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Estamos mais perto de entender como vida terrestre sobrevive em Marte

MARSBOx foi lançado na estratosfera média da Terra, a 38 km de altitude - Divulgação/Nasa
MARSBOx foi lançado na estratosfera média da Terra, a 38 km de altitude Imagem: Divulgação/Nasa

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

23/02/2021 04h00

Pesquisadores da Nasa e do Centro Aeroespacial Alemão descobriram que alguns microrganismos conseguem sobreviver, ainda que temporariamente, na superfície de Marte. Eles chegaram a essa conclusão ao lançarem micróbios à estratosfera da Terra, uma região que possui condições-chave encontradas no Planeta Vermelho, com o objetivo de testar a resistência deles. Os resultados do estudo foram publicados hoje na revista "Frontiers in Microbiology".

Compreender a resistência dos micróbios a viagens espaciais é extremamente importante para o sucesso de missões tripuladas com o objetivo de procurar por vida extraterrestre. Isso porque os cientistas precisam ter a certeza de que microrganismos encontrados por lá não vieram com humanos em suas naves espaciais.

"Nós testamos, com sucesso, uma nova forma de expor bactérias e fungos a condições semelhantes às encontradas em Marte, usando um balão científico para levar nosso equipamento experimental até a estratosfera da Terra. (...) Alguns micróbios, em particular os esporos do fungo do bolor negro, conseguiram sobreviver à viagem, mesmo quando expostos a uma radiação ultravioleta muito elevada", disse Marta Filipa Cortesão, pesquisadora do Centro Espacial Alemão e uma das autoras do estudo.

Algumas características da superfície marciana não podem ser encontradas nem facilmente reproduzidas aqui na Terra. Mas, existe uma região na nossa estratosfera, logo acima da camada de ozônio, onde as condições são bastante similares às encontradas em Marte.

Foi para essa região que os cientistas lançaram micróbios dentro de um equipamento chamado de MARSBOx (sigla em inglês para Micróbios na Atmosfera por Radiação, Sobrevivência e Resultados Biológicos), que foi mantido sob pressão marciana e preenchido com atmosfera artificial de Marte durante toda a missão.

"A caixa [MARSBox] carregava duas camadas de amostra, com a inferior protegida da radiação. Isso nos permitiu separar os efeitos da radiação das outras condições testadas: dessecação, atmosfera e flutuação de temperatura durante o voo. As amostras da camada superior foram expostas a mais de mil vezes mais radiação ultravioleta do que níveis que podem causar queimaduras de sol em nossa pele", explica Cortesão.

Embora nem todos os micróbios tenham sobrevivido à viagem, o bolor negro Aspergillus niger — que já havia sido previamente detectado na ISS (Estação Espacial Internacional) — pode ser revivido depois de voltar para Terra.

Os microrganismos estão intimamente ligados ao funcionamento do nosso corpo, à nossa comida, aos nossos hábitos. Dessa forma, é impossível excluí-los das viagens espaciais.

Estudos como esse são particularmente importantes para futuras missões tripuladas de longo prazo a Marte. Segundo Siems, antes que elas aconteçam é preciso saber como os microrganismos associados aos humanos sobreviveriam no Planeta Vermelho, já que alguns podem representar um risco à saúde dos astronautas.

"Além disso, alguns micróbios podem ser inestimáveis para a exploração espacial. Eles podem nos ajudar a produzir alimentos e suprimentos materiais independentemente da Terra, o que será crucial quando estivermos longe de casa", disse a co-autora do estudo Katharina Siems, também baseada no Centro Aeroespacial Alemão.

Para ela, usar boas analogias para o ambiente marciano, como faz a missão do balão MARSBOx, é uma maneira muito importante de nos ajudar a explorar todas as implicações das viagens espaciais na vida microbiana e como podemos direcionar esse conhecimento para incríveis descobertas espaciais.

Corrida espacial: Marte

Marte esteve em foco nos últimos dias depois que três missões espaciais conseguiram chegar com sucesso no planeta vermelho. China e Emirados Árabes Unidos foram os primeiros a marcar presença em sua órbita.

Os Estados Unidos foram um pouco além, ao pousar diretamente em Marte na última quinta (18). O rover (robô sobre rodas) Perseverance atingiu a atmosfera do planeta a uma velocidade de mais de 20.000 km/h. Foram minutos de grande tensão.

Diante do sucesso, o robô vai procurar agora vestígios de vida extraterrestre antiga. A comunidade científica está animada com as perspectivas da missão.

E você sabia que no sistema solar outros astros também podem hospedar (ou ter hospedado) formas de vida? Pois é!

O combo básico para existir vida no espaço é a presença de água líquida e zona habitável (local que tenha pressão atmosférica suficiente para manter água líquida na superfície). Além disso, o planeta deve conter moléculas orgânicas, os 'CHNOPS' (carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre), explicou Michel Viso, exobiólogo do CNES (Centro Nacional de Pesquisa Científica francês), à agência de notícias AFP.

Para ajudar essa dinâmica, uma fonte de energia (no nosso caso, o Sol) mantém esse conjunto ativo.

Já se sabe que Marte é um bom candidato a ter atendido aos requisitos acima em algum momento de sua história — possivelmente, entre 3,5 bilhões e 4 bilhões de anos atrás. Pesquisadores têm certeza de que existiu água líquida em abundância no planeta vermelho.

Mas os cientistas também estão na mira dos outros astros. A Europa, uma das quatro luas de Júpiter, já deu vestígios de que sua superfície pode ter um oceano de água líquida por baixo. Ela possui gêiseres, um sinal de atividade criovulcânica (vulcões de gelo), o que indica uma possível fonte de energia.

O Encélado, sexto maior satélite de Saturno, também é outro candidato a ter registros de algum tipo de vida extraterrestre. Ele concentra água líquida, moléculas orgânicas, energia e um ambiente estável. Por enquanto, não há missão programada para estudá-lo.

Titã, outro satélite de Saturno, é o único outro lugar no sistema solar onde a atmosfera é composta de nitrogênio e de química orgânica, como na Terra. Não há resquícios de água líquida, mas cientistas acreditam que ele está preso entre duas camadas de gelo. Por isso, a água não poderia entrar em contato com a rocha do núcleo, uma fonte de energia. Em 2034, uma missão da Nasa tem como objetivo pousar em Titã.

*Colaborou Bruna Souza Cruz