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Como "chove" toneladas de plástico nos EUA? Cientistas descobriram

Danish Siddiqui/Reuters
Imagem: Danish Siddiqui/Reuters

Thiago Varella

Colaboração para Tilt

17/06/2020 15h41Atualizada em 18/06/2020 10h59

Os norte-americanos podem estar respirando plástico sem saber disso. Um estudo publicado na quinta-feira (11) na revista Science revelou que mais de mil toneladas de partículas do material caem anualmente em parques nacionais e áreas selvagens no oeste dos EUA. Essa quantidade equivale a mais de 123 milhões de garrafas plásticas.

Por mais de um ano, cientistas pesquisaram 11 parques nacionais e áreas selvagens do país e encontraram pequenos fragmentos de plástico em 98% das 339 amostras recolhidas. O plástico representava 4% de todas as partículas de poeira testadas na pesquisa.

A pesquisa sugere que o fenômeno vem da fabricação e despejo de plástico no ambiente no mundo todo. Os EUA são o país que emite mais detritos no mundo (2,1 bilhões de toneladas por ano) e recicla só 35% disso, segundo relatório da consultoria britânica Verisk Maplecroft.

O maior problema está quando o plástico se deteriora e se torna microplástico —uma partícula tão leve e pequena que é levada pelo tempo e aparece em toda parte, em um nível que vem assustando a comunidade científica.

"Prevê-se que 11 bilhões de toneladas de plástico se acumulem no ambiente até 2025. Como os plásticos são persistentes, eles se fragmentam em pedaços suscetíveis à entrada de vento", diz o resumo do artigo.

A ideia inicial da pesquisa era investigar como a poeira carrega nutrientes, e não plástico. Mas, depois de olhar no microscópio e ver fibras coloridas entre os pedaços de poeira, a equipe mudou o foco.

Os pesquisadores coletaram as amostras tanto em condições de pouca umidade quanto em períodos de chuva e neve. As partículas maiores foram recolhidas nas épocas mais úmidas, enquanto as menores foram coletadas sob clima seco.

Segundo o estudo, as partículas depositadas no tempo de chuva ou neve provavelmente vieram de algum lugar relativamente perto. Já as partículas menores e mais leves, que constituíram 75% do plástico testado, foram transportadas por distâncias extremamente longas em correntes altas na atmosfera.

Além disso, a pesquisa averiguou as taxas e fontes de deposição de plástico em áreas remotas de conservação dos EUA. "Mostramos que os centros urbanos e a ressuspensão de solos ou água são as principais fontes de plásticos depositados em áreas úmidas", diz o texto.

Apesar de a descoberta ter sido nos EUA, o perigo pode ser global. Em entrevista ao jornal The New York Times, a cientista que liderou a pesquisa, Janice Brahney, da Universidade Utah State, afirmou que não há um lugar no planeta Terra sem a presença de microplásticos.

Segundo Brahney, o fenômeno dos microplásticos pode contribuir para a interferência ambiental das comunidades microbianas e causar danos ecológicos. Já é sabido que o material demora a se degradar, o que o torna um grande poluidor. No ano passado, cientistas descobriram plásticos que estão no oceano desde os anos 60.

Descobertos nos anos 1970, os microplásticos foram encontrados em muitos lugares do globo, desde as grandes cidades até regiões quase sem humanos, como montanhas —uma evidência grande de que são carregados pelos ventos. Mas até agora, o estudo de Brahney é um dos poucos que começaram a analisar essa hipótese.

Além disso, animais e nós, humanos, já podemos estar respirando ou inalando essas partículas. Há alguns anos, uma outra pesquisa achou microplásticos em minhocas e em fezes de galinhas em uma região do México. Embora, de acordo com a cientista Janice Brahney, "os efeitos na saúde de absorver partículas de plástico não sejam bem conhecidos".