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Problema com o 5G? Saída é TV digital substituir parabólica, diz executivo

Casas de Rio Largo com TVs via parabólicas - Leandro Moraes/UOL
Casas de Rio Largo com TVs via parabólicas Imagem: Leandro Moraes/UOL

Helton Simões Gomes

De Tilt

19/06/2020 04h00Atualizada em 20/06/2020 09h20

Sem tempo, irmão

  • Para diretor da Ericsson, disputa em torno do 5G e parabólicas é ?conflito de gerações diferentes de tecnologia?
  • Teles defendem que solução é trocar aparelhos onde houver problema
  • Já as TVs sugerem substituir os receptores de sinal de todos os usuários
  • Paulo Bernardocki, executivo da empresa, diz que melhor saída seria investir na TV digital

A futura interferência do 5G nas antenas parabólicas complicou a chegada da nova tecnologia móvel ao Brasil. Telefônicas defendem a troca de equipamentos nos locais que registrarem problemas entre o 5G e o sinal de TV. Já as emissoras de televisão e rádio querem substituir os receptores de todos os usuários, porque toda a transmissão seria transferida para outra faixa de frequência. Mas, para Paulo Bernardocki, diretor de soluções e tecnologia de redes da Ericsson, a saída mais adequada seria o avanço da TV digital para substituir a transmissão via satélite.

A companhia sueca é uma das principais fabricantes de equipamentos de rede do mundo, então toma partido das operadoras de telefonia na disputa com as TVs. Em entrevista a Tilt, Bernardocki defende que as empresas de radiodifusão ampliem investimentos na TV digital para chegar a regiões mais remotas.

"É importante que a gente contorne essa dificuldade e cada serviço tenha responsabilidade por aquilo que é do seu próprio âmbito", diz. O Brasil já passou por uma limpeza de espectro. Em 2015, a TV analógica passou a sair de cena, e começou o processo de migração para a TV digital. Isso liberou a faixa dos 700 Mhz, destinada ao 4G. O processo foi pago com o dinheiro do leilão que trouxe a quarta geração de telefonia celular ao Brasil.

Diferentemente da TV terrestre e da telefonia celular, a transmissão de TV via parabólica para residências (TVRO) não é serviço nem de radiodifusão nem de telecomunicação. E, na visão do executivo, não faz sentido pagar uma conta tão alta para resolver esse novo problema. "O 5G vai ter um impacto muito grande e positivo na economia. A gente vê disputas entre EUA e China se acirrando por causa do 5G. E todo esse contexto está sendo afetado pela discussão de um serviço irregular, que usa o espectro sem regulamentação, em que os equipamentos não são certificados e são de baixa qualidade", critica.

Tilt - É possível o 5G não interferir na frequência das TVs parabólicas?
Paulo Bernardocki -
Para a gente colocar em contexto, a TV via satélite não faz uso regular do espectro e não tem previsão legal. O que existe é a recepção do sinal pelas antenas parabólicas gigantes das TVs para uso profissional. Estes casos podem ser resolvidos com o uso de um filtro, acoplado atrás da antena profissional.

Paulo Bernardocki, diretor de soluções e tecnologias de rede da Ericsson - Divulgação/Ericsson - Divulgação/Ericsson
Paulo Bernardocki, diretor de soluções e tecnologias de rede da Ericsson
Imagem: Divulgação/Ericsson

O problema é que esse serviço foi usado para residências e gerou todo um mercado de parabólicas que tem qualidade bastante limitada. Essa característica faz com que, em determinadas situações, possam sofrer interferência do 5G, que não usa a mesma frequência da TVRO.

Essa interferência só ocorre em casos em que a torre do 5G está distante entre 50 e 100 metros da residência que usa a parabólica. As parabólicas interferidas serão poucas. A gente deveria focar na resolução desses casos específicos e não ter uma política de substituição de todas as parabólicas instaladas. Isso gera custo, onera o leilão de forma significativa. Vai trocar uma coisa que não precisa ser trocada.

Tilt - E por que poucas parabólicas sofrerão a interferência? Onde há parabólica não vai ter 5G?
Paulo Bernardocki -
As antenas do 5G estarão bastante distantes umas das outras. Hoje, a gente vê que a distância média de uma antena para outra é de quilômetros. E o 5G naturalmente vai ser implementado nas grandes cidades, até para as operadoras terem fluxo de caixa bacana para continuar a implantação. Isso aconteceu com o 2G, 3G e o 4G também. Leva tempo até haver uma distribuição homogênea para toda a população.

