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Moderadores do Facebook exigem de Zuckerberg melhores condições de trabalho

Moderadores de conteúdo do Facebook lidam com imagens de violência e pornografia infantil - Getty Images
Moderadores de conteúdo do Facebook lidam com imagens de violência e pornografia infantil Imagem: Getty Images

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt, em Dublin

21/11/2020 15h21Atualizada em 23/11/2020 14h10

Mais de 200 moderadores de conteúdo do Facebook assinaram uma carta aberta direcionada ao presidente-executivo da empresa, Mark Zuckerberg, em que pedem melhores condições de trabalho durante a pandemia da covid-19. Eles afirmam que estão tendo suas vidas colocadas em risco pelo fim do home office.

O documento também é endereçado à chefe de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, e aos presidentes-executivos das empresas terceirizadas CPL/Covalen e Accenture, contratadas pela Big Tech para moderar os conteúdos da plataforma. A íntegra foi publicada pelo escritório de advocacia Foxglove, do Reino Unido, ligado ao combate ao mal uso das tecnologias por parte de governos e empresas.

De acordo com o documento, esses profissionais atuam moderando o conteúdo que os usuários postam nas plataformas do Facebook — que também é dona do Instagram e do WhatsApp — e que lidam não só com fake news mas com materiais perturbadores e traumáticos, todos os dias.

São os moderadores quem tiram do ar vídeos de abuso de menores, pessoas sendo executadas e outras situações de violência física e psicológica.

"Após meses permitindo que moderadores de conteúdo trabalhassem em casa, enfrentando intensa pressão para manter o Facebook livre de ódio e desinformação, você nos obrigou a voltar ao escritório", reclamam os assinantes da carta.

Em outubro, moderadores de conteúdo que trabalhavam para Accenture em Austin, Texas (EUA), foram solicitados a retornar ao trabalho presencial. Apesar das medidas adicionais de limpeza e do uso de máscaras por parte dos funcionários, um colaborador testou positivo para o coronavírus logo após retornar ao trabalho, segundo reportagem do The Intercept.

Na carta, os moderadores afirmam que vários casos de covid-19 foram registrados nos escritórios das empresas espalhados pelo mundo. "Pedimos à liderança do Facebook e de suas empresas terceirizadas, como Accenture e CPL, que tomassem medidas urgentes para nos proteger e valorizar nosso trabalho. Você recusou. Estamos publicando esta carta porque não temos escolha", diz o texto.

Os profissionais afirmam que apenas aqueles de posse de atestados médicos comprovando o alto risco de retorno ao local de trabalho foram liberados para o home office. "Até isso não é oferecido em todos os lugares", dizem. Os que vivem com pessoas que fazem parte de grupos de risco tiveram que voltar para o batente mesmo assim.

"Todos os moderadores de conteúdo de alto risco ou que moram com alguém de alto risco para a covid-19 devem ter permissão para trabalhar de casa indefinidamente", pedem os moderadores.

Em resposta, o Facebook afirmou a Tilt, por meio de nota, que a maioria dos 15 mil revisores de conteúdo estão trabalhando em suas casas e seguirão remotos enquanto a pandemia durar. "Reconhecemos a importância do trabalho feito pelos revisores de conteúdo, e priorizamos sua saúde e bem-estar. Acreditamos num diálogo aberto, mas essas discussões precisam ser justas."

A empresa acrescentou que todos os moderadores têm acesso a plano de saúde e recursos para bem-estar desde o primeiro dia de trabalho. "Para qualquer trabalho dentro de escritórios, os protocolos adotados vão além das orientações de autoridades de saúde locais", finalizou.

A Accenture informou, também por meio de nota, que está "convidando" os empregados a voltarem aos escritórios onde há "necessidade crítica" e apenas a locais em que foram implementadas medidas de segurança de combate à covid-19, seguindo as orientações das autoridades locais. "Isso inclui ocupação de edifício amplamente reduzida, amplo distanciamento social e máscaras, limpeza diária de escritórios, transporte individual e outras medidas", informou.

A empresa afirmou ainda estar buscando alternativas para o retorno ou escritório de funcionários que fazem ou que vivem com pessoas que fazem parte dos grupos de risco, "incluindo trabalhar de casa".

