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Por que aranhas foram levadas ao espaço de novo após tentativa frustrada?

Aranhas já viveram no espaço como parte de um experimento na ISS - Divulgação/Bioserve
Aranhas já viveram no espaço como parte de um experimento na ISS Imagem: Divulgação/Bioserve

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

11/12/2020 16h05

Você sabia que aranhas já viveram no espaço? Elas estiveram dentro da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) como parte de um experimento que trouxe uma revelação surpreendente: as aranhas conseguem vencer a microgravidade (ausência de peso, que faz tudo flutuar) para construir suas teias.

A pesquisa foi publicada na semana passada, na revista "The Science of Nature". De acordo com os cientistas, sem o senso de "em cima" e "embaixo", os aracnídeos encontraram outros meios para se orientar. E conseguiram tecer teias assimétricas, iguais às que fazem aqui na Terra, contanto que houvesse uma fonte de luz.

Mas por que raios cientistas renomados decidiram levar aranhas para o espaço? E mais: sabia que já é a segunda vez?

Em 2008, a Nasa realizou um experimento tão malsucedido que nem chegou a ser publicado. Basicamente, as aranhas invadiram as jaulas umas das outras e construíram suas teias sobre os corpos das coleguinhas. Para completar o caos, a população de larvas e moscas de frutas, que alimentavam os animais, saiu tão fora do controle que os astronautas não conseguiam mais nem enxergar as jaulas.

Mas foi o suficiente para os cientistas verem a dificuldade e a estranha simetria das teias no espaço. E quiseram insistir com uma espécie diferente, a aranha-da-teia-amarela (Trichonephila clavipes). As novas cobaias chegaram à ISS em 2011, a bordo do Ônibus Espacial Endeavour.

Na pesquisa "Spiders in Space", estudantes universitários conduziram os mesmos experimentos das aranhas que estavam no espaço, mas em salas de aula dos Estados Unidos para comparar as mudanças físicas e comportamentais das espécies dentro e fora da Terra. Foi uma parceria entre a Nasa, a Faculdade de Medicina Baylor e o instituto BioServe Space Technologies, da Universidade do Colorado.

As teias

Normalmente, na Terra, aranhas instalam o nó principal de suas teias no topo, onde esperam o momento de se lançar para baixo, em direção às presas. Não há simetria nesse processo. Mas no espaço elas não conseguem "cair", e as teias ficaram mais simétricas e estranhas, com o nó bem no centro, sem a força da gravidade para guiar os desenhos e movimentos.

Com uma lâmpada acesa sobre elas, porém, as aranhas teceram teias assimétricas, do mesmo jeito que fariam por aqui. Isso sugere que elas também podem se orientar usando, por exemplo, o Sol. "É surpreendente que as aranhas tenham um sistema de backup para orientação como este, nunca foram expostas a um ambiente sem gravidade durante sua evolução", disse Samuel Zschokke, da Universidade de Basel, coautor do estudo.

Durante dois meses, câmeras tiraram fotos das jaulas na estação espacial a cada cinco minutos. Foram estudadas 15.528 imagens, registrando a construção de cerca de 100 teias. O mais curioso é que a luz nunca havia sido considerada pelos cientistas como um possível substituto da gravidade para orientação das aranhas no espaço.

"Por sorte, as lâmpadas estavam fixadas no topo das jaulas e não em vários lados. Caso contrário, não teríamos sido capazes de descobrir o efeito da luz na simetria das teias na microgravidade", declarou Zschokke.