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Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai


Fernando Holiday: "direita não se propõe a discutir tanto o racismo"

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt

27/05/2021 15h42Atualizada em 27/05/2021 17h25

A cantora de funk MC Carol e o vereador de São Paulo Fernando Holiday participaram do UOL Debate desta quinta-feira (25) para falar sobre as suas participações no projeto documental "Origens", que mostra como exames de DNA se tornaram ferramentas para resgatar a ancestralidade negra do povo brasileiro. Entre os assuntos destacados, os dois entrevistados falaram ainda sobre o racismo estrutural, discriminação na infância e a falta de oportunidades para a população negra.

Apresentado por Fabíola Cidral, o debate contou também com a participação de Helton Simões Gomes, editor do núcleo de diversidade do UOL e um dos líderes do projeto "Origens".

A partir do exame genético, a MC Carol descobriu que 72,6% de sua origem é africana, enquanto 25,6% é europeia. Já Holiday, tomou conhecimento de que 67,9% de sua origem é da África, 26,4% da Europa, 3,9% da América e 1,7% da Ásia.

Confira os principais destaques:

Racismo na infância e a falta de representatividade

Um dos pontos mais marcantes do UOL Debate foi o momento no qual os entrevistados relembraram que a discriminação já foi fortemente sofrida logo no início da vida escolar, na pré-escola, quando outras crianças julgavam a cor da pele deles.

MC Carol ressaltou que as crianças são influenciadas pelos pais e pela falta de referências de pessoas negras na mídia. Uma das poucas figuras que a funkeira lembra da época é o Saci-Pererê do programa de televisão "Sítio do Pica-Pau Amarelo", mas que ela tinha medo.

"Eu tinha um vizinho que ficava fingindo que era Saci-Pererê, eu tinha um pavor, é a única coisa que lembro de negro na televisão. Ou novelas de escravos, mas na época eu não assistia. Como uma criança branca vai ver uma criança negra como bonita ou enxergar como igual se não tem nenhum tipo de referência?", questionou a MC.

Foi então que Fernando Holiday se lembrou de um momento dolorido também na infância. O episódio aconteceu quando ele tinha 6 anos.

"A gente tinha o costume de que toda sexta-feira era o dia do brinquedo, e em uma delas, um dos primeiros dias de aula, lembro que peguei um carrinho para brincar no parque. Fui um dos últimos a sair da sala, já que eu era muito tímido. Um menino ficou na sala e me falou: 'você vai? Você não pode ir, meus pais não deixam (...) Eles dizem que pretinhos igual você roubam nossos brinquedos'. Aquele dia eu fiquei na sala, chorando num canto", contou o vereador.

Uma professora, também negra, que passava pelo corredor da sala de aula o acolheu. Ela chorou ao saber do ocorrido e deu o conselho de que nunca mais ele deveria baixar a cabeça para pessoas que pensassem daquele jeito. "Acho que isso acabou influenciando até a formação dos meus ideais", acrescentou.

"Toda criança negra já ouviu na infância conselhos do tipo: 'você não pode ficar perto da bolsa de ninguém, não pode fazer isso, aquilo, não pode entrar na casa de ninguém, fica sempre na porta, não fica sozinha', sabe?", completou MC Carol. "É isso. Você cresce e você se pega ainda dentro disso."

Direita não se propõe a discutir tanto o racismo

Outro tema abordado no UOL Debate envolveu o apoio de movimentos políticos para pautas de combate ao racismo. Para o vereador Fernando Holiday, que se diz atualmente de centro-direita, a esquerda brasileira se dedica mais aos temas ligados aos movimentos negros.

A direita e a centro-direita "não se propõem a debater esses temas relacionados ao racismo e à população negra", comentou ao responder uma pergunta feita pela apresentadora Fabíola Cidral. "Isso é muito escasso ainda na direita", acrescentou o vereador.

Holiday, contudo, ponderou que já começam a surgir algumas figuras como ele e o professor Paulo Cruz, que discute isso sobre uma outra perspectiva.

Cotas: opiniões divididas

Holiday afirmou discordar do movimento negro no sentido de que políticas públicas específicas vão resolver o problema do racismo. Para ele, as cotas, por exemplo, possuem uma série de problemas. E um deles é que elas envolvem a determinação de quem é negro.

"Quando você dedica políticas públicas a pessoas de uma determinada cor, no caso a população negra, precisa de alguma forma determinar quem é negro e quem não é. Acho isso gravíssimo porque, de certa forma, você precisa julgar as pessoas pela cor da pele para que ela tenha determinado benefício", afirmou. "Considero essa política problemática, além do que ela coloca dúvida sobre a capacidade de pessoas negras."

MC Carol discordou da opinião do vereador, afirmando que o negro ainda não é visto como igual. Comentou ainda que as dificuldades e a falta de oportunidades atingem as pessoas de formas muito diferentes. Na época em que estudava, a cantora se recorda de ter sido muito dedicada, que amava a escola, mas que muitos problemas acabaram fazendo com que ela abandonasse os estudos e o sonho de ser policial.

"Com 15 anos tive que morar sozinha, tive que sair da escola, me sustentar. Acho que a vida do negro é muito mais complicada. Da minha época (de escola) não conheço ninguém que faça faculdade, um ou outro conseguiu terminar a escola. Por vários motivos, a maioria da gente não tem estrutura familiar, financeira, psicológica", ressaltou.

A funkeira ainda afirmou que, se na época que abandonou os estudos tivesse tido alguém para dar uma oportunidade de estudar sem se preocupar com trabalho e dinheiro, com certeza não estaria cantando funk. "Se eu pudesse ter sido uma doutora, com certeza eu queria."

O exame de DNA se popularizou. Mais barato e fácil de fazer, ele virou uma ferramenta para resgatar a ancestralidade negra do povo brasileiro. Diversas personalidades toparam fazer o teste e olhar para essa cicatriz histórica. Agora é hora de contar o que elas descobriram e de onde vieram.