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Um outro lado de "Ethel e Ernest": filme resgata nosso passado tecnológico

Ethel e Ernest - Reprodução
Ethel e Ernest Imagem: Reprodução

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

25/03/2021 04h00

Sem tempo, irmão

  • "Ethel e Ernest" (2016) retrata o boom tecnológico do início do século 20
  • É a história de um casal comum que vive e sobrevive à Segunda Guerra Mundial
  • Rádio, televisão, telefone começam a fazer parte do dia a dia da família londrina

Entrou recentemente em cartaz na Netflix o filme "Ethel e Ernest", animação de 2016 baseada na HQ que conta a história dos pais do escritor e desenhista britânico Raymond Briggs. É daqueles longas que deveria vir com alerta ao espectador desavisado: venha com lenços.

Mais do que a história de um casal comum que vive e sobrevive à Segunda Guerra Mundial, o filme do diretor Roger Mainwood é também uma biografia das pequenas grandes invenções que moldaram o século passado.

Isso pode ser observado já na primeira cena, quando um avião biplano corta a Londres em 1928 para mostrar, do alto, as transformações em curso de uma das cidades-símbolo da era industrial.

Ethel e Ernest: avião biplano corta a Londres em 1928 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Num olhar atento é possível ver, escondido entre casas de tijolo, chaminés e telhados escuros, um dos primeiros "double deckers" (os típicos ônibus de dois andares) vermelhos da London General Omnibus Company. Em sua traseira, o veículo traz anúncios de produtos como os da companhia Heinz, da sopa Pears e da fabricante Maple & Cia Furniture Suppliers.

A lataria vermelha, que se tornaria símbolo da modernização da cidade, ainda se destacava entre cavalos que lançavam excrementos nas ruas de paralelepípedo do subúrbio, onde as carroças eram guardadas. É de uma casa dessas vielas que sai de bicicleta o personagem Ernest, jovem entregador de leite que certo dia vê a futura mulher, Ethel, acenar um lenço para ele por engano. Ela apenas espanava o pó das prateleiras da família rica onde trabalhava como empregada.

O falso sinal é aceito como um convite, com direito ao cinema e um passeio a uma Londres já pulsante —e para eles inacessível— entre cafés, restaurantes, clubes de jazz e salões com letreiros em neon, em frente dos quais os primeiros automóveis, trazendo os endinheirados, estacionavam.

Dali em diante a história se passa praticamente dentro de uma casa. É lá que todo um século se desenha e se conecta.

Ethel e Ernest se mudam para uma vila de casas geminadas onde há muito pó e muito trabalho a fazer.

"A gente podia colocar luz elétrica", ela diz.

O marido concorda: "é bem moderno. O meu irmão Fred tem um rádio. Ele consegue ouvir as notícias da Alemanha".

No casamento, a imagem invertida do casal, em uma câmera de luz fotográfica, mostra por dentro o mecanismo da máquina.

Com uma boina e avental, o funcionário da Royal Arsenal, uma cooperativa do conglomerado Dairy, passa os dias entregando leite empurrando uma espécie de carrocinha. No fim do dia, vira o faz-tudo da casa, montando a cama de mola, o suporte de madeira na lavadora, e desmontando o que já não funciona nem cabe em uma casa do século 20. Como as descargas de um vaso sanitário acionadas com correntes de ferro ligadas à caixa d'água.

O fogão de ferro e o aquecedor, eles brincam, vieram na Arca de Noé. Os objetos são logo substituídos por novas máquinas. Entra em campo o sistema a gás. "O aquecedor a gás é uma maravilha. É só abrir a torneira que a água vem quente", vibra Ethel diante da novidade.

Nas horas de descanso, o marido acompanha pelo jornal impresso e pelo rádio, objeto de desejo finalmente instalado num lugar estratégico da cozinha, as notícias de um planeta em ebulição.

Ethel e Ernest: rádio foi instalado em lugar estratégico  - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

No dia em que Adolf Hitler retira o direito à cidadania de pessoas judias na Alemanha, a madrinha que os visitava protesta: "Desliga essa porcaria, não quero que o homem (do rádio) ouça o que estou dizendo". O casal não contém a risada diante do estranhamento da visitante. Ela vinha de outro século.

Um dia o marido lê no jornal que a BBC se tornaria em breve um canal de televisão. "E o que é isso?", a esposa pergunta. Ele ensaia uma resposta.