Nas cidades onde o 5G vai começar a ser instalado, já existe serviço de transmissão digital de TV. A sobreposição é pequena. As TVs com parabólicas são usadas em regiões remotas, onde a chegada do 5G vai demorar mais [para chegar].

Tilt - E quantas usuários de parabólica estariam dentro da área de sobreposição?
Paulo Bernardocki -
A gente não chegou a fazer essa conta. Mas, quando olha a distribuição das torres de uma cidade e a densidade de quarteirões envolvidos, vê que o alcance do 5G sobre esse serviço é bastante pequeno em áreas problemáticas.

Tilt - O que vocês defendem?
Paulo Bernardocki -
A gente entende que essa é uma política pública do MCTIC. É importante manter esse serviço [de parabólicas], principalmente para o pessoal de baixo poder aquisitivo, porque elas não têm TV digital hoje. O que a gente defende é uma ação pontual, que faça algo específico, mas não que tenha um cheque em branco.

Isso eleva os valores do leilão e podem afetar o nível de investimento em 4G e 5G. No fundo, o que a gente está vendo é um conflito de gerações diferentes de tecnologia. Eu diria até que há uma inversão de prioridades.

O 5G é tido como um dos pilares da economia no século 21. Chega-se a dizer que é uma nova revolução industrial na esteira da máquina a vapor, eletricidade e motor a combustão. O 5G vai ter um impacto muito grande e positivo na economia. A gente vê disputas entre EUA e China se acirrando por causa do 5G. E todo esse contexto está sendo afetado pela discussão de um serviço irregular, que usa o espectro sem regulamentação, os equipamentos não são certificados, são de baixa qualidade. Não pode segurar a economia por conta disso.

Tilt - Ao que você atribui a decisão do MCTIC para levar em conta as antenas parabólicas na hora de implantar o 5G?
Paulo Bernardocki -
Existe um embate entre o setor de telecomunicações e o de radiodifusão. Os interesses envolvidos são grandes, porque cada lado busca assegurar seu serviço. O nosso entendimento é que o dimensionamento da política do MCTIC é correto, porque a gente não vai transformar a sociedade de um momento para outro para todo mundo desfrutar de tecnologias avançadas.

Mas gostaríamos de evitar que o gasto para assegurar a política pública seja descontrolado. Pelos cálculos e testes que fizemos, é uma questão muito pontual. Não nos parecem realistas os valores e a forma como eles são calculados, chegando à ordem de alguns bilhões de reais.

Tilt - Há problema em considerar um serviço não regulamentado no momento da implantação de uma tecnologia de que se espera muito, como o 5G?
Paulo Bernardocki -
Eu creio que a solução adequada seria estender os investimentos da cobertura da TV digital. Ela foi pensada para isso.

Tilt - Isso sairia mais caro do que manter as parabólicas?
Paulo Bernardocki -
Não sei dizer. Mas seria o serviço de TV seguir o seu caminho de evolução da tecnologia. Hoje, usa-se um serviço de parabólica, que não está nem regulamentado, mas se aproveita de uma condição técnica existente, que é o sinal aberto, para distribuí-lo. Se a gente olhar a regulamentação da Anatel, isso não aparece.

É claro que existe uma condição estabelecida, que a gente tem de levar em conta, mas é importante que a gente contorne essa dificuldade e cada serviço tenha responsabilidade por aquilo que é do seu próprio âmbito.

Tilt - Você mencionou a disputa entre empresas de telecomunicação e de radiodifusão, mas a Ericsson também possui interesse bem claro.
Paulo Bernardocki -
A Ericsson é fornecedor de equipamentos de telecomunicações, e as empresas da área são nossas clientes. A nossa posição é a do setor.

Nossa posição olha para as pessoas que precisam de parabólicas e propõe a mitigação de impacto para eles. Não concordamos de forma alguma é com investimento desnecessário e sem critério. Não é apenas o investimento das operadoras de telecomunicações, mas, quando se faz um gasto que não é razoável do ponto de vista econômico, elas deixam de expandir o serviço para áreas que poderiam ser melhor atendidas.

Tilt - Qual sua perspectiva para solucionar este problema no futuro? A Anatel já estuda uma solução para a migração da faixa da TV via parabólica.
Paulo Bernardocki -
A nossa expectativa é, antes de mais nada, ter isso resolvido rapidamente. A demora na chegada do 5G é um atraso para a economia do Brasil. Já fizemos vários cálculos e estamos falando de uma injeção de uma dezena de bilhões de dólares, em tecnologia, equipamento e construção. Se levarmos em conta o faturamento de impostos, cada ano de atraso resulta em um montante de R$ 25 bilhões. Sem falar na quantidade de gente empregada. Tudo isso, no contexto de recessão, é muito relevante.