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Como capacetes "de astronauta" têm ajudado pacientes de covid-19 internados

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)

09/06/2021 04h00Atualizada em 09/06/2021 11h01

O uso de cabines de proteção, que mais parecem "capacetes de astronautas", tem ajudado pacientes durante o tratamento da covid-19. Por ser menos invasivo, o equipamento se tornou alternativa à intubação em hospitais brasileiros.

Atualmente, há cinco modelos com registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), responsável pela autorização de uso. Basicamente, os "capacetes" ajudam no controle da oxigenação e facilitam a administração de medicamentos. Existem versões descartáveis e reutilizáveis.

Tilt consultou três empresas que comercializam oficialmente o produto no Brasil para entender melhor como a tecnologia funciona e as diferenças entre os equipamentos. Os preços variam entre R$ 490 e R$ 2,3 mil.

Os capacetes não substituem os respiradores, mas têm função complementar. Confira:

Bolha de respiração

A primeira cabine de proteção registrada na Anvisa (em julho de 2020) ganhou o nome de BRIC (Bolha de Respiração Individual Controlada). Ele é vendido pela empresa LifeTech.

A cabine pode ser utilizada nas enfermarias, enquanto o paciente espera a abertura de vagas na UTI (Unidade de Tratamento Intensiva) e/ou quando a saturação de oxigênio fica abaixo de 90%. "Quanto antes utilizar, melhor", afirma o engenheiro da computação Guilherme Thiago de Souza, idealizador do equipamento.

A bolha é feita de látex cirúrgico e possui uma escotilha que permite a administração de remédios e a passagem de alimentos, por exemplo. O produto não é reutilizado, mas pode ser usado por tempo indeterminado por uma única pessoa.

"Já ocorreram 72 horas ininterruptas de uso. Outro paciente utilizou por 50 dias, por 14 horas diárias", explica Souza.

Na bolha, é possível aumentar o índice oxigênio para até 100%. A avaliação da oferta desses níveis varia por pessoa, o que deve ser analisado e regulado por um fisioterapeuta ou médico responsável.

O equipamento começou a ser planejado em maio de 2020. Segundo a empresa, mais de 3 mil unidades foram vendidas para mais de 100 hospitais de 15 estados brasileiros. Ela custa R$ 2,3 mil, preço mais alto em relação aos concorrentes.

Capacete reutilizável

A cabine de respiração chamada Elmo recebeu o registro na Anvisa em outubro de 2020. Uma de suas vantagens é a possibilidade do modelo ser usado por mais de uma pessoa após devida higienização, destaca Álvaro Russo, o gerente de marketing da Esmaltec, responsável por sua produção.

O equipamento foi desenvolvido graças a uma grande parceria entre a empresa e várias instituições de ensino e pesquisa, como a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Federação das Indústrias do Estado do Ceará, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Ceará, Universidade Federal do Ceará e Universidade de Fortaleza (Unifor).

Segundo o professor Vasco Furtado, diretor de inovação da Unifor, o custo é menor em relação ao respirador tradicional. O preço do Elmo gira em torno de R$ 1,2 mil — o valor pode variar devido ao ICMS de cada estado. Enquanto um respirador convencional no mercado tem um preço mínimo de R$ 15 mil, afirma.

O capacete pode reduzir as chances de intubação em 60%, segundo o docente. Em um hospital de Fortaleza, mais de mil pessoas usaram o Elmo, acrescenta. A Esmaltec diz ter vendido 7 mil unidades.

De acordo com Furtado, uma segunda versão da tecnologia está nos planos. "Queremos continuar a avaliar a qualidade do capacete com base em dados fornecidos pelos hospitais, e o Elmo 2.0 vai envolver as melhorias e aumentar a presença eletrônica no produto, com a instalação de sensores e a possibilidade do uso fora de hospitais, em ambulâncias por exemplo."

Capacete de sete vidas

Outro equipamento disponível no mercado é 7Lives - Helmet (Capacete de sete vidas, em tradução livre). Registrado na Anvisa em dezembro do ano passado, ele usa tecnologia similar aos concorrentes. Mas o preço é menor, variando entre R$ 490 a R$ 980, dependendo do tamanho.

O capacete é feito de PVC atóxico e a membrana de vedação do pescoço é produzida com látex ou silicone, para dar mais conforto na hora de usar, informa a empresa Medicalway, responsável pela montagem.

Para fixação do produto na cabeça, o equipamento conta com duas alças de polipropileno com fechos ajustáveis e neoprene, explica Renato Abreu, sócio proprietário da Agile Med, que desenvolveu o projeto do capacete.

A interface dele conta com duas válvulas para conexões dos circuitos de fluxo inspiratório e/ou expiratório. Próxima à boca do paciente, há ainda uma válvula de alimentação que permite tanto o fornecimento de líquidos, quanto de alimentação através da passagem de sondas, acrescenta.

Ao todo, 30 hospitais utilizam o equipamento e mais de 3 mil foram vendidos.

Localizado na capital paranaense, o Hospital Vita é um deles. A unidade adotou o aparelho em abril, no auge da segunda onda do coronavírus na cidade, quando faltaram respiradores para atender tantos pacientes. O superintendente médico do hospital, Gustavo Justo Schulz, reforça que o capacete não deve substituir o respirador, mas que ele pode ajudar no tratamento se for preciso.

"Tenho uma percepção de que 50% dos pacientes que usaram os capacetes não vão para a intubação. Para alguns, esta ventilação (por VNI) é suficiente para solucionar o quadro clínico", explica o médico.