A CPL, cuja matriz fica em Dublin (Irlanda), informou a Tilt, por meio de nota, que "devido à natureza do trabalho" dos seus moderadores de conteúdo, ele não pode ser feito de casa. "Eles estão contribuindo positivamente com a sociedade no trabalho que fazem, assegurando a segurança das nossas comunidades online, e suas funções são consideradas essenciais", informou.

A empresa afirma ainda avaliar a situação dos funcionários caso a caso. Ainda segundo ela, os escritórios estão operando com 25% da sua capacidade para facilitar o distanciamento social, está sendo oferecido transporte privado para ir ao trabalho e voltar para casa, os locais passam diariamente por limpeza profunda e é obrigatório o uso de máscaras.

Sem adicional por insalubridade

Na carta, os moderadores afirmam ainda que voltaram ao trabalho mas não tiveram nenhum valor adicionado aos seus salários para compensar os riscos que eles estão correndo, apesar de as empresas terem enriquecido ainda mais durante a pandemia.

O lucro do Facebook dobrou na pandemia em relação ao mesmo período do ano passado. O valor líquido foi de US$ 5,18 bilhões (cerca de R$ 27,7 bilhões).

Segundo os profissionais, um trabalhador de Austin, no Texas (EUA), continuou ganhando US$ 18 por hora, sem nenhum adicional por insalubridade.

"Se você deseja que os moderadores arrisquem suas vidas para manter a 'comunidade' e o lucro, você deve pagar por isso. Moderadores que estão trabalhando no escritório com material de alto risco (por exemplo, abuso infantil) devem receber o pagamento de periculosidade de 1,5 vezes seu salário normal", reivindicam.

Na carta aberta, assinada nominalmente por 86 moderadores de conteúdo, os profissionais listam cinco reivindicações principais:

  1. Manter seguros os trabalhadores e seus familiares, ante a pandemia
  2. Maximizar o trabalho remoto
  3. Pagar adicional de insalubridade 1,5 vezes o valor do salário.
  4. Acabar com a terceirização, para dar mesmos direitos e benefícios de funcionários do Facebook.
  5. Oferecer acompanhamento de saúde e psiquiátrico aos trabalhadores.

Os moderadores contam que recebem 45 minutos por semana um "treinador de bem-estar", em vez de acompanhamento psiquiátrico de qualidade, para lidar com "peso do trauma de saúde mental associado ao conteúdo tóxico do Facebook". As sessões são dadas por "coachs" e não por psicólogos ou psiquiatras, segundo o documento assinado, e por isso não existe a possibilidade de construir uma relação de confiança.

"A gestão do Facebook (e a gestão da Accenture/CPL) pede aos 'coachs' que revelem detalhes confidenciais das sessões de aconselhamento", reclamam.

A Accenture, por meio de nota, afirmou que revisa, avalia e investe em programas de bem-estar para criar um ambiente de trabalho favorável. "Nosso pessoal tem acesso irrestrito a suporte de bem-estar, que inclui aconselhamento proativo, confidencial e sob demanda, apoiado por um forte programa de assistência ao funcionário. Encorajamos todos a levantar questões de bem-estar por meio desses programas", rebateu.

Especificamente sobre funcionários que trabalham para o Facebook, a empresa afirmou que todos "têm acesso a planos médicos abrangentes, que incluem benefícios de saúde mental e bem-estar".

Sem IA eficiente, trabalho deles é essencial

É importante lembrar que 2020 tem sido um ano de compartilhamento de notícias falsas e desinformação não só sobre a pandemia, mas sobre eleições nos EUA, no Brasil, e outros processos de extrema importância para a nossa sociedade. Os moderadores contam na carta que foi colocado em prática em plena pandemia um projeto experimental de uso de inteligência artificial na moderação de conteúdo, mas que ele não deu muito certo.

"A gerência disse aos moderadores que não deveríamos mais ver certas variedades de conteúdo tóxico surgindo na ferramenta de revisão com a qual trabalhamos. [Mas] a IA (inteligência artificial) não estava à altura do trabalho. Discursos importantes foram arrastados para dentro do filtro do Facebook, e conteúdos arriscados, como a automutilação, permaneceram no ar", afirmam.