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O que muda se a temperatura da Terra subir 2ºC? Uma "bola de neve" de caos

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

10/11/2020 04h00

É bastante provável que, de ontem para hoje, a temperatura onde você mora tenha variado 2º C ou mais. Para a maioria das pessoas, essa pequena alternância de temperatura não causa impactos notáveis e, muitas vezes, sequer é suficiente para levarmos ou não uma blusa ao sair de casa.

Mas e quando colocamos isso sob uma perspectiva mais abrangente e, ao invés de considerarmos um bairro ou uma cidade, passamos a cogitar uma variação do tipo na temperatura média do nosso planeta? Como seria se ela subisse, por exemplo, dois graus?

Bem, os resultados têm tudo para serem catastróficos.

Um mundo de altos e baixos

Em primeiro lugar, é preciso entender que a Terra possui lugares com temperaturas bem diferentes. Considerando apenas locais onde há estações de medição, no dia de fechamento deste texto a temperatura máxima registrada era de 44° C em Fitzroy Crossing, no noroeste da Austrália, enquanto a mínima era de -56,7º C em Dome Argus, no interior da Antártica. Uma variação de cerca de 100º C, portanto.

Alterar uma temperatura média, portanto, não significa que teríamos 2º C a mais em todos os lugares, em uma distribuição perfeita. Mas, sim, que alguns lugares podem ter alterações de vários graus (enquanto outros permanecem mais ou menos estáveis). Não há uma regra nesse sentido.

E, consequentemente, isso nos leva a outro problema.

Equilíbrio sensível

A temperatura é algo capaz de influenciar diversos aspectos em nosso planeta e vai muito além da sensação de frio e calor. As correntes marítimas, por exemplo, variam de direção e intensidade devido, entre outros fatores, à temperatura das águas. O mesmo vale para fenômenos climáticos, nível de água nos mares e também comportamento dos animais.

Nesse último caso, há desde variações em padrões de migração até mesmo na proporção de indivíduos de determinado sexo, caso dos répteis. A biodiversidade de determinadas regiões também sofre impactos significativos com pequenas variações de temperatura. Se isso ocorre de maneira prolongada, não é preciso pensar muito para concluir que o ritmo de extinção de espécies tende a acelerar consideravelmente.

Caos sem fronteiras

A Terra funciona como um complexo sistema integrado. Ou seja, o que ocorre em determinado lugar pode causar mudanças em outros mais distantes, especialmente quando falamos de fenômenos climáticos. Um exemplo disso é o El Niño, que consiste no aquecimento da temperatura da água do Oceano Pacífico na região tropical, mas que acaba tendo efeitos no Nordeste do Brasil, deixando o clima mais seco por lá.

Com o aquecimento acentuado de determinadas regiões, reflexos assim aconteceriam de maneira ainda mais extrema. Temperaturas maiores em regiões como o Ártico, por exemplo, causariam o derretimento de geleiras. Além de afetar a fauna local, isso também geraria o aumento do nível dos oceanos, impactando a vida em todo o planeta.

Calor gera mais calor

Além de elevar o nível dos oceanos, o derretimento de geleiras devido ao aumento da temperatura acabaria por causar, com o perdão do trocadilho, uma bola de neve. Explico: uma vez que camadas milenares de gelo (o chamado permafrost) começassem a derreter, matéria orgânica presa nesse gelo, como animais e plantas mortos, ficariam expostos e começariam a se decompor.

Como resultado disso, teríamos um aumento na emissão de gases causadores do efeito estufa, como carbono e metano. Com eles na atmosfera, a tendência é que o aquecimento do planeta seja ainda mais acelerado.

Não há nada que não possa piorar, certo?

Novas e mortais pandemias

Aqui acima falamos sobre como a variação de temperatura pode fazer com que animais mudem seu comportamento. Com o encolhimento de florestas e áreas "selvagens", a tendência é de que alguns animais acabem migrando para áreas próximas da cidade.

E isso significa não apenas que teremos bichinhos fofinhos (e outros nem tanto) vivendo perto dos humanos, mas também que bactérias, vírus e outros patógenos que vivem "escondidos" em lugares selvagens também ficarão mais próximos dos humanos. É importante lembrar que a atual pandemia de Covid 19 surgiu, exatamente, nessas condições.

Crise social

Além de estarmos expostos a novas doenças e a um humor mais extremo do clima, variações de temperatura também tendem a causar um caos social. Isso porque a tendência é que cada vez mais regiões do planeta se tornem inabitáveis, aumentando a concentração de pessoas em centros urbanos, incentivando a chamada migração climática.

Segundo estimativas da ONU, em 30 anos essa migração moverá uma população de 200 milhões de pessoas. Atividades como a agricultura tendem a ser impactadas, o que afeta a produção de alimentos e aumenta ainda mais a vulnerabilidade de pessoas que já se encontram em situação delicada.

O aumento no número de doenças (e doentes) também tende a sobrecarregar os sistemas de saúde— a pandemia de Covid-19 nos deu "um gostinho" do que acontece nessa situação.

Onde estamos?

A temperatura da Terra sempre variou. A questão é que isso, geralmente, ocorre em um intervalo de tempo mais longo. Para se ter uma ideia, desde a época da Revolução Industrial (primeira metade do Século XIX), a temperatura média do planeta já subiu pouco mais de 1º C.

Parece pouco, mas estima-se que um "ponto de não-retorno", situação no qual os impactos seriam irreversíveis, corresponde a um aumento de 1,5º C na temperatura média do planeta em relação à época da Revolução Industrial. Ou seja: estamos em uma situação bastante crítica.

Para reverter isso, são necessárias mudanças consideráveis nos hábitos da humanidade em escala global. Ações como preservação (e recuperação) de florestas, substituição de combustíveis fósseis por outros de fonte renováveis e mudanças em hábitos de consumo ajudariam a diminuir o impacto da humanidade sobre o planeta.

Fonte:

Ana Luiza Fontenelle, meteorologista pela Universidade de São Paulo (USP) e mestra e doutoranda em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)