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Astros do TikTok gravam vídeos de despedida e já preparam vida sem o app

Tyler Blevins, astro do e-sports no Tiktok - Reprodução
Tyler Blevins, astro do e-sports no Tiktok Imagem: Reprodução

De Tilt, em São Paulo

26/07/2020 11h17

Ty Gibson, 20 anos, de Greensboro, Carolina do Norte, não deu importância no TikTok para as especulações de que sua plataforma favorita de compartilhamento de vídeos seria banida. Mas quando usuários começaram a entrar em pânico após uma falha na plataforma ter apagado o número de visualizações de seus vídeos, as ameaças do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, de bloquear apps chineses, como o TikTok, pareceram mais reais.

O jovem viu outros usuários inundando o aplicativo com despedidas. "Eu pensei que era o fim", disse Gibson em uma entrevista. "Eu nem tive tempo para pensar sobre as coisas." Gravou seu próprio vídeo de despedida para seus 4,6 milhões de fãs, pedindo-lhes para segui-lo no YouTube e no Instagram.

Enquanto o destino da TikTok nos EUA é incerto, as notícias desencadearam uma onda de preocupações entre sua dedicada base de usuários, que está se preparando para migrar para outros serviços. Alguns, como o astro dos e-sports Tyler Blevins, conhecido mais amplamente como Ninja, que tem 4 milhões de seguidores no TikTok, disse a seus 6 milhões de seguidores no Twitter que já havia excluído o TikTok do celular.

Os usuários leais estão apenas aguardando por enquanto. Mas eles estão preocupados —compartilhando vídeos de si mesmos chorando (e dançando) com hashtags como #TikTokBan, que tem 212 milhões de visualizações e #SaveTikTok, com 315 milhões de visualizações no aplicativo.

"Se o TikTok perder a confiança dos usuários, eles perderão a relevância", disse Alexander Patino, vice-diretor do American Influencer Council, uma associação comercial de personalidades de mídias sociais que comercializam produtos online.

Embora existam questões reais de segurança sobre o TikTok, os motivos do governo de Donald Trump são principalmente políticos, o que torna não apenas difícil prever o que Washington decidirá, mas quase impossível retaliar se a proibição ocorrer, disse Justin Sherman, um membro do grupo de estudos Atlantic Council, que se concentra em geopolítica e segurança cibernética. "Acho que a empresa não poderia fazer nada para acalmá-los", disse ele.

O TikTok afirmou que nunca forneceu dados de usuários ao governo chinês e que não o fará se for ordenado, acrescentando que a empresa não recebeu nenhuma solicitação para isso.

Patrocinadores em espera

O efeito de uma proibição do aplicativo nos EUA seria mínimo no mundo da publicidade, já que o negócio de anúncios do TikTok ainda é incipiente e as marcas migrariam facilmente para outras plataformas, disse um executivo de uma grande agência de publicidade. Mas o patrocínio corporativo dos influenciadores já começou a sofrer.

Uma grande marca de bens de consumo suspendeu um acordo de cinco dígitos com um influenciador do TikTok por pelo menos dois meses, porque não queria ser associada a notícias negativas sobre o aplicativo, disse Joe Gagliese, presidente-executivo da agência de marketing de influenciadores Viral Nation, recusando-se a nomear a marca.

James Lamprey, um chef de cozinha com 1,2 milhão de seguidores no TikTok, disse que a incerteza levou uma empresa de câmeras que o patrocinava a interromper o acordo com ele para um vídeo patrocinado no valor de US$ 1.000 , até que haja mais clareza sobre o destino do aplicativo. Lamprey disse que começou a tentar fazer com que seus fãs no TikTok o sigam no Instagram. Se o TikTok for banido, o impacto sobre seus ganhos poderá ser enorme, disse ele.

Denúncias

O TikTok, que virou o app queridinho da quarentena, está sempre envolvido em polêmicas, mas agora a coisa parece mais séria. Primeiro veio a proibição de uso na Índia, depois a ameaça de banimento por parte dos EUA e até o Anonymous, famosa rede de hackers, aconselhou usuários a deletá-lo dos seus smartphones.

O Anonymous afirmou por meio do Twitter que a plataforma da empresa chinesa ByteDance é "essencialmente um malware [vírus] operado pelo governo da China que conduz uma operação de espionagem massiva".

A postagem do grupo hacker foi feita em cima de outro tuíte que traz uma lista, tirada supostamente do Reddit, com indícios que demonstram que o aplicativo teria acesso a vários dados do seu celular. O usuário que fez a lista afirma ter revirado o código do TikTok e descoberto do que ele seria capaz.

A guy on reddit reversed engineered #TikTok

Here's what he found on the data it collects on you

It's far worse than just stealing what's on your clipboard: pic.twitter.com/oqaQyYDXT2

-- Dan Okopnyi (@d1rtydan) June 28, 2020

"Um cara no Reddit reverteu a engenharia #TikTok. Aqui está o que ele encontrou nos dados coletados de você. É muito pior do que apenas roubar o que está na sua área de transferência", diz o post em inglês.

