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Bafômetro pra quê? Em breve, seu celular poderá dizer se você está bêbado

Pesquisadores conseguiram detectar mudanças de comportamento causadas pelo álcool com sensores do celular - Getty Images
Pesquisadores conseguiram detectar mudanças de comportamento causadas pelo álcool com sensores do celular Imagem: Getty Images

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

19/08/2020 10h57

Seu smartphone pode alertar, em tempo real, sobre o quão bêbado você está. Analisando a maneira como você anda e se movimenta, ele poderia informar, por exemplo, quando é seguro dirigir.

Cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, realizaram um estudo com o principal objetivo de ajudar pessoas a controlar a quantidade de álcool consumido. O trabalho também visa orientá-las a seguir tratamentos médicos e a evitar dirigir depois de beber. O estudo foi publicado nesta terça-feira (18), no Journal of Studies on Alcohol and Drugs.

Os pesquisadores testaram 22 adultos voluntários, com idades entre 21 e 43 anos. Primeiro, cada um recebeu doses de um drinque de vodca com teor alcoólico forte o suficiente para produzir uma concentração de 0,2% na respiração.

Nos Estados Unidos, o limite legal para se poder dirigir, baseado na concentração de álcool por mililitro de sangue, é de 0,08%. No Brasil, a Lei Seca é mais dura: deve haver menos de 0,05 mg de álcool quando se sopra o bafômetro.

As cobaias tinham uma hora para terminar de beber os drinques e foram analisadas pelas sete horas seguintes. Além de monitorar a concentração de álcool na respiração, eles tinham de fazer um teste prático: andar em uma linha reta por dez passos, dar meia volta e dar os mesmos dez passos até o ponto inicial.

Um smartphone foi preso, com um cinto elástico, na lombar de cada um. Usando um app que coleta dados do acelerômetro (sensor que capta movimentos), o celular mediu a velocidade e os gestos das pessoas —laterais, de cima a baixo e para frente e para trás.

Em cerca de 90% do tempo, os cientistas conseguiram usar as mudanças na maneira de andar, detectadas pelo celular e pelo aplicativo, para identificar quando o limite de álcool no sangue excedeu os 0,08%.

"Temos sensores poderosos que carregamos conosco por onde quer que vamos. Precisamos aprender como utilizá-los também para a saúde pública", disse o pesquisador e médico de emergência Brian Suffoletto, em um comunicado da universidade.

"Em cinco anos, gostaria de imaginar um mundo em que as pessoas saem com os amigos e bebem em níveis seguros", acredita Suffoletto. "Ao primeiro sinal de alteração, elas receberiam um alerta e recomendações para parar de beber e se proteger de eventos de alto risco, como direção, violência interpessoal e encontros sexuais desprotegidos."

O álcool é um depressor do sistema nervoso central, reduzindo a atividade cerebral, prejudicando o raciocínio e a coordenação motora. Isso pode causar doenças crônicas e afetar a habilidade de dirigir um veículo com segurança.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo, mais de 3 milhões de homens e mulheres morrem todos os anos devido ao uso nocivo de bebidas alcoólicas. Dessas mortes, 28% são provocadas por lesões, como acidentes de trânsito; 21% por distúrbios digestivos graves; 19% por doenças cardiovasculares e o restante por infecções, câncer e transtornos mentais.

"Perdi um grande amigo da faculdade por causa de bebida e direção. Na emergência, já atendi dezenas de pessoas com lesões relacionadas à intoxicação alcoólica aguda. Por isso, dediquei os últimos dez anos a testar intervenções digitais que pudessem impedir mortes, ferimentos e doenças devido ao consumo de álcool", lembra Suffoletto.

Por enquanto, o estudo norte-americano é uma prova de conceito, para abrir terreno para pesquisas mais avançadas utilizando smartphones para detectar desvios de comportamento. Nos próximos testes, a ideia é deixar os celulares nas mãos e bolsos —já que, na vida real, ninguém os carrega na lombar.