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Pressionada por leis e greves, Uber defende seu modelo "flexível"

Uber é ameaçada por lei norte-americana e enfrenta questionamentos no Brasil - Divulgação
Uber é ameaçada por lei norte-americana e enfrenta questionamentos no Brasil Imagem: Divulgação

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

04/09/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Uber está ameaçada por lei na Califórnia e por greves de apps no Brasil
  • Diretora-geral do app no Brasil defende a "flexibilidade" do serviço
  • Votação na Califórnia será decisiva para viabilidade do modelo de negócio
  • Pandemia derrubou viagens, mas ritmo de corridas começa a aumentar no Brasil

A Uber passa por momentos turbulentos nos últimos meses. Por um lado, a pandemia tirou as pessoas da rua —e diminuiu bruscamente as viagens no seu app principal. Por outro, as greves de entregadores e uma nova lei na Califórnia (Estados Unidos) ameaçaram a sustentabilidade do seu modelo de negócio.

Para esses dois últimos problemas, Cláudia Woods, diretora-geral do aplicativo no país, tem uma palavra-chave: "flexibilidade". A Tilt, a chefe do app no Brasil cita indicativos econômicos para defender a maneira como a plataforma funciona —sem contratar motoristas e entregadores, algo que está cada vez mais em xeque no mundo.

"Acho que a palavra-chave desses dois cenários é a flexibilidade", afirmou, logo após evento online no Brasil em que a empresa anunciou novas funcionalidades de segurança. "Estamos vivendo um momento de mudanças econômicas em vários países, vemos informações de queda do PIB (Produto Interno Bruto) e o impacto que a covid-19 está tendo", citou.

Os argumentos de Woods deixam claras duas coisas:

  • Por um lado, uma queda econômica muito grande aumenta a importância das plataformas para a geração de renda enquanto uma pessoa está desempregada. Isso foi visto principalmente com a enxurrada de novos entregadores em apps durante a pandemia;
  • Por outro, mostra que as plataformas caminham lado a lado com uma certa precarização do trabalho. Com mais desempregados, mais pessoas se sujeitam (e acabam obrigadas a aceitar) a trabalhar em empregos que não gostariam de outra forma.

Quando surgiu, a Uber se pintava como uma opção "diferente" das pessoas gerarem renda. Ela era apontada como a "economia do bico", em que as pessoas poderiam ganhar um dinheiro extra ou trabalhar no seu tempo. É essa a "flexibilidade" citada por Woods —ela já havia apontado esse elemento como primordial em entrevista a Tilt no ano passado.

"A flexibilidade que esta por trás dos dois negócios (entregas e viagens de carro) é muito importante. A facilidade que um parceiro pode se associar à comunidade, de ditar como quer trabalhar e quando quer trabalhar são os pilares dessa discussão tanto no Brasil quanto na Califórnia", opinou Woods.

Especialistas ouvidos pela reportagem já apontaram que as plataformas vão precisar realizar mudanças para seguirem funcionando —ambos os lados (parceiro e app) terão que ceder eventualmente para diminuir a precarização. Mas uma solução adequada só surgiria em economias fortalecidas, com pessoas que queiram de fato trabalhar com a forma "flexível" das plataformas.

"O que vai favorecer a 'economia de bico' é o crescimento econômico. Economias que crescem de forma sustentável vão conseguir ter economias compartilhadas mais saudáveis. Vai ter um balanço melhor do crescimento do lado formal com o lado informal. O grande problema que leva à precarização é que as pessoas vão para o lado autônomo por falta de opção, e não por quererem estar ali", diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper.

As tretas no Brasil e nos EUA

A Uber enfrenta atualmente diferentes tretas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Vamos começar pela regional, que tem aumentado justamente por causa da pandemia.

Após enfrentar greves de motoristas em anos anos recentes, a Uber viu em julho os entregadores se rebelarem e protagonizarem duas paralisações nacionais, além de outras manifestações pelo país. Os movimentos não são puramente contra o Uber Eats, mas atingem todas as plataformas como iFood, Rappi, James, Loggi, entre outras.

A reivindicação dos entregadores são por melhores condições de trabalho, remuneração mais justa, auxílios e seguros, além de menos precarização de sua mão de obra. Vale lembrar que os movimentos não exigiram contratação e pagamento de direitos trabalhistas, apesar de alguns entregadores reclamarem disso.

O problema maior ocorre fora do Brasil e pode inviabilizar o atual modelo de negócio da Uber. A Califórnia aprovou no ano passado uma nova lei que exige que empresas como Uber —e outras do tipo, como a Lyft— contratem os "parceiros" como funcionários, pagando os direitos trabalhistas norte-americanos.

A imposição da lei foi adiada pela Uber por diferentes questionamentos na justiça, mas em agosto um juiz determinou que a legislação passasse a ser seguida imediatamente pelas companhias. Isso levou Uber e Lyft a ameaçarem tirar o app do ar da Califórnia por alguns meses até tentarem encontrar formas de adequar motoristas à nova lei.

Os apps chegaram a enviar alertas para usuários informando de uma suspensão da plataforma. Mas, aos 45 minutos do segundo tempo, as duas empresas conseguiram novo respiro. O Tribunal de Apelações suspendeu a lei até outubro e sobrou para a população decidir sobre o tema, na eleição nacional em novembro. Nos EUA, as cédulas de votação permitem não só votar para presidente e congressistas, mas também em outros temas estaduais e municipais.

Uma nova regra que será votada no país é chamada de Proposta 22 e foi elaborada e divulgada pelos apps da "economia de bico". Ela prevê que empresas como Uber, Lyft e outras sigam contratando motoristas de forma independente, com novas regras como pagamento de 130% do salário mínimo por hora trabalhada e de auxílio médico para motoristas, por meio de um fundo que será criado pelas empresas.

Essa proposta é vista como a última chance da Uber manter seu modelo negócio de forma viável na Califórnia, se for aprovada pelos eleitores. Caso seja negada, a legislação que obriga a contratar os "parceiros" entrará em vigor. Segundo o jornal San Francisco Chronicle, o gasto da Uber com mão de obra aumentaria 30% se a lei que obriga a contratação entrar em vigor.

Como a pandemia mudou a Uber

A pandemia reforçou os dois lados da moeda da Uber e de outros aplicativos do tipo: tanto a sua função como alternativa importante para momentos de crise quanto a dependência que os apps geram entre muitas pessoas.

Nos primeiros meses da quarentena, motoristas relataram a Tilt terem perdido até 90% da renda com o aplicativo. O número diminuiu com o passar do tempo, mas ainda assim o impacto do isolamento social é grande entre essas pessoas que não têm nenhuma garantia de renda. Woods defende a Uber e vê que a empresa criou alternativas no período.

"Com a queda nas viagens, traçamos novas frentes no app. Foi assim que nasceu o Uber Flash. Já se via informalmente o usuário usando a Uber para enviar produtos, então criamos esse produto novo que virou um grande sucesso. É usado principalmente em datas como Dia dos Namorados, Dia dos Pais", afirma.

Ela ainda ressalta o aumento de 100% de uso do Uber Eats em relação ao ano passado, além da compra da Cornershop, que oferece entregas de supermercado. Atualmente, a empresa já vê uma certa retomada no número de viagens por aqui.

"Começa a ver o retorno de viagens ocasionais, mais no fim de semana ou ida ao supermercado e academia. Isso cresce primeiro. Por último, vai ser a ida ao aeroporto e retorno a escritórios. Cada cidade é diferente", conta.