PUBLICIDADE
Topo

ICQ voltou? Entenda como essa nostalgia pode causar problema para você

Quem lembra da florzinha do ICQ? - Reprodução/CBC
Quem lembra da florzinha do ICQ? Imagem: Reprodução/CBC

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

07/02/2021 04h00Atualizada em 07/02/2021 10h34

A primeira ação do arquiteto Denis Cossia, de 38 anos, ao conseguir se reconectar ao ICQ em pleno janeiro de 2021, foi mandar capturas de tela do programa, um dos primeiros de bate-papo da internet, aos amigos da época do seu curso técnico. Todos esses amigos estão hoje em um grupo de WhatsApp. "Todo mundo pediu o número e alguns conseguiram se conectar também. Foi inacreditável saber que o negócio ainda existia", diz.

Algumas pessoas tiveram esse ímpeto após reagirem mal à nova política de privacidade do WhatsApp. Segundo reportagem do Wall Street Journal, o download do ICQ —agora como app de celular— ficou 35 vezes maior na segunda semana de janeiro. O termo também teve sua maior busca no Google Trends desde 2011. Quem não lembra do sonzinho "uh-oh" quando chegava mensagem nova?

Quando Cossia reativou sua conta no ICQ, o WhatsApp ainda não havia anunciado as mudanças. O que o moveu, então? Curiosidade e nostalgia —esta última, uma palavra cada vez mais associada às tecnologias apresentadas como novidade até bem pouco tempo.

Ao saber que o ICQ ainda existia, o arquiteto começou uma caçada nos campos da memória para lembrar de seu número de acesso, que usou pela última vez há mais ou menos 15 anos. Ainda assim a lembrança veio, em um estalo, uma semana depois. Faltava resgatar a senha. Foram mais três dias frequentando todos os labirintos da memória até encontrar.

Criado em 1996, antes da era dos smartphones, o ICQ exigia de seus usuários modelos peculiares de identificação —geralmente um nome de usuário e número de no mínimo cinco dígitos. Tinha também uma breve descrição de usuário, que Cossia associa aos atuais avatares de anime que as pessoas usam hoje no Twitter. "Eram todas descrições de frases feitas. Fui dando print e mandando para o grupo. As pessoas se matavam de rir."

Arqueologia da mídia

Na academia, já existe até uma área de pesquisa chamada "arqueologia da mídia" em que questões como preservação e memória digital são investigadas.

"Nostalgia e obsolescência parecem ser duas facetas bastante características de nossa tecnocultura e demonstram que circunstâncias 'técnicas', como no caso do receio com os novos termos de uso do WhatsApp parecem também ativadas por um sentimento de que no passado as coisas eram melhores", afirma Gustavo Fischer, professor do programa de pós-graduação em ciências da Comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos).

Segundo Fischer, o contexto de pandemia aguça ainda mais as sensações de que havia um passado em que "éramos felizes e não sabíamos".

Assim como o ICQ, outras plataformas antigas que já cumpriram seu "ciclo de vida" acabam sendo apropriadas por públicos específicos. Um exemplo é o Flickr, que se tornou um espaço para interessados em fotografia com maior conhecimento técnico e estético.

"Um exemplo são aquelas curiosas comunidades de Orkut, que lembram os atuais perfis divertidos de Twitter", diz Fischer, em referência à finada rede social que fez muito sucesso no Brasil no começo dos anos 2000.

Apesar do sucesso — e dos apelos de "volta, Orkut" que vira e mexe ressurgem nas redes sociais de hoje— Fischer diz não acreditar que o saudosismo seja um fenômeno restrito ao Brasil. "É algo da condição humana, mas talvez épocas de maior crise e instabilidade, econômica e social, nos levem a desejar outro tempo, o qual lembramos mais perfeitos do que foram."

Pratique o saudosismo, mas com segurança

Para quem chegou até aqui com vontade de resgatar a senha e o nickname no ICQ, os especialistas consultados por Tilt têm algumas dicas. Uma delas: segure a expectativa.

"O ICQ, hoje, não faz sentido algum", diz Érico Andrei, diretor da consultoria de tecnologia Simples. Ele tem em seu computador um programa agregador de messengers antigos, incluindo o ICQ. "Ninguém está lá e hoje existem melhores opções. Eu só mantenho para não perder o número. Com muita gente da minha lista eu já perdi contato há anos. Nem sei como andam."

Já para Cléber J. Santos, programador de sistemas que ativou recentemente o ICQ New, a experiência não foi de todo ruim. "Me parece que grande parte dos usuários está indo para lá mais por moda do que por questões de segurança. O ICQ faz sentido para quem está saindo do WhatsApp porque tem tudo o que o WhatsApp tem e alguns pontos melhorados. Ele passou por uma reforma visual e está mais elegante", diz.

Entre as vantagens citadas por ele está a possibilidade de o programa funcionar mesmo em conexões ruins. "Tem também um serviço de sincronização que permite que o histórico de mensagens seja acessado igualmente em um iPhone e um PC com Linux, por exemplo", argumenta.

Outra vantagem, segundo Cléber, é a possibilidade de se reunir em grupos com milhares de pessoas e o envio ilimitado de arquivos nas trocas de mensagens.

"O problema é convencer meu grupo de familiares e amigos a fazerem o mesmo. É como se eu trafegasse solitário numa boa estrada, mas sem outros carros", lamenta.

E a segurança?

Há cuidados a serem tomados. Martina Lopez, pesquisadora da empresa de segurança da informação Eset, alerta que, ao retornar a um programa antigo, devemos garantir que eles tenham atualizações recentes, já que aplicativos não atualizados comprometem a segurança.

"Embora, como usuários, tendamos a confiar em programas que já usamos, devemos ter em mente que os aplicativos mudam constantemente para se adequar ao mercado. Além disso, as técnicas dos cibercriminosos também mudaram", diz Lopez.

Ela lembra que o ICQ não é mais tão popular na América Latina, mas continua sendo em outras partes do mundo, recebendo atualizações como qualquer outro app.

"Em lojas de aplicativos, como o Google Play, é possível consultar as informações de permissão do aplicativo, observando que as solicitadas pelo ICQ e outros aplicativos atuais são muito semelhantes. As diferenças estão relacionadas às funcionalidades entre uma plataforma ou outra, como o acesso à câmera.

A onda retrô veio para ficar?

Para Gustavo Fischer, da Unisinos, é preciso investigar ainda se vale a pena uma experiência ruim em um aplicativo só pelo saudosismo. Ele diz não acreditar que as pessoas permaneçam massivamente nessas aplicações "ressuscitadas" por muito tempo.

"Acho que pode ser um fenômeno de nicho, assim como a moda dos hipsters que escrevem em máquinas de datilografia. Ao buscar uma solução técnica, é a lembrança nostálgica que acaba sendo ativada e a curiosidade em ver os 'contatos antigos' e 'lembrar da senha' tornam-se jornadas por si só", afirma.

Até lá, a diversão de quem se depara com antigos nicks e frases-de-efeito prova que tudo vale a pena se a nostalgia não é pequena. Mesmo que os tempos sejam outros. "A gente muda muito. Vê coisas de adolescente 20 anos depois e...Tudo sumiu. Não tem histórico lá. Não tem nada acontecendo. É um mundo totalmente diferente", diz Denis Cossia.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no texto, o número de identificação da pessoa no ICQ era de no mínimo cinco dígitos, e não de oito. O texto foi corrigido.