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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cães contraem coronavírus dos donos, mas não sabemos se ocorre o inverso

Lulu da pomerânia que pegou coronvírus faleceu após o início da pesquisa - Oli Scarff/AFP
Lulu da pomerânia que pegou coronvírus faleceu após o início da pesquisa Imagem: Oli Scarff/AFP

Gabriel Joppert

Colaboração para Tilt

15/05/2020 11h35

Sem tempo, irmão

  • Estudo em Hong Kong confirma que dois cães com coronavírus foram infectados pelos donos
  • Entre 15 cachorros e sete gatos acompanhados, quase todos estão saudáveis
  • Dois cachorros doentes apresentaram RNA viral e anticorpos
  • Cães e gatos contraem doença, mas sintomas são raros e não há indício de transmissão para humanos

Virologistas na Universidade de Hong Kong concluíram em um estudo publicado na quinta (14) na revista Nature que dois cachorros com coronavírus no país contraíram a doença de seus donos.

Os cientistas conseguiram extrair uma amostra "viva" do vírus em um cachorro da raça lulu da pomerânia —que faleceu após o início da pesquisa. Por isso, o estudo é considerado a primeira comprovação inequívoca da infecção pelo SARS-CoV-2 em cães.

Não fique triste e não se aflija: os cachorros não apresentaram sintomas visíveis da doença e por enquanto, nada indica que cães podem passar a doença para outros animais —incluindo nós, humanos.

Os animais acompanhados pelo estudo eram de famílias que contraíram o vírus em fevereiro ou março. Nenhum dos sete gatos acompanhados pegou a doença. Dos 15 cachorros, apenas um lulu da pomerânia macho de 17 anos e um pastor alemão macho de dois anos e meio apresentaram sinais de RNA e anticorpos do novo coronavírus.

Liderado por Malik Peiris, virologista da universidade de Hong Kong, o estudo analisou amostras de sangue, saliva, secreções nasais e matéria fecal dos dois cães infectados.

A equipe de pesquisa concluiu que as sequências genéticas virais extraídas dos dois cachorros são idênticas aos vírus detectados nos respectivos donos. Isso é indicativo de que se trata de transmissões vindas dos humanos para os caninos.

Ainda é incerto se os cachorros podem transmitir para outros animais ou para humanos. Peiris defende que a possibilidade precisa ser mais observada antes de ser descartada totalmente.

Devo me preocupar em pegar coronavírus do meu cão ou gato?

A resposta curta é: não. Caso todos em sua família estejam saudáveis e praticando as medidas recomendadas para a quarentena, como o isolamento social e o uso de máscaras, não há motivo para preocupação.

De qualquer maneira, é recomendável sempre lavar as mãos antes e depois de brincar ou cuidar dos animais. No caso do cão ou gato sair da casa, higienizar as patas deles também é uma medida de prevenção.

No caso de alguém na família apresentar sintomas da doença ou efetivamente ter contraído o coronavírus, aí sim é necessário evitar contato dessa pessoa com os animais: não fazer carinho e nem abraçar, beijar ou compartilhar comida. Caso você esteja doente e tenha que cuidar do seu animal, faça-o de máscara e higienize-se antes e depois.

O número detectado de casos de animais domésticos com covid-19 desde o início do ano é muito pequeno. Mesmo se o seu pet tiver contato direto com o vírus ou com uma pessoa infectada, as chances de ele desenvolver a doença são mínimas, assim como as de infectar alguma pessoa ou outro animal.

Sintomas como a tosse são também muito raros, mais comuns até agora nos gatos do que nos cães. Estudos recentes também sugerem transmissão assintomática entre as mesmas espécies de felinos.

Se seu bicho apresentar sintomas ou tiver tido contato próximo com pessoas infectadas, procure atendimento remoto de um veterinário ou de um funcionário da saúde pública para saber o que fazer.

Histórico do coronavírus em animais

Desde março vêm pipocando relatos sobre a detecção de traços do SARS-CoV-2 em animais não-humanos.

O rastreamento desses casos e dos padrões de transmissão do vírus ajudam a trazer pistas pela origem definitiva do novo coronavírus, que teria surgido em morcegos e foi passado para os humanos por algum mamífero intermediário ainda não identificado.

Os dois cãezinhos de Hong Kong são bem conhecidos dos cientistas pelo mundo: eles foram os primeiros casos detectados do novo coronavírus em animais domésticos. O lulu da pomerânia, "canino 1" do estudo, estava em isolamento desde 26 de fevereiro.

Poucos dias depois, ele estava confirmado como o primeiro caso e até o meio de março, ele e o pastor alemão do estudo se tratavam dos dois primeiros casos de testes positivos para a covid-19 em cachorros.

Além deles, houve detecção do coronavírus em outros pouquíssimos animais domesticados pelo mundo, incluindo um gato em Hong Kong, outro na Bélgica e dois em Nova York.

Outro caso famoso foram quatro tigres e três leões do zoológico do Bronx, em Nova York, que testaram positivo para a doença, sendo que alguns haviam apresentado tosse. Pela baixa ocorrência desses casos, os animais domésticos não são considerados vetor da covid-19.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL