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Como uma peça quebrada derrubou mercado de ações de US$ 6 trilhões

Interior da Bolsa de Valores de Tóquio - Chris 73 / Wikimedia Commons
Interior da Bolsa de Valores de Tóquio Imagem: Chris 73 / Wikimedia Commons

Gabrielle Pedro

Colaboração para Tilt

08/10/2020 17h25

Foi um dia mais agitado que o normal no mercado de ações de Tóquio, o terceiro maior do mundo. Os seus administradores perceberam que o sistema estava com problema por volta das 7h da quinta-feira passada (1º). Uma falha que derrubou uma bolsa de US$ 6 trilhões em ações.

Um aparelho de dados essencial para o sistema não estava funcionando. E o backup automático falhou uma hora antes que o sistema, chamado Arrowhead, começasse a processar os pedidos do mercado acionário.

A paralisação, que se estendeu pelo dia inteiro, foi a mais longa desde que a Bolsa mudou para um sistema de negociação totalmente eletrônico em 1999. A Bolsa de Tóquio só fica atrás da Bolsa de Nova York (NYSE) e da Nasdaq em valores. Cerca de dois terços do volume financeiro movimentado na bolsa japonesa é realizado por estrangeiros.

Assim como todos os serviços que travam, o problema gerou muitas críticas de participantes do mercado e autoridades. Eles destacaram a vulnerabilidade menos discutida na "tubulação" financeira mundial: o quão perigoso pode ser quando uma peça que compõe um sistema de negociação decide parar de funcionar.

"As bolsas são uma parte crucial da infraestrutura do mercado, e é inaceitável que oportunidades de negociação sejam negadas", disse o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso. "Estamos lidando com máquinas, então é sempre possível que elas quebrem. É preciso criar infraestrutura com essa possibilidade de falha em mente."

O que é o sistema Arrowhead?

Lançado em 2010 pela Bolsa de Valores de Tóquio, a proposta do sistema Arrowhead era ser uma solução mais moderna que a anterior, depois que uma série de interrupções criou constrangimentos para a Bolsa nos anos 2000. Na primeira década no ar, o sistema apresentou algumas falhas corriqueiras, mas nada que comprometesse o seu desempenho.

Mas tudo mudou naquela quinta-feira, quando uma peça de hardware chamada de dispositivo de disco compartilhado número 1 —uma das duas caixas quadradas de armazenamento de dados— detectou um erro de memória.

Essas peças armazenam dados usados nos servidores e distribuem comandos e combinações de identificação e senha para terminais da Bolsa que monitoram negociações.

Aquela foi a primeira em quase 15 anos que a Bolsa de Tóquio sofreu uma interrupção completa das negociações. A instituição, que tem como política não fechar nem mesmo em desastres naturais, deu o braço a torcer e precisou cancelar os trabalhos que deveriam acontecer naquele dia.

Prédio da Bolsa de Valores de Tóquio - Domínio público - Domínio público
Prédio da Bolsa de Valores de Tóquio
Imagem: Domínio público

Não há indicações de que a falha tenha ocorrido por ação de hackers ou por alguma brecha de cibersegurança.

Às 16h30, quatro executivos do TSE, incluindo o diretor executivo Koichiro Miyahara e o diretor de informações Ryusuke Yokoyama, enfrentaram jornalistas na bolsa para explicar a interrupção. Em frente a todos, eles se curvaram para pedir desculpas pelo ocorrido.

Apesar dos problemas, a equipe foi elogiada pela forma como lidou com a imprensa.

Já à noite, foi anunciado que a Bolsa retomaria as negociações na sexta-feira. Mais de três mil empresas estão listadas na Bolsa de Tóquio, que é controlada pela Japan Exchange Group, maior operadora asiática.

Embora o incidente tenha passado sem mais problemas, muitas perguntas permanecem sem resposta. Uma das principais é se o mesmo tipo de falha causada por hardware poderia ocorrer em outros mercados acionários. Para um analista, quase certamente poderia, mas isso não é algo com que se preocupar.

"Não há nada exclusivamente japonês nisso", disse Nicholas Smith, da CLSA, em Tóquio. "Acho que só temos que colocar isso na caixa de 'coisas acontecem'. Não deveriam, mas acontecem", concluiu.

O mau funcionamento de um hardware básico despertou a atenção para a vulnerabilidade do sistema digital do país. O recém-nomeado primeiro-ministro Yoshihide Suga fez da atualização dessa infraestrutura uma prioridade, argumentando que ela é essencial para a competitividade do Japão.