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Afinal, que papo é esse de universo paralelo e tempo ao contrário?

Spoiler: não, não acharam o Mundo Invertido de "Stranger Things" - Divulgação/Netflix
Spoiler: não, não acharam o Mundo Invertido de "Stranger Things" Imagem: Divulgação/Netflix

Gabriel Joppert

Colaboração para Tilt

23/05/2020 04h00Atualizada em 23/05/2020 10h02

Sem tempo, irmão

  • Matéria científica de abril viralizou nos últimos dias com manchetes absurdas
  • Mas não, a humanidade não penetrou em universo paralelo onde tempo corre ao contrário
  • Descobertas recentes reforçam fato de que paradigma atual da física está ultrapassado

Você deve ter visto recentemente manchetes envolvendo a Nasa e a descoberta de "evidências" que "comprovariam" ou "confirmariam" a detecção de um universo paralelo. Não só isso: no universo novo encontrado pela Nasa, o tempo fluiria ao contrário.

Mas, as manchetes estão longe de serem precisas, e a Nasa não tem praticamente nada a ver com a história. A notícia original foi publicada na revista New Scientist em abril deste ano, sobre partículas estranhas observadas por um experimento na Antártica.

A explicação longa sobre o tema da reportagem é bem mais complexa, abordando alguns experimentos e especulações da física. Gravidade quântica, teoria das cordas e supersimetria são algumas das pistas dessa nova etapa da busca por uma "teoria de tudo" (alô, Stephen Hawking).

"Anita" na Antártica?

Calma, não vai ter show em plena pandemia (aliás, fiquem em casa). Esta Anita —sigla para Antena Impulsiva Transiente da Antártica— é um conjunto de antenas que opera como um rádio-telescópio.

Montada em um balão na estratosfera da Terra, a Anita tem o objetivo de encontrar neutrinos de alta energia —partículas subatômicas elementares emitidas por explosões estelares.

Como funciona Anita?

  • Alguns tipos de partículas subatômicas vindas do espaço podem atravessar qualquer matéria -- incluindo a crosta terrestre e os nossos corpos
  • Ao colidirem com o núcleo da Terra, elas geram outras partículas que, ao viajarem pelo gelo, criam um rastro na forma de luz Cherenkov (um tipo de radiação eletromagnética) ou ondas de rádio
  • Em locais livres de interferências de outras ondas, estes rastros podem ser captados pelas antenas do Anita em seus voos, ou por detectores parecidos

O experimento Anita-IV na Antártica, antes de ser lançado em um balão - Divulgação/Creative Commons - Divulgação/Creative Commons
O experimento Anita-IV na Antártica, antes de ser lançado em um balão
Imagem: Divulgação/Creative Commons

A Anita é um detector de raios cósmicos. Os dados gerados por ela e por outras iniciativas do tipo como o Cherenkov Telescope Array (CTA) e o observatório IceCube, também sediado na Antártica, permitem aos cientistas estudar partículas de alta energia que caem do espaço sobre a Terra.

Um artigo de 2018 descreve um neutrino tau de alta energia encontrado pela Anita na Antártica. Ele era aparentemente incalculável de acordo com a física que conhecemos. Em geral, estes neutrinos que atravessam a Terra têm baixa energia.

As incongruências poderiam indicar que a misteriosa partícula não tinha origem cósmica e inexplicavelmente estaria saindo da neve em direção "para cima" — expressão usada no estudo.

Por isso o tema caiu no campo das especulações —desde as mais mundanas (um erro instrumental) até as mais imaginativas— como o de que esse neutrino seria uma evidência da antimatéria ou matéria escura, levantada já no mesmo ano de 2018.

Como "a notícia" se espalhou?

Na época, ninguém deu muita bola para as teorias. Mas aí o professor da Universidade do Havaí Peter Gorham, que fez parte do estudo original, declarou no site da instituição, sem respaldo científico, que acreditava ter encontrado um novo tipo de partícula elementar.