- É tipo um rádio. Mas que passa filmes na parte de cima.

- Como no cinema?

- É. Como no cinema. Mas sem sair de casa.

- Como? E tem som?

- Sim. Você liga e aparece.

- Hum, eu acho que pode ser bom para quem tem dinheiro para comprar, despista ela, enquanto torce numa roda dentada uma camisa recém-lavada.

Na cena seguinte, a casa já está equipada com um gigante ferro elétrico. A chegada do filho leva os pais a adquirirem uma câmera fotográfica própria. Entravam de vez numa era em que tudo era registro, tudo era fotografável.

Ethel e Ernest: câmera fotográfica - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A TV ainda demoraria a aparecer naquela casa. O rádio, porém, logo se converte em arma de guerra. É por lá que eles conseguem acompanhar o estado de ânimos das grandes potências às vésperas do conflito global, como o ultimato do governo britânico para os alemães retirarem suas tropas da Polônia. Acompanham também a chegada de Churchill ao poder e a declaração oficial de guerra.

Tecnologia de guerra

Sem os ruídos de comunicação que se tornaram comuns no século seguinte, com boatos e bolhas de desinformação das redes sociais e grupos de WhatsApp, a confiança nos pronunciamentos em radiofrequência leva aquela família a se antecipar e se preparar para o pior. Máscaras antigás viram itens de primeira necessidade ao redor da mesa, inclusive no rosto do pequeno Raymond, que como centenas de crianças londrinas precisa ser enviado para uma casa de campo por segurança.

Com as próprias ferramentas, Ernest constrói um abrigo antiaéreo no quintal de casa, bem ao lado de um pé de pera plantado pelo filho.

O mundo que explodia longe dali começa a arremessar bombas naquele quintal, tornando a vida dos habitantes da capital britânica numa rotina intensa entre a destruição estúpida e inevitável e a reconstrução incansável. Bombas, incêndio, alarmes, sirene dos carros de bombeiros e sobrevoos de zepelins passam a fazer parte da paisagem.

A arquitetura da destruição tinha na tecnologia uma mola propulsora, agora em escala industrial. "A bomba estragou meus sofás", lamenta Ethel após um ataque.

O conflito, que logo chegaria ao fim, acelera as inovações que começam a chegar à vizinhança. Não sem estranhamento. Um dia Ernest chega em casa com uma novidade. A carrocinha de leite é substituída por um veículo elétrico.

"Espero que você não perca o controle", diz a esposa desconfiada, avessa a mudanças e convertida em eleitora do Partido Conservador.

Ethel e Ernest se mudam para uma vila de casas geminadas - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

É Ernest, porém, que estranha quando fica sabendo pelos jornais que a legenda lançaria como candidata à Câmara dos Comuns por Dartford, um distrito tradicionalmente trabalhista, uma mulher de 25 anos. Era Margaret Thatcher.

Até que as novidades perdem a graça. Passam a fazer parte de um outro mundo em que parte dos habitantes já não manejam, levam mais assombro do que empolgação aos nascidos no fim do século anterior.

Ethel pula de medo ao ouvir um telefone (fixo, ainda) tocar pela primeira vez. Era engano. "O que devo fazer quando ele tocar e você estiver fora?", ela pergunta ao marido, que não demoraria para descobrir que as notícias particulares agora correriam por aqueles fios e cabos. Inclusive a pior delas, mas não vamos dar spoiler.

Com a mesma desconfiança e estranhamento ela vê estacionado na porta de casa o primeiro automóvel da família: um Triumph Herald verde especial. Especial por quê? "Porque é nosso".

Menos assustadora, para eles, foi a chegada finalmente da TV, até então um tubo em preto branco acoplado em um revestimento de madeira que mais parecia um videogame arcade. É quando descobrem que os atores morrem, mas seus filmes permanecem.

"Ethel e Ernest" é um passeio animado por um museu das novidades de uma época retratada. Mais do que detalhes, os objetos que envelhecem como aqueles corpos são um ponto central na fissura provocada pelo choque das pequenas histórias privadas, e seus personagens anônimos, com a História com H maiúsculo, que se impõe pela força das bombas mas também das inovações espalhadas por nossos quartos e salas. Essas invenções mudaram o mundo quando o mundo ainda era outro.

Implacável, o tempo, como na música, torna antigo o que há algum tempo era jovem e moço. A permanência está em outro lugar. Está na pereira que plantamos na infância.