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Como seria se um buraco negro se aproximasse do Sistema Solar?

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

20/10/2020 04h00

Poucos corpos celestes despertam tanta fascinação quanto os buracos negros. Formados no final do ciclo de uma estrela de grande massa, eles têm como características a sua altíssima densidade e a enorme influência gravitacional exercida ao seu redor. Mas o que aconteceria se um objeto do tipo passasse próximo da "nossa casa", o Sistema Solar? Bem, as consequências seriam catastróficas.

Para que haja um buraco negro, é necessário a pré-existência de uma estrela de grande massa, com um corpo com pelo menos dez vezes a massa do Sol.

Considerando que uma estrela do tipo passe por todo seu ciclo de existência, exploda em uma supernova e seu antigo núcleo colapse em um buraco negro, sua massa passaria a ser cerca de três vezes a massa do Sol. São os chamados buracos negros estelares, que são corpos extremamente densos, com diâmetro de apenas 20 km —um pouco menos que a Marginal Pinheiros, avenida de São Paulo.

Com esses pré-requisitos, não há a chance de um buraco negro simplesmente surgir no Sistema Solar —e nem nas redondezas, já que as estrelas próximas do nosso sistema são conhecidas. Mas, para a nossa situação hipotética, vamos imaginar que uma estrela errante tenha originado um buraco negro e que ele esteja vagando por aí.

Protagonismo abalado

Um dos maiores riscos gerados por um buraco negro é a sua capacidade de influenciar corpos celestes devido a sua enorme força gravitacional.

No Sistema Solar, o corpo que exerce a principal força gravitacional é o Sol. Por causa de sua grande massa, a simples presença de um buraco negro nas redondezas do nosso sistema causaria distúrbios nas órbitas dos planetas. Só isso já seria fatal para todas as formas de vida.

Isso ocorre porque a vida na Terra depende criticamente da quantidade de energia recebida do Sol. Variar a nossa distância em relação à estrela, mesmo que pouco em termos astronômicos, significa afetar esse equilíbrio tênue —e emitir um atestado de óbito a tudo que vive por aqui.

O tamanho do problema varia

A trajetória do buraco negro influenciaria muito do tipo de destruição que experimentaríamos no Sistema Solar. Caso ele passasse pela parte interna do sistema, Sol e planetas seriam capturados invariavelmente.

A velocidade com que isso ocorreria depende de vários fatores. Mas, na prática, seria como abrir o ralo em um tanque cheio de água.

Se esse buraco negro passasse, por exemplo, próximo da órbita de Netuno, teríamos o cenário explicado no tópico anterior: órbitas planetares bagunçadas e o invariável fim da vida como conhecemos.

E se formos capturados?

Ao redor de um buraco negro há o chamado horizonte de eventos, que é uma espécie de ponto de não-retorno, até mesmo para a luz. Tudo que passa desse ponto é capturado e desaparece.

Na parte mais externa do buraco negro, além do horizonte de eventos, há o chamado disco de acreção, uma espécie de acúmulo de material que geralmente é a parte observável desse corpo celeste. Isso ocorre porque, ao ser atraído pelo buraco negro, qualquer material é acelerado a velocidades altíssimas e, nesse processo, emite uma grande quantidade de energia.

Antes da Terra ser efetivamente capturada e levada a seu trágico fim, é praticamente certo que não haveria nada vivo no planeta para ver o espetáculo bizarro que aconteceria. Ainda assim, estima-se que o que se veria é esse disco de acreção do buraco negro. Em seguida, a enorme gravidade do buraco destruiria a atmosfera e o planeta seria esticado.

Como a elasticidade não é o forte de um corpo como um planeta, ele se seria quebrado em nível molecular, num processo chamado de "espaguetificação". Todo esse material passaria a integrar o disco em torno do buraco negro.

Devemos temer?

De maneira geral, a resposta é não. Há uma enorme quantidade de "pequenos" buracos negros, sendo que alguns foram observados a 3 mil anos-luz de distância.

Mas há um ponto importante aqui. Mesmo que uma estrela próxima vire um buraco negro, nada mudará no Sistema Solar. Afinal, esse buraco negro não superará a massa da estrela original; portanto, sua influência gravitacional não será maior do que a atual.

Um exemplo de uma estrela próxima que deverá virar um buraco negro em breve e que não mudará nossa vida é Betelgeuse, que fica na constelação de Órion, a 642 anos-luz da Terra.

Ainda assim, mesmo "próxima", nada acontecerá conosco, já que ela tem uma massa de 16 a 19 vezes a massa do Sol. Durante a explosão da supernova, parte da massa de Betelgeuse se perderia, formando um buraco negro de três a quatro vezes a massa do Sol.

Mas há a possibilidade de que o fim do nosso sistema envolva ser engolido por um buraco negro. Essa seria uma das possíveis consequências de uma colisão da Via Láctea com a galáxia de Andrômeda, algo previsto para acontecer daqui a cerca de 4 bilhões de anos.

Neste cenário, há a possibilidade de que todo o caos desloque a órbita do Sistema Solar e seus planetas. O que restar esse evento catastrófico poderia acabar capturado pelo buraco negro supermassivo localizado no centro de nossa galáxia.

Fonte:

Roberto D. Dias da Costa, professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP)