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Ônibus velho e contêiner: projetos criam soluções para UTIs fáceis de mover

"Contêiner" -- ou cubo móvel de pressão negativa -- desenvolvido pela startup The Cube vira unidade de terapia intensiva em epidemias como a do coronavírus - Divulgação/The Cube
"Contêiner" -- ou cubo móvel de pressão negativa -- desenvolvido pela startup The Cube vira unidade de terapia intensiva em epidemias como a do coronavírus Imagem: Divulgação/The Cube

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

21/05/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Ocupação dos leitos de UTI está chegando ao limite no Brasil
  • Especialistas têm corrido contra o tempo para achar soluções para isso
  • Startup brasileira criou "hospitais-contêineres" que podem virar até UTI
  • Na USP, estudante desenvolveu projeto para transformar ônibus fora de circulação em unidades de atendimento móvel

A ocupação dos leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) está chegando ao seu limite no Brasil por causa da crise sanitária do coronavírus. O país não está reagindo no nível da China —que em dez dias construiu um hospital inteiro com mil leitos— mas iniciativas têm corrido para desenvolver projetos que ampliem o atendimento médico. Duas dessas iniciativas envolvem contêineres e ônibus antigos.

Uma startup brasileira criada com profissionais de saúde e de engenharia inventou um modelo para transformar contêineres em unidades de atendimento de baixa e média complexidade e que podem ser usados até para instalação de leitos de UTI.

Em paralelo, um aluno da USP (Universidade de São Paulo) criou um projeto que reutiliza ônibus antigos, retirados recentemente de circulação na região metropolitana de São Paulo, transformando-os em unidades de atendimento móvel.

Em ao menos quatro estados brasileiros (Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará e Roraima), mais de 90% das vagas destinadas ao tratamento de pacientes da covid-19 já estão ocupadas.

Divulgação/The Cube
Imagem: Divulgação/The Cube

Contêiner de terapia intensiva

Quem olha de fora vê apenas um contêiner refrigerado. Por dentro, o compartimento vira UTI, centro cirúrgico, centro de infusão ou de hemodiálise, unidade para produção e transporte de fármacos ou estoque de medicamentos. O cubo móvel de pressão negativa desenvolvido pela startup The Cube permite diferentes níveis de esterilização dentro da estrutura.

Em outras palavras, se agora precisamos de leitos, os contêineres viram UTIs. Mas, no futuro, esse mesmo espaço pode ser transformado num laboratório para produção de possíveis medicamentos e vacinas contra o vírus.

Planta aérea do contêiner-UTI desenvolvido pela startup The Cube - Divulgação/The Cube
Planta aérea do contêiner-UTI desenvolvido pela startup The Cube
Imagem: Divulgação/The Cube

Para desenvolver a tecnologia, a The Cube investiu cerca de R$ 500 mil. O valor desse cubo único é de aproximadamente R$ 300 mil, cerca de 30% mais barato que um projeto convencional (custo médio de R$ 400 mil), e o tempo de entrega do projeto é 40% mais ágil, segundo a empresa.

Além disso, por serem contêineres, eles são de fácil locomoção. Então daria para tirar a unidade de uma área onde ela já cumpriu a sua missão e levar para outra onde a pandemia ainda não tenha sido controlada. Isso evitaria que o estado deslocasse pacientes para regiões onde ainda há vagas em leitos.

Segundo Elizabeth Maccariello, médica e executiva-chefe da The Cube, o sistema pode ainda complementar o atendimento nos hospitais de campanha, tornando-os mais seguros e evitando risco de contaminação das equipes assistenciais. "Nossa tecnologia promove acesso à saúde para populações de áreas distantes dos centros urbanos, que contam com baixa densidade demográfica, em situações de catástrofe ambiental ou ainda em zonas de conflito permanente", diz.

Protótipo do projeto O-SI - Ônibus de saúde imediata, que propõe atendimento de pessoas que deixaram de ir aos hospitais na quarentena do coronavírus - Pesquisa/FAU-USP
Protótipo do projeto O-SI - Ônibus de saúde imediata, que propõe atendimento de pessoas que deixaram de ir aos hospitais na quarentena do coronavírus
Imagem: Pesquisa/FAU-USP

"Ônibus-clínicas" para tratar pacientes

Uma pesquisa de amostragem feita pela Democratic Architects, escritório de pesquisa e desenvolvimento de projetos arquitetônicos coordenada pelo estudante André Andre Enrico Cassettari Zanolla, do quinto ano de Arquitetura da FAU-USP, identificou que 83% das pessoas deixaram de procurar assistência médica desde o início da quarentena em São Paulo.

O projeto intitulado O-SI irá oferecer uma opção de atendimento preliminar e tratamento de doenças comuns durante a pandemia. Os "ônibus-clínicas" poderão ser usados também após a pandemia. Pelo projeto, os atendimentos serão feitos por agendamento, via aplicativo.

Qualquer ônibus urbano poderia ser adaptado para se tornar um O-SI, mas o melhor modelo seria um Padron, que possui 13 metros de comprimento e tem quatro portas. As portas da frente poderiam permitir a entrada de pacientes e médicos; as traseiras, a circulação de insumos e parte técnica.

Dentro, o O-SI seria dividido em três partes: atrás ficaria a área técnica, com estoque de insumos, central de energia e gases e impressora 3D; no centro, funcionaria a parte clínica; e na frente, isolamento do motorista.

Os "ônibus-clínicas" ajudariam a abrir mais vagas nos hospitais, o que direcionaria ainda mais o atendimento dessas unidades de saúde para casos relacionados à covid-19, diminuindo o risco de contágio pelo coronavírus de pacientes com outras condições de saúde.

A proposta já foi encaminhada para a Prefeitura de São Paulo para análise. Segundo a USP, o projeto também está na Câmara Municipal para ter sua viabilidade discutida.

Zanolla afirma que seja preciso R$ 150 mil para adaptar o espaço interno de um único ônibus. Além do poder público, o empreendedor também submeteu o projeto ao Todos pela Saúde, grupo formado por bancos privados que criou um fundo de combate ao coronavírus.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado, a estrutura que usa ônibus fora de circulação não funcionará como um hospital de campanha. Na realidade, trata-se um local que poderia ser adaptado para funcionar como unidade básica de saúde e poderia continuar sendo usada após a pandemia. A informação foi corrigida.