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Pijama ou só cobertor: o que esquenta mais o seu sono no inverno?

Ketut Subiyanto/Pexels
Imagem: Ketut Subiyanto/Pexels

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

27/06/2020 04h00

Você usa pijama para dormir ou ficar com o mínimo de roupas debaixo do cobertor? Dependendo da sua preferência, as noites de inverno podem ser muito mais (ou muito menos) confortáveis. Isso porque cada uma das duas combinações acima causam efeitos bem diferentes.

Se você quiser ficar o mais quente possível, use uma combinação de pijama e cobertor. Se a ideia é ter conforto térmico, usar só o cobertor pode ser a melhor opção.

A explicação para isso está na área da física chamada termodinâmica, que estuda as causas e efeitos de eventos como trocas de calor, variações de temperatura e transformação de energia.

Perda constante

A ideia de que tanto o pijama quanto o cobertor (ou uma combinação dos dois) te esquentam bem não é bem assim. O corpo humano funciona, basicamente, como uma usina transformadora de energia. E pijama e cobertor funcionam como barreiras que limitam a perda de calor do seu corpo.

"Quando comemos algo, estamos consumindo uma fonte de energia. O nosso corpo a converte em trabalho, que pode ser desde o ato de caminhar até as funções mais básicas do corpo. Uma boa parte dessa energia, que pode chegar a até 70%, acaba sendo desperdiçada na forma de calor", explica Adriano Alencar, professor de Física do Corpo Humano na USP (Universidade de São Paulo).

Há diferentes meios pelos quais o corpo perde calor:

  • Transpiração: o processo de evaporação da água através da pele. Em exercícios intensos, o corpo perde 85% do seu calor pela transpiração;
  • Condução: quando se perde calor por contato com objetos ou substâncias. Em temperaturas do ar abaixo dos 20 ºC, o corpo perde cerca de 2% de sua temperatura por meio da condução pelo ar. Outro caso ocorre na água --que, aliás, conduz calor muito melhor do que o ar;
  • Convecção: é a resposta ao movimento natural do ar quente tentando subir e roubando calor do corpo. Normalmente o corpo perde de 10 a 15% de sua temperatura dessa forma;
  • Radiação: é a principal forma, especialmente quando a temperatura do ar está abaixo de 20 ºC. Isso se dá pela emissão de radiação infravermelha, que é responsável por 65% da perda de calor do corpo.

Essa perda de calor não é algo ruim: é fundamental para que o corpo funcione corretamente. A nossa anatomia é "desenhada" para maximizar a eliminação de calor para o ambiente.

"O corpo humano está normalmente acima da temperatura ambiente e isso, por si só, já faz com que ele perca calor todo o tempo. Essa perda de calor também é fundamental para garantir que o corpo se mantenha dentro de um intervalo bem restrito de temperaturas, algo exigido para a manutenção da nossa vida", explica Leandro Russovski Tessler, professor de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Interrompendo o processo

Pijamas e cobertores funcionam ao limitar a perda de calor do corpo. "A ideia é evitar os processos de evaporação, radiação, condução e convecção", diz Tessler.

Para isso, eles utilizam materiais que são maus condutores térmicos, como lã e tecidos sintéticos, o que diminui o efeito da perda de calor por condução. Ao manterem o ar quente próximo do corpo, o processo de convecção também é afetado. Paralelamente, ter uma superfície intermediária entre você e o ambiente também diminui a eficiência do processo de radiação.

Materiais que conduzem mal o calor são mais comuns, mas há outra forma: o uso de metal. Apesar de ser um ótimo condutor térmico, esse material é eficiente em reter a radiação emitida pelo corpo.

"É por isso que ele é usado na forma de mantas metálicas para manter pessoas aquecidas durante resgates de acidente. Ou, ainda, em sacos de dormir e agasalhos para temperaturas extremas", ressalta Alencar.

Você pode experimentar em casa: deixe um pedaço de papel alumínio com o lado reflexivo voltado para a sua pele, por alguns minutos, sobre a sua mão. A região deve ficar mais quente do que o resto do corpo.

Qual é o melhor para dormir?

A combinação de pijama e cobertor funciona melhor para aquecer o sono porque quanto mais superfícies intermediárias existirem entre o seu corpo e o ambiente, menos calor será perdido.

Mais quente, porém, não quer dizer mais confortável. Isso porque a temperatura do "sistema" corpo-agasalho-cobertor pode aumentar além da corporal.

"Uma vez que não exista a troca de calor suficiente entre o corpo e o ambiente, ele começa a esquentar, podendo ficar acima da sua temperatura normal. Neste caso, há a sensação de desconforto", diz Alencar.

Um dos mecanismos para se resfriar, nesse caso, é o suor. Se tirar o cobertor após suar —a água é um excelente condutor térmico, lembra?—, sentirá mais frio de novo, voltará a se cobrir e assim vai. Isso pode causar um ciclo bastante incômodo.

Muitas vezes é mais confortável dormir com poucas camadas de roupa (ou até mesmo sem) e debaixo de um bom cobertor. Assim, você garante que a temperatura do "sistema" fique agradável, sem impedir que o corpo realize a troca natural de calor.

Há muita gente que evita isso com medo de "levar um choque térmico" na hora que sair das cobertas para ir ao banheiro no meio da noite ou, então, na hora de acordar. Aqui, haveria risco em casos mais extremos.

"O simples ato de pisar no chão gelado ao levantar dificilmente provocará dano ao organismo, salvo quando há exposição de grande área corporal", diz Fábio André Santos Pampolha, Médico de Família e Comunidade e Supervisor Médico do Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam).

De acordo com Pampolha, diante de uma variação brusca e extrema de temperatura, o corpo reage alterando o calibre dos vasos sanguíneos. "Isso pode ocasionar desde um leve mal-estar até quadros graves de arritmias cardíacas, alterações pulmonares e metabólicas", explica.

Ainda que isso seja improvável de acontecer na sua casa, uma boa opção —inclusive em termos de conforto— para quem quer aposentar o pijama nas noites frias é manter uma roupa por perto para vestir assim que você sair da cama.