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Após penar sozinho, este cara agora ajuda negros e LGBTs a trabalhar em tec

Rodrigo Ribeiro, fundador do Tecnogueto - Arquivo pessoal
Rodrigo Ribeiro, fundador do Tecnogueto Imagem: Arquivo pessoal

Fernando Barros

Colaboração para Tilt

22/04/2021 04h00

Com objetivo de tornar o mercado de trabalho da tecnologia mais diverso, um engenheiro de software carioca criou um projeto social que, desde 2019, tem formado gratuitamente negros, LGBTQIA+, mulheres, jovens de baixa renda e moradores de periferia para atuar em tecnologia. Chamado de Tecnogueto, a ideia surgiu a partir da experiência pessoal de Rodrigo Ribeiro no mercado de trabalho.

A Tilt, ele conta que era o único negro em uma equipe de tecnologia com 72 pessoas na empresa onde ele fez seu primeiro estágio —só havia uma mulher no time. Morador do Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, Rodrigo diz que muitas vezes as pessoas da periferia são levadas a acreditar que tecnologia não é para elas.

"O Tecnogueto vem para tentar mudar essa história. Queremos que a população periférica não apenas consuma, mas produza tecnologia. Além de mostrar que nas periferias há talentos que precisam de oportunidades", afirma.

Desde o início do projeto, há dois anos, já foram quatro turmas formadas e 35% dos ex-alunos estão atuando no mercado de tecnologia, segundo dados do Tecnogueto. Do número total de alunos que passaram por lá, 58% eram mulheres, 68% pessoas negras e 35% pertenciam à comunidade LGBTQIA+.

Hoje, o projeto busca ampliar o seu alcance, oferecer novas opções de curso e formar mais estudantes. Este ano, as atividades estão acontecendo de forma online, o que permite a participação de pessoas de várias periferias espalhadas pelo país.

Tudo isso está sendo pago por meio de financiamento coletivo. Só no final do ano passado, o Tecnogueto conseguiu arrecadar R$ 114 mil para investimento no projeto e desenvolvimento dessa plataforma.

Como faz para participar?

O projeto oferece cursos de programação back-end e front-end, cada com 30 vagas e duração de três meses. Além do ensino dos conhecimentos técnicos da área, os alunos recebem também aulas de inglês e apoio socioemocional.

Para montar as turmas, o Tecnogueto realiza um processo seletivo. Por isso, os interessados em participar devem ficar atentos às redes sociais do projeto no Facebook e no Instagram, onde geralmente é divulgado o link para as inscrições.

A primeira turma de 2021 já foi selecionada em fevereiro, mas a previsão é de que ainda este ano sejam abertas mais duas turmas.

Lugar de mulher é onde ela quiser

Ana Cruz, 27 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Cruz, 27
Imagem: Arquivo pessoal

A designer carioca Ana Cruz, 27, fez parte da primeira turma. Moradora de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, ela tinha acabado de concluir a graduação em Design na época e soube da iniciativa através de um amigo. "Na faculdade, peguei uma disciplina optativa sobre programação e comecei a me interessar por esse assunto. Então, vi no projeto a oportunidade de aprender mais".

Lá, ela conta que aprendeu a programar realmente e, logo após a conclusão do curso, conquistou seu primeiro emprego como desenvolvedora. "Ser aluna do Tecnogueto me mostrou que a tecnologia é uma forma de driblar as adversidades da vida e trazer uma condição financeira melhor", avalia.

Com o curso, Ana se tornou também aficionada por eventos da área e passou a frequentar palestras, encontros e seminários e até um hackathon —espécie de maratona de programação para explorar códigos e desenvolver projetos.

Ana conta ainda que, ao se reconhecer como uma mulher programadora, começou a buscar e fazer parte de grupos na internet só para mulheres na área de tecnologia. "Como esse ainda é um ambiente dominado por homens, é uma forma de conhecer outras profissionais, uma ajudar a outra, trocar experiências e fazer com que tenhamos mais oportunidades na programação."

Carolina Gonçalves, 24 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carolina Gonçalves, 24
Imagem: Arquivo pessoal

A estudante de Sistemas da Informação Carolina Gonçalves, 24, também foi aluna do projeto. Moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ela soube da iniciativa através de uma amiga e se encantou pela proposta do Tecnogueto. Era a oportunidade de se reconectar com seu sonho de trabalhar na área de tecnologia.

Quando concluiu a escola, pensouem fazer um curso técnico de informática, mas seus pais foram contra, dizendo que aquilo não era "coisa de menina". Foi então para a enfermagem e trabalhou dois anos em hospitais, mas percebeu que aquela rotina não lhe completava. Ao começar as aulas no projeto no início do ano passado, não teve dúvida de que ali, sim, era o seu lugar.

Dois meses após o final do curso, Carolina conseguiu um trabalho na área e trocou os plantões médicos pelo dia a dia como desenvolvedora. "Passar pelo projeto mudou a minha cabeça. Hoje, consigo ver que tecnologia é para quem quiser. Desejo que outras meninas possam perceber isso e tentar entrar na área ainda mais cedo do que eu", diz.

"É um mundo gigantesco"

Vinicios Pereira, 19 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vinicios Pereira, 19
Imagem: Arquivo pessoal

Ampliação dos horizontes também foi o que aconteceu com Vinicios Pereira, 19, da Baixada Fluminense. Cheio de dúvidas e se sentindo um pouco perdido antes de entrar no projeto, o jovem, que tinha acabado de concluir os estudos na escola e não sabia exatamente qual profissão seguir, hoje sabe bem o que quer da vida.

Filho e neto de mestres de obras, ele chegou a pensar em algo na construção civil, mas a tecnologia falou mais alto quando soube do Tecnogueto através de uma tia. "No início, me assustei um pouco com tantos códigos e linguagem. É um mundo gigantesco, mas depois entendi que dá para focar em algo específico e ir se atualizando", afirma.

Ele lembra que, como não tinha computador em casa, chegava duas horas mais cedo e saía uma hora depois das aulas para testar o que aprendia dentro do projeto.

"As portas foram se abrindo, consegui juntar uma grana, comprar um computador e passei a viver disso, de tecnologia", destaca.

Hoje ele está no primeiro semestre de Análise de Sistemas na faculdade. Além disso, atua na equipe do Tecnogueto como desenvolvedor, mentor e facilitador do projeto.

Sonhador, Vinicios faz planos para o futuro. Quer ajudar a transformar a vida das pessoas por meio da tecnologia como aconteceu com ele. "Pretendo me especializar cada vez mais e continuar ajudando no projeto, mas também empreender e tirar do papel algumas ideias de software para ajudar a comunidade".