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Quer cuidar bem dos seus dados? Comece entregando só para quem você confia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Bárbara Therrie

Colaboração para Tilt

12/06/2021 10h54

O que tem em comum entre dar o CPF numa farmácia, postar foto de restaurante no Instagram e pagar uma compra com cartão de crédito? Em todas essas situações, você está cedendo os seus dados a uma pessoa ou empresa e, assim, expressando confiança nelas para cuidar bem das suas informações.

Por isso, Christian Perrone, coordenador da área de direito e tecnologia do ITS Rio, sugere que sempre que estiver prestes a fornecer algum dado pessoal, você deve se fazer duas perguntas:

  • Será que eu preciso efetivamente desse serviço e da entrega desses dados?
  • Será que eu confio nessa pessoa/entidade/empresa para a qual eu estou entregando meus dados?

Se você está cedendo tudo de mão beijada, mas não confia em quem está recebendo essas informações, tem alguma coisa errada. Isso acontece porque apesar de todos os avanços tecnológicos e do advento das leis relativas à privacidade, o elemento mais crucial quando se trata de proteção de dados ainda é baseado na boa e velha confiança, que deve existir entre quem entrega dados e quem os recebe, segundo Perrone.

"A gente não se dá conta, mas querendo ou não, o sistema é baseado em confiança", disse Perrone durante o painel "Qual o caminho para ser dono do seu dado?" promovido por Tilt, no último dia da TDC (The Developer's Conference).

Ter a confiança de que seus dados serão bem cuidados também é importante para as empresas. De acordo com o coordenador da área de direito e tecnologia do ITS Rio, a proteção de dados deve ser vista não apenas como uma obrigação ou estar ligada à reputação da empresa — vazamentos podem manchar a imagem delas —, mas precisa ser encarada como uma oportunidade.

Ao ser a guardiã desses dados, a empresa pode usá-los para conhecer quem são seus clientes, como melhorar seus serviços para atendê-los e assim aprofundar ainda mais essa relação de confiança. Em outras palavras, ter a confiança das pessoas é bom para os negócios da empresas. "Esses dados podem gerar uma série de serviços e oportunidades econômicas", diz Perrone.

Da amizade à fé no sistema

O especialista afirma que essa confiança pode se dar no nível pessoal, quando além da relação comercial existe um sentimento de afeto ou até amizade. Um exemplo seria aquela loja em que você sempre compra roupa e tem um relacionamento próximo com o dono ou gerente.

"A gente pensa que essa pessoa é moral, que essa empresa tem um mecanismo de lidar com dados pessoais e que não faria mal para a gente", diz.

Um outro nível de confiança é aquele que você deposita no sistema. E não pense que confiança no sistema significa acreditar que ele é seguro, mas imaginar que ele foi estabelecido, pensado para ter proteção de dados, para ter em si salvaguardas e garantias.

Um exemplo bem prático é quando você paga com o cartão de crédito. A empresa não está confiando necessariamente em você, está confiando que o sistema de cartão de crédito vai pagá-la, e de que você fará sua parte pagando a fatura.

Outros pontos que ajudam na construção dessa confiança é a transparência, interação e atuação recorrente da empresa quando alguma coisa dá errado e ela dá suporte ao cliente, gerando um elemento de confiança com o consumidor. Outro elemento é a cultura de confiança.

Claro que existem leis que existem para garantir que essa relação de confiança seja mantida. Aqui no Brasil, é a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) quem obriga todo mundo que trata dados a criar sistemas internos que permitam a gente depositar a nossa confiança neles — fora o CDC (Código de Defesa do Consumidor).

Em suma, é a lei que vai garantir um maior grau de confiança nas instituições.

Cuidado ao postar foto de comida

Até aqui falamos de dados que você fornece conscientemente, mas tem aqueles que você entrega sem nem perceber. É o caso da localização. Muita gente não se dá conta de que quando tira uma foto, por exemplo, estamos incluindo metadados do local onde a imagem foi captada.

Será que você já parou para pensar nisso quando postou uma imagem sua do seu restaurante favorito?

Segundo Perrone, se pensarmos que você pode ter um dado de localização de diversos lugares, diversas vezes e de vários dias no mesmo local, é possível observar um comportamento repetitivo.

Um exemplo de como essa inferência acontece está nos serviços de streaming, tipo Netflix, Spotify, etc. Já reparou que quando você assiste a um filme, documentário ou série, você recebe sugestões parecidas?

De acordo com Perrone, eles conseguem fazer isso com base na observação de uma série de comportamentos e também porque inferem características das pessoas, como gostar de filmes de ação ou adorar séries com uma determinada atriz.

No caso dos dados de geolocalização, existem sistemas que usam inteligência artificial para definir padrões de comportamento relacionados aos lugares em que você esteve.

Ligando os pontos, pessoas mal-intencionadas podem ter acesso a uma série de dados que, a princípio, nunca foram passados pela pessoa. "Você pode inferir onde é a casa da pessoa, o trajeto para o trabalho, onde é o colégio das crianças", diz.

Nem precisa dizer que isso, além de intrusivo, pode ser perigoso.