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Guerra fria em um aplicativo: por que briga do TikTok com os EUA importa?

Presidente americano disse considerar banir app do país, como fez a índia dias atrás - Saul Loeb/AFP
Presidente americano disse considerar banir app do país, como fez a índia dias atrás Imagem: Saul Loeb/AFP

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

11/07/2020 09h27

Sem tempo, irmão

  • Donald Trump e seu Secretário de Estado avaliam banir TikTok do país
  • Opositores de Trump também questionam app, que está no meio de debate geopolítico
  • TikTok nega ligações com governo chinês, apesar de ser propriedade de empresa chinesa

A semana não foi boa para o TikTok, aplicativo de vídeos criativos popular entre jovens. Está ameaçado de ser banido dos Estados Unidos, seu segundo maior mercado, dias depois de ser proibido na Índia, onde tinha seu maior número de usuários —611 milhões de downloads, segundo a empresa de análise de mercado Sensor Tower. O que está acontecendo com a plataforma da chinesa ByteDance?

Os dois fatos mostram que a guerra fria dos EUA com a China podem frear a ascensão da única rede social não-americana que tem crescido ao redor do mundo. Em abril, a mesma Sensor Tower disse que o TikTok se tornou o app mais baixado da história em um trimestre, com 2 bilhões de downloads.

Round 1: Na segunda-feira (6), Mike Pompeo, Secretário de Estado americano, afirmou ao canal Fox News que o uso de aplicativos chineses está sob análise e que estuda restrições ao TikTok para usuários dos EUA. Pompeo sugeriu cautela aos usuários, insinuando que as informações deles poderiam parar nas mãos do governo chinês.

Round 2: No dia seguinte, foi a vez do presidente Donald Trump afirmar que o país estuda proibir o TikTok. Mas em vez de citar riscos de espionagem, Trump associou o app à pandemia do novo coronavírus e que cogita o banimento como "uma das muitas opções" de represália à China.

Chinês, pero no mucho

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, diz que todas as empresas de tecnologia estão expostas às tensões entre EUA e China. Mas prevendo a treta, o TikTok foi esperto e nomeou, em maio deste ano, o americano Kevin Mayer como executivo-chefe, para tentar mostrar a independência da empresa em relação ao país de origem.

Deu certo? Não muito: as declarações de Trump e Pompeo indicam que a presença de Mayer não afastou desconfianças. O mesmo pode ser dito para a recente proibição do TikTok, além de outros aplicativos, na Índia, sob o argumento de que eles são "prejudiciais à soberania, integridade e defesa" do país. A Índia também vive sob tensão com a China, que piorou após um confronto de fronteira que deixou mortos.

A decisão motivou que Mayer enviasse uma carta ao governo indiano, dizendo que podia "confirmar que o governo chinês nunca pediu os dados TikTok de usuários indianos". O apelo, por enquanto, não funcionou.

Com a palavra... Um porta-voz do TikTok disse a Tilt que além da liderança americana, a equipe do app tem centenas de funcionários e nomes-chave em segurança, produtos e políticas públicas nos EUA. Afirmam ainda que promovem "uma experiência de aplicativo segura e confiável". "Nunca forneceram dados dos usuários ao governo chinês e nem o faríamos se solicitado", completou.

Tensão deve continuar com ou sem Trump

China sob ataque Com a economia americana em retração e uma eleição para ser disputada em novembro, Donald Trump tem adotado uma retórica mais agressiva quando trata, entre outros temas, da China.

"A postura mais dura em relação à China é eleitoralmente atraente, sobretudo agora que Trump não tem a economia do lado dele para vencer. Ele precisa descrever [Joe] Biden [candidato à presidência pelo Partido Democrata] como fraco em relação à China", analisa Stuenkel.

Muro tec na América Mesmo se Trump perder a eleição presidencial para Biden em novembro, Stuenkel acredita que a pressão contra a China e proibições às empresas do país, como a Huawei e o próprio TikTok, continuarão ou até serão maiores. "Minha expectativa é que a coisa vai piorar muito. O banimento do TikTok é um dos muitos outros passos que virão", prevê.

Seja Trump ou Biden o vencedor das eleições americanas deste ano, a tendência é que o setor tecnológico, visto como estratégico, será alvo de mais protecionismo. Isso porque a relação de Biden com o presidente chinês Xi Jinping nunca foi muito boa, desde quando ambos eram vices-presidentes de seus países.

O então vice de Barack Obama acreditava em relação mais aberta e amistosa entre Estados Unidos e China, mas não foi o que ocorreu. Fatores como a recém-aprovada lei de segurança de Hong Kong reforçam a tendência de maior hostilidade americana sobre a China.

Democratas e republicanos juntos? Em maio, organizações como o Center for Digital Democracy [Centro para a Democracia Digital] e a Campaign for a Commercial Free Childhood [Campanha por uma Infância Livre do Comércio] entraram com uma queixa na FTC (Federal Trade Comission, o equivalente ao Cade americano) alegando que o TikTok violou um decreto de consentimento e uma lei que protege a privacidade das crianças na internet.

A empresa não tirou do ar todos os vídeos feitos por crianças menores de 13 anos —algo acertado com a FTC em fevereiro de 2019. O TikTok também pagou uma multa de US$ 5,7 milhões (R$ 30,3 milhões) na ocasião.

Semanas depois dessa queixa, congressistas democratas escreveram uma carta a Joseph Simmons, presidente da FTC, detalhando os problemas de privacidade infantil do aplicativo chinês. Eles se juntaram a colegas republicanos na interpretação do TikTok como um risco à segurança do país.