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Com temática africana, baiano vence concurso mundial da Sony; veja fotos

Foto vencedora da série Afrocentrípeta, de Matheus Leite, em concurso internacional de fotografia da Sony - Matheus L8
Foto vencedora da série Afrocentrípeta, de Matheus Leite, em concurso internacional de fotografia da Sony Imagem: Matheus L8

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt

14/09/2020 15h48Atualizada em 15/09/2020 11h40

Imagine como é vencer um concurso internacional por algo que você evitou por anos em sua vida. Foi exatamente isso que aconteceu com o fotógrafo baiano Matheus Leite, o primeiro brasileiro a vencer o concurso Sony World Photography Awards na categoria National Awards (Brasil). Isso porque ele nunca gostou de ser fotografado e, da adolescência até os 21 anos, fugia dos retratos.

A morte do pai em 2012 fez perceber em Matheus a importância de se registrar o presente. "Uma coisa que mexeu muito comigo foi a fato de não ter muita foto com meu pai. E por decisão minha, inclusive. Nos álbuns de família é muito comum ter fotos com todos os familiares e, em vários desses eventos, eu sabia que estava presente e não participei da foto", conta.

Sobre a mudança de visão, afirma que passou a entender a fotografia como o registro de momentos e sensações. "A fotografia é a valorização do agora, do quem está comigo, é algo simbólico. Para uma pessoa que fugia de fotos, acho que esse foi um marco muito visível", explica.

Com toda essa reviravolta, Matheus venceu um concurso internacional com mais de 190 mil imagens inscritas. Veja a lista completa de vencedores da categoria National Awards do concurso da Sony em 2020 —são 69 no total, com participantes de diversos países.

De acordo com o fotógrafo, que assina seus trabalhos como Matheus L8, vencer o concurso foi muito surpreendente, já que ele só tem cinco anos de carreira e nunca tinha participado de competições desse tipo.

"Em 2015 peguei minha primeira câmera e comecei a fazer fotos em ambientes fechados para registrar amizades, festas de familiares, etc. E esse primeiro ano foi tão intenso que no segundo semestre eu já estava trabalhando com fotografia", conta o fotógrafo, que já havia atuado com edição de vídeos.

Foto do baiano Matheus Leite, que venceu concurso internacional de fotografia da Sony em 2020 - Matheus L8 - Matheus L8
Imagem: Matheus L8

"É um concurso de escala mundial, pessoas da Inglaterra, Tailândia, China, Namíbia, enfim, todo o mundo participando. Por isso, a derrota seria aceitável pela magnitude que o concurso tem. Foi uma surpresa, fico até me achando chato falando isso, mas não tem outro sentimento", completa.

A surpresa com a vitória foi tão grande que Matheus chegou a ter dúvidas sobre o email que recebeu. Ele afirma que ainda está desenvolvendo melhor o inglês e que, ao ver a palavra "winner" (vencedor), acabou pensando ser um outro tipo de felicitação.

"Quando recebi um email em inglês falando que ganhei, achei que eu estava interpretando de maneira equivocada. Pensei que aquele 'winner' podia ser algo sobre participantes, do tipo, 'vocês já são vencedores por participar'. De repente percebi e, meu Deus, eu venci. Nem sabia que nenhum brasileiro tinha ganhado, então, assim, ainda foi um combo de surpresas e estou caindo de paraquedas nessa realidade", conta o humorado fotógrafo.

Foto do baiano Matheus Leite, que venceu concurso internacional de fotografia da Sony em 2020 - Matheus L8 - Matheus L8
Imagem: Matheus L8

Em 2014, outro brasileiro venceu o concurso da Sony, mas com outro tema. O gaúcho Ricardo Teles levou o World Photography Awards na categoria Viagem, com a fotorreportagem Estrada dos Grãos.

Cultura africana

Para vencer o concurso, Matheus L8 aproveitou outra de suas paixões. O fotógrafo cursou até o sétimo semestre de História na Universidade Federal da Bahia, mas trancou o curso para trabalhar com fotografia. Atualmente, é sua fonte de renda.

Assim, Matheus decidiu narrar um pouco da chegada do povo africano escravizado ao Brasil. O ensaio, batizado de Afrocentrípeta, foi realizado nas Dunas de Diogo, região metropolitana de Salvador, e retrata as relações intrarraciais ocorridas no Brasil durante os séculos de escravidão.

"Eu pensei na diversidade que existia na época. Uma coisa que me incomoda era esse entendimento sobre esses povos negros de uma maneira homogênea, singular. Sendo que são povos de culturas diferentes. Você tem um povo do Magrebe, islamizado, com um tipo de cultura, do Congo, com outro, e todo mundo ali compartilhando essa experiência cruel da escravidão", explica.

Pensando nisso, ele fez um ensaio mostrando o encontro desses povos no Brasil e a troca de cultura e experiências que ocorreram na época. De acordo com o fotógrafo, a ideia era mostrar como as diferenças foram "resolvidas por essa ligação afro, que levou ao centro dessa identidade coletiva".

"Esse ensaio tenta simbolizar isso, essa força centrípeta que levou para essa interseção afro, que é a relação brasileira, uma identidade construída aqui, muito diferente da identidade negra na África", explica.

Sobre a foto vencedora, a última do ensaio Afrocentrípeta, Matheus L8 afirma que ela representa justamente o final dessa relação. "Escolhi essa foto porque simboliza essa construção, esses laços, ela é o ponto final dessa epopeia, essa trajetória desses povos", disse o fotógrafo.

Como prêmio, Matheus L8 vai receber uma câmera Sony Alpha 7 III e terá seu trabalho mostrado na exposição "Sony World Photography Awards", no palácio Somerset House, em Londres, programada para iniciar no final deste ano.

Sobre o futuro, diz não ter nada em especial programado. Espera apenas que a vitória possa ajudar a conseguir mais trabalhos com fotografia artística.

"Até hoje é um exercício de prazer para mim, não é uma fonte de renda. Esses ensaios que fiz é porque acredito, quero colocar uma ideia na mesa. Talvez eu comece a ser chamado para fazer esses tipos de trabalho de maneira remunerada também", encerra.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no título do texto, outro brasileiro já havia vencido o concurso Sony World Photography Awards --no caso, Ricardo Teles, em 2014. O título foi corrigido, e a informação foi acrescentada ao texto.