A postagem diz que o TikTok é um serviço de coleta de dados que atua de maneira velada como rede social. O aplicativo teria acesso às seguintes informações:

  • Hardware do aparelho (tipo de CPU, número do telefone, identidades de hardware, dimensões de tela, uso da memória, espaço no disco, etc);
  • Aplicativos instalados, inclusive aqueles que já foram deletados pelo usuário;
  • Conectividade (IP, roteador, ponto de Wi Fi, etc.);
  • Se o telefone tem root ou jailbreak --isto é, se eles estão desbloqueados para modificações não permitidas pela fabricante do celular;
  • Localização em tempo real, ativada a cada 30 segundos.

Segundo o suposto usuário do Reddit, o TikTok tem diferentes formas de proteção para evitar que desenvolvedores entendam como o app funciona. Além disso, o comportamento dos algoritmos muda se o app perceber que está tendo seus códigos analisados.

"É válido que eu já tenha revertido os aplicativos do Instagram, Facebook, Reddit e Twitter. Eles não coletam nem de longe a mesma quantidade de dados que o TikTok coleta, e eles de maneira nenhuma estão tentando esconder o que exatamente está sendo enviado, como o TikTok está", diz o usuário. E completa: "É como comparar um copo d'água com o oceano, eles simplesmente não se comparam."

Como se trata de uma denúncia anônima, talvez seja o caso de esperar mais análises de especialistas de segurança para bater o martelo de que o TikTok é tão invasivo como dizem. Enquanto isso, alguns países já vinham trazendo um ar de insegurança sobre a plataforma nas últimas semanas.

Queda de braço com os EUA

Os EUA têm sugerido cautela aos usuários, insinuando que as informações deles poderiam estar indo parar nas mãos do governo chinês. Já a Índia baniu o aplicativo do seu território —a Casa Branca cogita seguir o exemplo.

Desde maio desse ano, no entanto, o TikTok tem o norte-americano Kevin Mayer como executivo-chefe, numa tentativa de mostrar que a plataforma da ByteDance apesar de ser chinesa é independente em relação ao país de origem. Mas, isso não parece ter dado muito certo ainda.

Mayer chegou a enviar uma carta ao governo indiano afirmando poder "confirmar que o governo chinês nunca pediu os dados TikTok de usuários indianos", mas até agora a proibição se mantém.

A birra governamental mais recente do app é na Austrália. Na segunda (20), o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, disse que o governo australiano está "dando uma boa olhada" no TikTok para tentar identificar riscos aos usuários, tanto sobre possíveis interferências estrangeiras quanto questões de privacidade de dados.

Falta de segurança para crianças

Em maio, organizações como o Center for Digital Democracy [Centro para a Democracia Digital] e a Campaign for a Commercial Free Childhood [Campanha por uma Infância Livre do Comércio] entraram com uma queixa na FTC (Federal Trade Comission, o equivalente ao Cade americano) alegando que o TikTok violou um decreto de consentimento e uma lei que protege a privacidade das crianças na internet.

A empresa não tirou do ar todos os vídeos feitos por crianças menores de 13 anos —algo acertado com a FTC em fevereiro de 2019. O TikTok também pagou uma multa de US$ 5,7 milhões (R$ 30,3 milhões) na ocasião.

De fato, o usuário do Reddit que teria vasculhado os códigos do TikTok diz ter encontrado vários vídeos de homens entre 40 e 50 anos fazendo duetos com meninas de oito a dez anos cantando músicas com conotação sexual. "Eu pessoalmente os vi e os reportei. (...) Esses vídeos são postados publicamente. O TikTok tem a funcionalidade de envio de mensagem direta", conta.

O que o TikTok afirma

Em nota, enviada a Tilt na quarta-feira (22), o TikTok afirmou que leva as reivindicações que chegam até eles a sério. A empresa disse ter realizado uma revisão completa sobre elas e chegou a conclusão de que "muitas delas são imprecisas ou refletem a análise de versões mais antigas do aplicativo que, em alguns casos, estão desatualizadas."

"Como parte de nossa abordagem geral à segurança, nossa equipe de segurança da informação executa um processo contínuo para verificar as vulnerabilidades de segurança e corrigi-las. Incluímos empresas de segurança de classe mundial nessas avaliações", acrescentou.

O TikTok destacou ainda que incentiva seus usuários a usar a versão mais recente do aplicativo.

Sobre a acusação de que a plataforma se trata de uma ferramenta do governo chinês, a empresa ressaltou que o app "é de propriedade de investidores globais e possui uma equipe de gerenciamento baseada em todo o mundo nos mercados em que o aplicativo está disponível."

"O TikTok não está disponível na China e não fornecemos dados do usuário do TikTok ao governo chinês e não o faríamos se solicitado", concluiu a nota. (Com Reuters)