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Se deram bem? Como ficam as "big tecs" durante a crise do coronavírus

Visão externa da sede do Twitter em San Francisco, na Califórnia (Estados Unidos) - Flickr/@twitter - Flickr/@twitter
Imagem: Flickr/@twitter

Felipe Germano

Colaboração para Tilt

20/05/2020 04h00Atualizada em 21/05/2020 20h31

Ok, Google, você venceu mais essa. Na verdade, vocês, gigantes da tecnologia, venceram no plural. Em meio à pandemia, essas empresas parece que conseguiram o impossível: não só se tornaram imunes ao vírus, como conseguiram lucrar com ele.

Apple, Facebook, Amazon e outros grandes marcas da tecnologia e inovação aproveitaram o isolamento para se tornarem plataformas de convívio, trabalho e diversão para os confinados.

O resultado? Bilhões de dólares e a promessa de que a crise só as deixou maiores —ainda que cada uma de sua forma.

Sede do Facebook em Menlo Park, California - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Facebook: tudo em alta

Ganhou mais gente... Seu número de usuários mensais nos apps do grupo (Facebook, Instagram e WhatsApp) atingiram 2,99 bilhões de pessoas - 100 milhões a mais do que no último trimestre de 2019.

... e mais interação Todos os dias, 800 milhões de usuários assistem ou promovem uma live no Facebook ou Instagram. Em países mais afetados pela pandemia, o número de trocas de mensagens aumentou 51% no WhatsApp, de acordo com levantamento da empresa de análise de dados Kantar.

Em meio a isso, dinheiro... A empresa anunciou que garantiu uma receita de US$ 17,7 bilhões (R$ 105 bi) no primeiro trimestre, valor quase que 20% maior do que os US$ 15 bi (R$ 89 bi) arrecadados no mesmo período do ano passado.

... e ações em alta. Depois que esses valores foram anunciados, os preços das ações na bolsa tiveram alta de 10%.

Arma secreta Parte desse sucesso veio de uma nova sensação publicitária, as chamadas propagandas de Resposta Direta. É o nome técnico para aqueles comerciais que te direcionam para ações específicas, como fazer o donwload de um app. Em entrevista à CNBC, membros da analista de mercado Morgan Stanley afirmaram que esse tipo de propaganda pode ter movimentado US$ 40 bilhões neste começo de ano.

Como é minha casa em 3D? O Facebook ainda conseguiu garantir um dinheirinho com produtos offline, mas que aperfeiçoam a experiência digital. A empresa arrecadou US$ 297 milhões (R$ 1,7 bi) na venda de Oculus, seu visor de realidade virtual.

Android na sede do Google - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Google: anúncios e nuvem à frente

Ficou mais rico, claro O Google arrecadou US$ 42,1 bilhões (R$ 249,9 bi) no primeiro trimestre, 13% a mais do que no ano passado. E a boa notícia trouxe ainda mais dinheiro: uma alta de 7% nas suas ações.

Anúncios, sempre eles O dinheiro reflete também um aumento na audiência. O YouTube, por exemplo, conseguiu sozinho um lucro de US$ 33,76 bi (R$ 200 bi) em publicidade. Um aumento de quase 10%, em comparação com o mesmo período de 2019.

Nuvem de grana O Google Cloud, sistema de armazenamento em nuvem, também cresceu durante a quarentena, provavelmente motivado por tarefas exigidas no home office. O serviço registrou um aumento de 52%, garantindo uma receita de $ 2,4 (R$ 14,2 bi) para a empresa.

Apple Park - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Apple: iPhone incerto arranhou

Prejuizinho A maçã perdeu um pouco de dinheiro. Em seu segundo trimestre fiscal fechado em abril, as vendas de iPhone caíram 7% comparando com o ano passado, deixando uma receita de US$ 28,9 bilhões (R$ 171, 5 bi). Neste período, seu lucro caiu 2,7%, ficando em US$ 11,2 bilhões —abaixo dos US$ 11,5 bilhões registrados no mesmo intervalo do ano anterior.

Mas passa bem Isso está longe de significar só más notícias. A Apple também registrou um aumento de 16% na receita de serviços como o Apple Music, Apple TV+ e o iCloud. Esse crescimento resultou em um montante de $ 13,3 bi (R$ 77,4).

Vai até gastar mais A Apple também já anunciou que comprará de volta parte de suas próprias ações. A atitude geralmente é vista com desconfiança, já que muitas das empresas que usam a manobra não conseguem lidar com o gasto extra. Ainda asim, a empresa de Tim Cook gastará US$ 75 bi (R$ 436 bi) na recompra. O Google também já afirmou que tomará medidas parecidas.

E os funcionários? Antes adepta do home office, agora querem o retorno de mais funcionários aos escritórios. A primeira fase desta operação inclui funcionários que não puderam trabalhar remotamente. A empresa ainda não fez demissões ou recorreu a apoios governamentais para manter seus funcionários.

Sede da Amazon em Seattle - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Amazon: rica e com plano anti-covid

Perdeu um tico de lucro... Antes da pandemia, imaginava-se que o lucro por ações da Amazon (cálculo que compara o ganho da empresa com o número de ações) seria de US$ 6,27 (R$ 36,50) por ação. Não chegou lá: ficou 20% abaixo, em US$ 5,01 (R$ 29,16). A conta é usada como um sinal da saúde financeira da empresa.

...mas está de boa A empresa fechou o período com uma receita de US$ 75,5 bi (R$ 439,5 bi), superior aos US$ 73,7 bi esperados (R$ 429 bi). O lucro acabou sendo de US$ 4 bi (R$ 23,1 bi).

Operações mais caras Com o corona, a Amazon gastou mais do que esperava, justamente por conta da demanda por entregas causada pelo isolamento. Desde o começo do ano, a empresa abriu 175 mil vagas, a maioria delas para entregadores. O processo de entrega teve um custo 49% mais alto do que no "antigo normal", chegando aos US$ 10,9 bi (R$ 63,4 bi).

Mais gastos, riscos calculados A companhia planeja usar todo o lucro que virá no segundo trimestre, e parte dos US$ 4 bi arrecadados no começo do ano, em ações de combate ao coronavírus: equipamentos de proteção mais eficientes, testes em funcionários, pesquisadores e engenheiros para estudar mais e melhores testes. O comunicado derrubou as ações da empresa: caíram 7% em cinco horas. Ainda assim, em abril o valor dessas ações estava 30% acima do que haviam registrado no mesmo mês em 2019.

Fábrica da Tesla em  Fremont, California - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Tesla: fábricas paradas, moral duvidosa

Empresa tecnológica... A Tesla, a marca de carros high tech de Elon Musk, é prova de que estar cercado de chips não te salva. A pandemia acertou em cheio a companhia. No dia 19 de fevereiro, com a empresa vendendo como nunca, a empresa valorizou de maneira inédita: cada ação passou a valer US$ 917 (R$ 5.240) na NASDAQ, um recorde. Com a paralisação das fábricas, as ações caíram vertiginosamente até US$ 361 (R$ 2.060). De lá pra cá, vem se recuperando rapidamente. Vai ser mais fácil recuperar o dinheiro do que a moral.

... não acredita em ciência Musk chamou de "estúpido" o pânico causado pelo coronavírus, chegando a dizer que abril terminaria com zero casos de corona (foram 32 mil novos infectados no último mês). Se arrependeu.

Doação fail Semanas depois, em tom de pedido de desculpas prometeu "milhares" de respiradores para hospitais públicos americanos. Entregou 400 ao governo novaiorquino —só que do modelo errado: os aparelhos de Musk serviam para tratamentos de sono, não graves problemas respiratórios, como o covid.

Causou Musk comprou briga, porque não queria respeitar a quarentena. Ameaçou tirar suas fábricas da Califórnia e abriu mesmo sem autorização. O estado, então, topou afrouxar um pouco as coisas, mas ele precisava esperar alguns dias. Não esperou. Retomou os trabalhos imediatamente e ameaçou demitir os funcionários que não comparecessem. Voltou atrás com as penalizações no dia seguinte, pediu para todo mundo trabalhar —mas só ia quem quisesse.

Outros gigantes

Uber: Bem, essa se deu mal. Afinal, o isolamento social prejudicou as corridas. A Uber já cortou mais de 6.000 empregos; a empresa disse que as corridas despencaram 80% em todo o mundo em abril, mas se recuperavam lentamente. Também vai fechar 45 escritórios.

Snap (Snapchat): Desenvolveu um bom sistema para as tais propagandas de Resposta Direta. Resultados: cresceu 20% em número de usuários (229 milhões, no primeiro trimestre de 2019 eram 190 milhões) e um crescimento de receita de 44%, gerando US$ 462 milhões (R$ 2,6 bi).

Microsoft: Com a pandemia, vendeu 15% a mais do que no último trimestre. Em comunicado, disse que o coronavírus teve um "impacto mínimo na receita" de US$ 35 bi (R$ 203 bi). A expectativa é que nos próximos trimestres o crescimento se mantenha e, em alguns produtos como o Azure (serviço de nuvem da empresa) os valores até aumentem.

Twitter: Não soube lucrar tão bem quando tentou aproveitar o novo modelo de propagandas. O resultado foi uma desvalorização de 7,8% nas ações. Ainda assim, a marca teve uma receita de US$ 808 milhões (R$ 4,7 bi). Também ganhou usuários na pandemia: 23% a mais em relação ao ano passado. Ah, Jack Dorsey, fundador da rede social, doou US$ 1 bi de sua participação na empresa de pagamentos Square para combater a covid e deixou funcionários trabalhando de casa por período indefinido.

O que isso significa?

Atravessando a crise como marolinha As maiores empresas de tecnologia não só estão conseguindo lucrar em um período em que a economia do mundo inteiro luta para atravessar, como está ganhando um caráter simpático de companheirismo com a população.

Rolando lero "O benefício que essas empresas - que amamos demonizar - em termos de nos trazer habilidade de nos comunicarmos, de conseguirmos informações, é profundo - e eu espero que as pessoas lembrem disso quando tudo finalmente acabar", diz Eric Schmidt, ex-executivo do Google, em uma live da ONG americana Economic Club of New York

Nova York facinha Os magnatas do mundo tec tem conseguido um espaço maior até entre governantes. Em meio à pandemia, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, anunciou uma parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates, ainda sem muitos detalhes revelados. O intuito é modernizar o sistema de educação do estado. "Estamos em um momento da história onde podemos incorporar e melhorar as ideias [do casal Gates]. Todos esses prédios, essas salas de aula físicas - para que, com toda a tecnologia que temos hoje?", afirmou Cuomo.

Nunca foi tão bom ser dono de uma empresa de tecnologia.

O lucro por ações da Amazon ficou em US$ 5,01. Antes, o texto dizia que as ações da Amazon terminaram o primeiro trimestre valendo US$ 5,01. O texto foi corrigido.
Errata: o texto foi atualizado
A conta é usada para que investidores tenham uma visão sobre seus ganhos ao manter suas ações, e dão um sinal à respeito da saúde financeira da empresa.