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Mini-estrela daria certo? Veja como seria se o Sol fosse uma anã branca

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

05/01/2021 04h00Atualizada em 05/01/2021 13h02

O Sol é uma estrela de classificação anã amarela; comparada à Terra, sua massa é 332.900 vezes maior, e seu volume, 1,3 milhão de vezes maior. Para que a vida no nosso planeta exista, ele segue um equilíbrio tanto em termos de distância quanto de energia fornecida.

No universo há uma enorme variedade de estrelas. Algumas parecidas com o Sol, outras muito maiores —como as supergigantes azuis que podem ter massa cem vezes superior à da nossa estrela mais próxima— e outras muito menores —como as anãs brancas, que têm como massa mínima cerca de 8% da solar.

E se o Sol fosse uma dessas mini-estrelas? Será que a vida na Terra seria muito diferente? E o que veríamos no céu? Bem, eu garanto que tudo seria muito diferente (mesmo) de tudo que conhecemos.

Adeus, dias de verão

Nessa situação hipotética, um dos efeitos imediatos seria a temperatura. A de uma anã branca pode chegar a cerca de 150.000 ºC, consideravelmente superior aos cerca de 5.778 K (5.504,85 °C)da superfície solar, mas seu tamanho diminuto em termos astronômicos limita muito o quanto desse calor é irradiado.

Em termos práticos, isso significa que a Terra seria uma grande "bolota" de gelo, assim como imaginamos como seria se o Sol fosse "desligado". Se o Sol fosse uma anã branca, a vida no planeta (ao menos como conhecemos) seria inviável, já que a temperatura por aqui seria facilmente inferior a - 200 ºC.

Um pontinho brilhante no céu

Outro problemão para o nosso planeta seria a ausência de luz. Ao contrário do Sol como conhecemos, essa versão diminuta teria um brilho muito menor.

No céu, seria um objeto um pouco mais luminoso do que Vênus. E, claro, isso afetaria nosso firmamento, com corpos como a Lua —que se destaca no céu noturno porque reflete a luz solar— ficando consideravelmente mais apagados.

Nesse ponto, além de congelada, a Terra também estaria envolvida uma enorme escuridão, já que uma anã branca típica tem 0,01% da luminosidade solar. Não parece um lugar bom para se estar, convenhamos.

Fora de órbita

A força gravitacional exercida pelo pequeno Sol nos corpos celestes ao seu redor também seria consideravelmente menor.

Em sua forma de anã branca, a estrela teria algo em torno de 50% da massa atual. Ok, ainda seria um número colossal, considerando que, atualmente, a massa do Sol é 333 mil vezes superior à da Terra. Sim, uma anã branca seria um objeto bastante denso já que teria mais ou menos o tamanho do nosso planeta, mas com massa mais de 150 mil vezes superior.

Ainda assim, uma estrela com metade da massa do Sol exerceria metade da força gravitacional que o mesmo exerce sobre a Terra e não seria nenhum exagero pensar que, nesta situação, a órbita de todos os planetas e corpos do Sistema Solar seria consideravelmente diferente.

Fim da vida

Mas todas as situações descritas acima são fictícias. Até se tornar uma anã branca, que é o estágio final do ciclo evolutivo do Sol, os planetas mais próximos da estrela não existiriam mais.

Ao longo de sua existência, o Sol é uma usina de fusão, com seu núcleo "processando" hidrogênio e transformando o elemento em hélio. Ele faz isso em um ritmo absurdo —a cada segundo são fabricados 600 milhões de toneladas de hélio— há pelo menos 4,6 bilhões de anos.

Se todo o hidrogênio do seu núcleo for convertido em hélio, a estrela passará por uma mudança considerável: ela ficará cerca de 200 vezes maior, engolindo Mercúrio e chegando até as cercanias de Vênus. Isso, claro, gerará impactos consideráveis e, provavelmente, a Terra já terá virado churrasco nesse momento.

Depois desse estágio, o Sol tende a sofrer um colapso gravitacional, restando apenas o seu núcleo e, finalmente, virando uma estrela anã branca.

Buraco negro? Nem sempre

No caso do Sol, o estágio de anã branca representa a chegada ao fim da linha de sua existência. Esse, porém, não é o caminho seguido por todas as estrelas.

As que têm uma massa de 1,44 sóis não se transformam em anãs brancas no fim do seu processo evolutivo, mas sim em uma estrela de nêutrons. Esse número é o chamado "limite de Chandrasekhar", que homenageia o astrofísico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar, responsável pelos cálculos referentes a esse processo.

Já as estrelas que chegam ao final de seu ciclo evolutivo com pelo menos três vezes a massa solar —o chamado "limite de Tolman-Oppenheimer-Volkoff"— têm a chance de se tornarem um dos objetos mais misteriosos do universo: um buraco negro.

Fonte:
Roberto D. Dias da Costa, professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP)

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no texto, as estrelas supergigantes azuis podem ter massa cem vezes superior à do Sol, e não mil vezes. Além disso, o limite de Chandrasekhar é de 1,44 vezes a massa do Sol, e não 1,33. O texto foi corrigido.