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Foi destaque no site da Nasa: conheça constelação brasileira do Homem Velho

Constelação do Homem Velho, fotografada por Rodrigo Guerra e destacada no site da Nasa - Rodrigo Guerra/Astronomy Picture of the Day-Nasa
Constelação do Homem Velho, fotografada por Rodrigo Guerra e destacada no site da Nasa Imagem: Rodrigo Guerra/Astronomy Picture of the Day-Nasa

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

13/01/2021 16h01

Todos os dias, a Nasa publica a "Foto Astronômica do Dia" (Apod, na sigla em inglês) em seu site. Na terça-feira (12), a imagem escolhida foi tipicamente brasileira: um registro da constelação do Homem Velho, que faz parte da cultura dos povos indígenas Tupi. A fotografia foi tirada pelo paranaense Rodrigo Guerra.

A mitologia Tupi conta que um índio era casado com uma mulher muito mais jovem. Eventualmente, ela ficou interessada por seu irmão mais novo. Para ficar com o cunhado, a esposa matou o marido, cortando sua perna na altura do joelho. Os deuses, com pena do velho, o transformaram em uma constelação, eternizando-o no céu.

Guerra teve a ideia após conhecer os trabalhos de etnoastronomia do professor Germano Bruno Afonso, que pesquisa constelações baseadas nos antigos povos brasileiros.

"Me surgiu na cabeça a ideia de um dia registrar alguma dessas constelações. E a que mais me encantou foi a do Homem Velho, pela história curiosa e porque envolve agrupamentos estelares bem fáceis de serem identificados por qualquer pessoa, como as Três Marias, a cabeça do Touro e as Plêiades", lembra Guerra, professor universitário de física.

O céu é repleto de histórias. E cada cultura, ao longo dos séculos, enxergou as estrelas de uma maneira, projetando seu cotidiano e suas lendas nas constelações. De acordo com a Nasa, "o folclore do céu noturno é importante por muitas razões, inclusive porque registra o patrimônio cultural e documenta a universalidade da inteligência e da imaginação humana".

"Achei muito interessante que o Rodrigo tenha destacado na foto uma constelação dos tupis, que habitavam grande parte do território brasileiro antes da chegada dos portugueses", elogia o astrônomo Marcelo Zurita.

Como ver?

Desconhecida pelo grande público e até por astrônomos de outros países, esta constelação é uma maneira diferente de olhar para as mesmas estrelas: o aglomerado Hyades, que é a cabeça constelação de Touro, é justamente a cabeça do Homem Velho; as Plêiades são o penacho de uma espécie de cocar indígena; o cinturão de Órion (as populares Três Marias) é o centro da perna inteira.

O "cotoco" da outra perna termina na estrela laranja Betelgeuse, de Órion. O velho manco é ajudado por uma bengala, delimitada sem precisão por algumas estrelas menos brilhantes. Na foto escolhida pela Nasa, a bela cena foi completada por um índio, também com uma perna só e segurando um cetro, em primeiro plano.

"Meu objetivo era levar às pessoas um novo olhar, uma visão alternativa daqueles agrupamentos estelares classicamente conhecidos como Touro e Órion, do ponto de vista da nossa cultura, dos indígenas brasileiros. É uma maneira de transmitir essas tradições, que costumam ser passadas apenas oralmente", acredita Guerra.

O Homem Velho é uma constelação visível a olho nu, mas desafiadora de ser observada, pois ocupa uma área muito grande do céu. Para vê-la em sua totalidade, é necessário um céu bem limpo, sem poluição luminosa ou nuvens densas, e um horizonte desobstruído.

Você pode encontrar as estrelas que fazem parte do Homem Velho com ajuda de um site ou app de observação astronômica, como o Starchart, Skywalk, Sky Safari ou Stellarium.

Há diversas outras constelações que descrevem o céu do ponto de vista tupi-guarani, como a da ema, a do veado e a da anta, animais típicos de nosso país. O vídeo abaixo, do professor Germano Bruno Afonso, conta mais sobre a etnoastronomia brasileira.