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Heroína e vilã: a percepção de jovens brasileiros sobre a vida na internet

Getty Images
Imagem: Getty Images

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

11/06/2021 04h00

Já pensou como seria a sua vida sem internet? Se você tem entre 15 e 29 anos, essa realidade talvez seja impensável. Mas, ao mesmo tempo que o mundo digital contribui para os estudos e lazer, a avalanche de informações da rede também atrapalha a saúde mental dessa faixa etária, segundo mostra a pesquisa Atlas das Juventudes.

O estudo, coordenado pela rede Em Movimento e pelo Pacto das Juventudes pelos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), analisou a relação de jovens brasileiros com o papel da internet em suas vidas. E o resultado é que ela é paradoxal e conflituosa. A internet proporciona pertencimento, mas gera ansiedade, procrastinação e baixa autoestima na percepção dos entrevistados.

"Pensando metaforicamente como se o jovem fosse uma planta em crescimento, essa inundação [de informações] dá a ilusão de que está 'alimentando' as juventudes, quando na verdade pode estar drenando ou até mesmo impedindo seu crescimento", destaca o estudo.

O Atlas das Juventudes foi realizado com o objetivo de preencher lacunas de dados sobre jovens brasileiros. Por meio de análises quantitativas e qualitativas, os pesquisadores reuniram os resultados para que eles possam munir gestores e tomadores de decisões, explica Raiany Fernandes, coordenadora de comunicação do Em Movimento.

"Só é possível construir políticas públicas eficazes se houver evidências que comprovem e detalhem uma necessidade", afirma.

Conexão e pertencimento

Enquanto os millennials (nascidos entre 1980 a 1994) acompanharam o desenvolvimento e popularização da internet, a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) já nasceu sabendo, é uma nativa digital. Por isso o dia a dia no ambiente digital já está tão enraizado em suas vidas.

A geração Z, por exemplo, não consegue imaginar uma vida sem estar criando conteúdo, sem estar se relacionando digitalmente, destaca Fernandes. "[Eles] não fazem muita diferenciação entre a vida online e offline."

É com essa força do hábito que muitos jovens encontram no ambiente digital a sensação de pertencimento de grupo, de fazer parte de comunidades. Os exércitos de fãs de BTS que se organizam para colocar os ídolos nas paradas, ativistas que exigem que empresas parem testes em animais e o aquilombamento digital que tem acontecido dentro do movimento negro são alguns exemplos.

"A geração Z acredita que a internet é um veículo não só de informação, mas também a oportunidade de fazer a diferença. A geração millennial, que é de jovens um pouco mais velhos, está aprendendo isso, ainda mais agora com o espaço-tempo da pandemia", analisa Fernandes.

O combate aos preconceitos e o engajamento político são exemplos da percepção da coordenadora. "Estamos vendo um jovem que tem muito mais empatia para com o outro. A internet é o principal terreno para levantar essa bandeira", acrescenta Carla Mayumi, pesquisadora de educação e sócia da empresa TalkInc., que realizou as entrevistas do Atlas das Juventudes.

Relacionamento tóxico e o lado B da internet

Por outro lado, a busca por conhecimento e pertencimento na internet pode ser um revés para a produtividade, a autoestima e até a saúde mental, segundo alguns jovens participantes do Atlas. Muitos deles relatam ansiedade, depressão e procrastinação gerada pelo uso excessivo da rede.

A pressão e a insegurança ligadas ao medo do futuro, que envolvem mudanças como iniciar a vida adulta e encontrar uma profissão, se tornam ainda mais fortes diante dos influencers, discursos motivacionais e pressão social para "ser alguém" na vida, explica Carla Mayumi.

A coordenadora Fernandes completa dizendo que, na pandemia, a juventude está ainda mais angustiada, sentindo que essa transição para a fase adulta está sendo prejudicada.

Por uma parte ela me informa e me distrai, por outra, ela acaba com minha autoestima e me deixa muito ansiosa e triste" estudante do ensino médio, de 15 anos, em Aracati (CE)

É a heroína e ao mesmo tempo a vilã, pois em relação às redes sociais, elas influenciam e tiram a sua atenção da sua vida real" aluno do ensino superior, de 20 anos, em Imperatriz (MA)

O uso excessivo de tecnologias para me comunicar tem me deixado estressada e a falta de contato humano, um pouco deprimida" aluna de faculdade, de 20 anos, em Caçapava do Sul (RS)

Porém, conseguir identificar os aspectos negativos da vida conectada é um bom sinal para esses jovens, pois aponta um desejo de mudança, afirma Mayumi.

"Não são todos que percebem esse problema, mas ainda é um universo em construção. Os mais conscientes, por assim dizer, estão até saindo das redes sociais ou se afastando dos smartphones. Nadando contra as correntes em um mar de informações", destaca a pesquisadora.

Aprendizado x superficialidade das informações

A internet é fonte de conhecimentos que, inegavelmente, ajudam o jovem a evoluir e ampliar repertório. Antigamente, isso era mais difícil, lembra Mayumi. Os livros físicos eram os meios mais fáceis de se aprofundar nos assuntos de maior interesse.

Entre os temas mais desejados dos participantes do Atlas, citados na pesquisa, estão: finanças, política, pautas identitárias, motivação, liderança, empreendedorismo, educação sexual e saúde.

A gente descobriu esse mundo digital de muitas lives, então a informação está aí, né? O YouTube agora é o nosso professor fantástico" jovem de 26 anos de Vale do Capão (BA)

Buscamos guardar R$ 100 por mês numa conta poupança. Vi em uma página do Facebook que no final do ano dá R$ 1.000. A partir daí, achei uma ideia boa, falei 'vamos fazer!'" jovem de 22 anos de Manaus (AM)

Mas há um porém nessa facilidade de explorar conhecimento. É preciso ficar atento à superficialidade das informações, reforça o estudo. As famosas "pílulas de conhecimento" podem levar a uma falsa sensação de saber.

"Às vezes, temos a sensação de que um jovem sabe muito sobre um determinado assunto, mas isso não resiste a uma conversa aprofundada. Porque ele leu uma coisa rápida, generalista, não clicou no link, não fez um curso, não se dedicou", explica Mayumi.

Perspectiva de bolha e importância dos dados

Quando falamos em jovens brasileiros e internet, estamos considerando apenas um percentual dos que têm acesso. Ainda é caro e difícil estar conectado em nosso país: um em cada quatro brasileiros não usa a rede.

Os menores índices se concentram nas classes sociais mais pobres e nas regiões afastadas dos grandes centros. Essa exclusão digital limita o enorme potencial transformador das novas tecnologias.

"A gente acaba tendo uma perspectiva de bolha, do jovem que tem wi-fi em casa, plano de dados no celular, serviços de streaming, que pode ficar muito tempo navegando. Mas há pessoas que usam tão pouco a internet que nem há como ser prejudicial", ressalta a pesquisadora Mayumi.

"O jovem de baixa renda, que mora em um lugar mais precário, quando tem acesso, faz um uso muito prático, básico. Não dá tempo de ficar nem ouvindo música, porque consome banda, energia", acrescenta.

Com uma considerável parcela da população brasileira sendo excluída das transformações, se fazem urgentes medidas e políticas públicas que visem a inclusão e democratização digital.

"Nós precisamos de acessibilidade para os jovens periféricos, quilombolas, indígenas, para que eles tenham as mesmas oportunidades que os demais. O Atlas surgiu com essa missão", ressalta Fernandes.