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Sistema de reconhecimento facial erra, e homem negro é preso por engano

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Carina Brito

Colaboração para Tilt

25/06/2020 16h34

O departamento de polícia de Detroit (EUA) prendeu um homem, acusado de um roubo de uma loja de luxo, com base na identificação via software de reconhecimento facial. O problema é que o sistema reconheceu a pessoa errada, e tanto o suspeito quanto a pessoa presa por engano eram negros. Seria a primeira falha do tipo registrada no país.

O homem em questão era Robert Williams. Em janeiro deste ano, ele estava trabalhando quando recebeu uma ligação da polícia pedindo que ele fosse à delegacia para ser preso. No início, ele pensou que era uma brincadeira, até que voltou para sua casa e dois policiais o algemaram quando ainda estava no gramado.

As duas filhas e a esposa presenciaram a cena —sem nenhuma explicação do motivo pelo qual Williams estava sendo preso. O crime que motivou a prisão era o roubo da loja Shinola em outubro de 2018, ocasião em que foram levados cinco relógios avaliados em cerca de US$ 3.800.

Tecnologia com falhas

O departamento de polícia utilizou um software de reconhecimento facial oferecido pela Rank One Computing para comparar a foto da carteira de motorista de Williams com o homem que aparecia no vídeo de vigilância da cena do crime. A tecnologia identificou os dois como a mesma pessoa.

Em junho, a American Civil Liberties Union (ACLU) de Michigan, organização que luta pelos direitos dos cidadãos estadunidenses, apresentou uma queixa contra a polícia de Detroit pela prisão errônea. Segundo a ACLU, o segurança da loja —que nem havia testemunhado o roubo— confirmou que Williams era o criminoso.

"Com aquela 'confirmação' evidentemente insuficiente em mãos, os policiais apareceram na casa de Robert e o algemaram em plena luz do dia na frente de sua própria família", diz a organização em nota.

Williams passou uma noite na prisão e, no dia seguinte, pôde conferir as cenas da câmera de vigilância. No interrogatório, o policial perguntou se o homem na foto era Williams, que respondeu "não" e colocou a imagem ao lado de seu rosto. "Espero que todo mundo não pense que todos os homens negros são iguais", disse o acusado.

O policial então afirmou que o computador "deve ter entendido errado". Depois de mais algumas horas de prisão, Williams foi liberado naquela noite.

Agora, a ACLU pretende usar a amostra de DNA de Williams e suas impressões digitais (tiradas quando ele chegou ao centro de detenção) como provas de sua prisão. Em sua denúncia, a organização solicita que a polícia de Detroit pare de usar reconhecimento facial para fazer prisões.

"Dadas as falhas da tecnologia e quão amplamente ela está sendo usada pela polícia hoje, Robert provavelmente não é a primeira pessoa a ser presa injustamente por causa dessa tecnologia. Ele é apenas a primeira pessoa que estamos sabendo", diz a organização.

Reconhecimento desigual

Apesar de as forças policiais dos EUA usarem reconhecimento facial há algum tempo, dados mostram que que, embora a tecnologia funcione relativamente bem para identificar homens brancos, os resultados são menos precisos quando falamos de outras cores de pele.

Segundo um estudo do National Institute of Standards and Technology (NIST), os sistemas de reconhecimento facial têm de "dez a 100 vezes" mais chances de gerar falsos positivos para rostos asiáticos ou negros do que para faces brancas.

Recentemente, a Microsoft, Amazon e IBM suspenderam as vendas de softwares de reconhecimento facial para a polícia após protestos nos EUA que exigiram o fim de métodos policiais que poderiam acusar injustamente pessoas negras.