brasil foi com essas assimetrias enormes", afirmou.

Um outro ponto que chamou bastante atenção nos resultados do projeto DNA do Brasil foi a baixíssima porcentagem dos indígenas na herança genética paterna.

"É impressionante esse massacre quando a gente olha a pequena porcentagem paterna no caso da população indígena que é 0,5%", disse Laura Moutinho.

"Eles desapareceram, é raríssimo encontrar uma linhagem masculina indígena no Brasil. Isso mostra um modelo: destrói os homens e assimila as mulheres", concluiu Hünemeier.