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Ouvido amigo: app reúne voluntários que ouvem pessoas ansiosas sem julgar

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Fernanda Ezabella

Colaboração para Tilt, de Los Angeles

19/04/2020 04h00

Quem mora sozinho tende a passar por mais necessidades de comunicação com amigos e famílias desde que começou o isolamento social após a epidemia de coronavírus. Nos EUA, um app despontou como uma via para espantar a solidão e a ansiedade alheia: o HearMe (me escuta), disponível para iOS e Android.

Ele funciona com ajuda de voluntários com o simples objetivo de ouvir o próximo. Foi criado por Adam Lippin, também inventor da Cuddlist, uma rede de terapeutas especialistas em carinhos e cafunés. Seu nome brinca com a ideia de abraçar (cuddle) em inglês. Mas, em tempos de distanciamento social, as sessões de chamego foram canceladas.

O HearMe tem mais de 2 mil ouvintes cadastrados, sendo que 20% vem da comunidade do Cuddlist. Dos 15 mil usuários atuais, quase metade chegou em março.

"A necessidade das pessoas de compartilhar o que elas estão passando agora é gigante", disse Lippin por telefone ao Tilt. "Vivemos uma crise da solidão. Muita gente não tem com quem falar. Há uma fome no mundo para se conectar e também para se fazer o bem".

O serviço é apenas em inglês por enquanto. Lippin avisa que está aberto a parcerias e negocia lançar a plataforma em hindi com um parceiro indiano.

A ideia do HearMe veio de uma pesquisa em 2018 sobre a satisfação dos clientes que participavam das sessões de "cuddle", onde o terapeuta oferece um ouvido amigo e também contato físico, embora sem conotação sexual e com regras rígidas de consentimento. As sessões chegam a custar US$ 80 [cerca de R$ 400].

"Todos gostavam do carinho, claro, mas a habilidade de ser visto e ser ouvido tinha um grande valor e um valor a longo prazo. Fazia o cliente se sentir mais humano", afirmou Lippin. "Pensei em como tornar isso mais acessível, já que nem todo mundo tem dinheiro para as sessões".

As conversas no aplicativo duram em média 28 minutos e acontecem via texto. O usuário pode selecionar um tópico, como "trabalho", "relacionamento" ou "LGBTQ+". A ideia não é ser uma terapia, e sim um espaço seguro para desabafar sentimentos do dia a dia. Cerca de 60% dos usuários são mulheres entre 18 e 34 anos.

A estudante canadense Maddy, que pediu para não divulgar seu sobrenome, encontrou o aplicativo após ler um artigo online. No final de março, tarde da noite em seu quarto, ela resolveu se conectar pela primeira vez para tentar aplacar as ansiedades da vida pessoal, agravadas pela pandemia de coronavírus.

"Estou preocupada em ficar doente, de não terminar a faculdade porque esse ano parece perdido. Eu me sentia sozinha e com medo", disse Maddy, 18 anos, por email. "Dá uma segurança maior falar certas coisas com um ouvinte, sem o estigma das redes sociais. Amigos e familiares não sabem dos detalhes que poderiam ser contados para outras pessoas".

Um dos ouvintes do HearMe é Peter, que começou 16 dias atrás e já realizou mais de 40 conversas. Ele mora na Pensilvânia e trabalha num grupo de ajuda à população em situação de rua. Prefere não dizer o sobrenome, mas divulga sua foto no aplicativo: é careca, tem cavanhaque e bigode e usa óculos de aro fino.

"Acho que o trabalho voluntário no aplicativo também me beneficia. Além de ouvir o público em geral, entrei para uma comunidade interna de ouvintes composta por pessoas muito diversas e que compartilham a vontade de querer ajudar os outros", disse Peter, 57 anos.

Para ser um ouvinte cadastrado no HearMe, é preciso passar por um treinamento online de uma hora. O aplicativo dá apoio aos voluntários e organiza conversas virtuais semanais, como um papo com um psicólogo sobre identidade ou com um médico sobre a atual crise de coronavírus.

Agora trabalhando de casa, Peter disse que entra no aplicativo em momentos do dia que, no passado, seriam improdutivos. "Agora são momentos significativos. Não dou conselhos, mas tenho dois ouvidos e um coração que realmente se importa com as pessoas", disse.

"Você não está sozinho"

HearMe faz parte de uma leva de aplicativos lançados nos últimos anos que lidam com saúde mental. Alguns são pagos e com terapeutas profissionais, enquanto outros usam inteligência artificial e assistentes virtuais. Há ainda apps que usam informações do usuário para sinalizar sintomas de ansiedade e oferecer exercícios de relaxamento.

Para o diretor do Instituto de Saúde Pública e Medicina da Northwestern University Bruce Lambert, existe uma quantidade razoável de pesquisas sobre aplicativos do gênero, e os resultados são variados. No geral, sempre que há outro ser humano do outro lado, a tendência é redução nos sentimentos de depressão e ansiedade.

"Mas alguns seres humanos são terríveis com empatia e, a menos que as pessoas [ouvintes] sejam examinadas antes de entrar nesses aplicativos, existe um potencial de causar danos", disse Lambert.

Outro serviço similar ao HearMe, também gratuito e feito por voluntários, é o Crisis Text Line, criado em 2013. A procura pelo serviço cresceu entre 47% e 116% com a pandemia, dependendo do dia.

A interação com usuários acontece por troca de mensagens SMS. Das 6.500 conversas diárias, 77% falam sobre estresse e ansiedade relacionados à nova doença.

O serviço, que quer expandir para a América do Sul, conta com 1.700 voluntários por dia e funciona nos EUA, Reino Unido, Irlanda e Canadá. A empresa tem recebido mais de mil inscrições diárias de novos ouvintes, que precisam passar por um treinamento online que dura entre 20 e 30 horas.

"O covid-19 está na mente do mundo, e de nossos usuários também", escreveu Bob Filbin, cofundador e cientista de dados do Crisis Text Line, organização financiada por bilionários do Vale do Silício, como o cofundador do LinkedIn Reid Hoffman e a filantropa Melinda Gates.

Filbin explica alguns métodos atuais para acalmar quem procura a equipe. "Refletir sobre a duração do problema mostra empatia e compreensão sobre o tempo que a pessoa vem sendo impactada. Isso ajuda a fundamentar a conversa", disse.

"Normalizar a ansiedade também. Deixe claro que ele não está sozinho. Muitas pessoas estão se sentindo ansiosas ou com medo. E é muito importante procurar ajuda."