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Armadura que venceu alien no cinema chega à vida real para praticar esporte

Marcel Lisboa/ UOL
Imagem: Marcel Lisboa/ UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

02/10/2020 04h00

No final do filme "Aliens, O Resgate", de 1986, a personagem interpretada pela atriz Sigourney Weaver usa uma armadura mecânica gigante para derrotar a rainha alienígena. O engenheiro canadense Jonathan Tippett nunca esqueceu da cena. Mas não pela batalha e sim pela dinâmica da armadura, chamada de Power Loader no filme.

"Nós todos já vimos brigas milhões de vezes, o Loader que era legal", diz ele. Três décadas e meia depois, esse fascínio se transformou em realidade. Tippett é o nome por trás do Prosthesis, uma espécie de aranha de quatro patas de metal que pesa quase cinco toneladas e é o protótipo do que ele pretende que se torne um novo esporte: corrida de mechas.

O termo japonês mecha —ou mech, como também é chamado em inglês— se refere a armaduras mecânicas controladas por um piloto. Como no mangá "Evangelion", nos filmes "Círculo de Fogo", ou o Megazord dos "Power Rangers". Muita gente já tentou produzir algo semelhante, mas poucos produziram um que funcionasse de verdade.

Em 2017, por exemplo, Jeff Bezos, dono da Amazon e homem mais rico do mundo, apareceu em um evento dentro de um mecha chamado Method-2. No entanto, o bichão estava amarrado ao teto por correntes grossas e tinha mobilidade bastante reduzida. O Prosthesis, por outro lado, chega a ser desenvolto —o que se explica pelo modo como é dirigido.

Assim como geralmente ocorre na ficção, o mecha não é operado por qualquer tipo de joystick ou manche, mas responde aos movimentos do próprio piloto. Ele fica no que Tippett descreve como um "ninho acolchoado", envolto por um exoesqueleto com sensores que captam seus movimentos e os transmitem para cada uma das extremidades —as patas— do mecha.

Ao mesmo tempo, a máquina aplica uma resposta (feedback) de pressão no corpo do piloto para que este entenda a resistência que as patas da armadura estão enfrentando.

Marco Terra, pesquisador do Centro de Robótica da USP (Universidade de São Paulo), faz uma comparação do princípio com braços robóticos usados por médicos em cirurgias. "A medida que se faz um movimento, a transmissão desse movimento vai para as ações de comando e o robô executa ao mesmo tempo", diz Terra.

Apesar da menção aos robôs —difícil de evitar ao falar sobre esse tema—, Tippett explica que o Prosthesis não tem nada de robô. Na verdade, o nome original do projeto era "Prosthesis: The Anti-Robot". "Um mecha, especialmente um mecha de esportes, muito intencionalmente não tem qualquer autonomia. É isso que faz dele um antirrobô", afirma.

Na verdade, o canadense explica que parte do propósito do projeto está ligado a uma ideia de habilidade humana e maestria física, em um contexto em que máquinas autônomas já ocupam grande parte da nossa rotina.

"A corrida de mechas foi idealizada com os humanos no seu coração", diz Tippett.

Sem briga à vista

O engenheiro começou a trabalhar no que se tornaria o Prosthesis há quase 15 anos, em 2006. Dez anos depois, em 2016, a empresa canadense de engenharia Furrion investiu no projeto, o que resultou em uma nova empresa chamada Furrion Exo-Bionics. Ainda que não exista uma data certa, Tippett acredita que a corrida de mechas pode ser lançada já em 2024.

Para ajudar no financiamento, em 2020 eles lançaram uma campanha de financiamento coletivo no Kickstarter —a meta de 20 mil dólares canadenses já foi superada com folga. Para os apoiadores que doassem mais que 2.500 dólares canadenses, o prêmio era um dia de treinamento para aprender a pilotar o mecha.

Mas ainda que não-robôs gigantes disputando uma corrida seja animador, é difícil não imaginar outras aplicações para essa tecnologia. "Isso poderia beneficiar uma infinidade de outros setores, sem dúvida", diz Marco Terra, da USP. "Na própria construção civil tem muito pouca coisa explorada, seria possível transportar cargas enormes com mais facilidade."

"Nós usamos o esporte competitivo para impulsionar a tecnologia", afirma Tippett. Segundo o criador do mecah, esse caminho está ajudando a aprender as capacidades e limitações desse tipo de máquina, o que permitiria o desenvolvimento de aplicações em outras áreas. "A gente já aprendeu mais sobre aplicações de exoesqueletos em larga escala nesse protótipo do que qualquer outra pessoa na história. Já conseguimos, por exemplo, resgatar dois carros enterrados na lama com o Prosthesis, o que nunca foi seu propósito."

E as lutas com robôs gigantes, que já vimos milhões de vezes? Por enquanto, estão fora dos planos. Mas Jonathan Tippett, um ex-praticante de capoeira, abre uma única exceção:

"Capoeira e armaduras mecha talvez seriam a coisa mais maravilhosa do mundo, mas até lá a gente precisa melhorar muito a tecnologia."