As especulações de Gorham foram citadas também no artigo de abril da New Scientist. No texto, um aspecto do conceito de "supersimetria" é usado para relembrar a hipótese dos universos paralelos com simetria temporal em relação ao nosso — ideia sem evidências científicas por enquanto.

O título do texto "Podemos ter avistado um Universo que volta no tempo" e o fato de o artigo não estar disponível na íntegra contribuíram para a confusão. A reportagem chega a mencionar que as teorias de Gorham não eram endossadas pelo resto da equipe do estudo.

Desmentindo o estrago

Para o astrofísico argentino Gustavo Esteban Romero, que trabalha no CTA e que foi um dos primeiros a acusar o boato, também não há razão para se pensar que foram encontradas novas partículas.

"Os cientistas precisam ter cuidado ao falar à imprensa. As afirmações de Gorham ficaram 'adormecidas' quase dois anos antes de a New Scientist resgatá-las em outro contexto, tratando da especulação sobre multiversos".

De acordo com Romero, um site de Bangladesh, o Dhaka Tribune, foi o primeiro a repercutir a reportagem da New Scientist de um jeito "sem noção", com o título: "Nasa detecta universo paralelo próximo ao nosso". O tabloide inglês Daily Star também repercutiu o texto no início desta semana com pegada parecida.

Quando a notícia começou a circular, muitos contatos me escreveram perguntando a respeito. Eu não levei muito a sério a princípio, mas, quando olhei mais a fundo, vi que o processo associado a esta falsa notícia era quase um arquétipo de como se geram as 'fake news', do qual podíamos tirar lições valiosas sobre a sociologia da informação falsa e sua dinâmica de circulação
Gustavo Esteban Romero, astrofísico do CTA

Um post de Romero no Facebook refuta a notícia e implora a jornalistas e internautas a terem mais cuidado com o que publicam.

FAKE NEWS SOBRE "UNIVERSO PARALELO DESCUBIERTO POR LA NASA". En los últimos días ha estado circulando por medios...

Publicado por Gustavo Esteban Romero em Quarta-feira, 20 de maio de 2020

Além de Romero, Alex Pizzotto, pesquisador do IceCube, disse no Twitter duas explicações mais embasadas e simples para o acontecimento: tudo pode ser um outro fenômeno astrofísico ou uma distorção nos raios cósmicos causada pelo próprio gelo antártico.

"Em particular, o ângulo e outras propriedades da radiação [do neutrino tau encontrado pela Anita] não são aqueles previstos pelo Modelo Padrão", explicou a Tilt o professor Amâncio Friaça, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

O Modelo Padrão é uma teoria que serve como o atual paradigma da física de partículas e interações. Ele descreve as pequenas partes elementares que formam os átomos e as interações fortes, fracas e eletromagnéticas entre elas.

Criado na década de 1970, o modelo (veja abaixo) divide essas partículas elementares entre os bósons — que regem as interações — e os férmions (quarks e léptons) — que, sozinhos ou agrupados, geram toda a matéria em nosso Universo (como os elétrons, prótons e nêutrons).

"Já faz tempo que sabemos que o Modelo Padrão necessita de expansões. A supersimetria ou dimensões extras são alguns dos primeiros passos mais conservadores nesse sentido. Universos paralelos também seriam um passo além do 'modelo padrão', mas um passo mais ousado e bastante especulativo", explica Friaça.

A ideia de universos ou mundos paralelos existe há milênios: desde a teoria do "mundo das ideias" do filósofo Platão à ficção científica de autores como Philip K. Dick e a séries de TV como "Stranger Things" e "Twin Peaks".

Infelizmente, não temos ainda acesso a um universo paralelo onde o tempo está ao contrário — mas agora conhecemos a série de deslizes ou desinformações que gerou a mais recente viralização de uma informação científica falsa.

Modelo Padrão - Divulgação/Jornal da USP - Divulgação/Jornal da USP
Imagem: Divulgação/Jornal da USP