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Como foi meu primeiro aniversário online em meio a uma quarentena

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Márcio Padrão

De Tilt, em São Paulo

13/04/2020 04h00

Tenho uma quantidade razoável e satisfatória de amigos, mas nunca me considerei popular a ponto de mobilizar multidões no meu aniversário. Quando vi que não haveria chance de uma festa no "mundo físico" porque todo mundo entrou em isolamento em março por causa do novo coronavírus —inclusive eu— achei que seria uma boa oportunidade para experimentar encontros virtuais em vídeo ao vivo. Aliás, precisamos achar um nome melhor do que vídeochat ou vídeoconferência, não acham?

A primeira coisa interessante que notei é que certas tradições da produção de uma festa de aniversário física ainda se mantiveram na virtual. Qual o melhor dia e hora para marcar? Quantas pessoas devo chamar? As pessoas vão realmente se importar?

Esta última questão neste ano não era só o mero drama anual do aniversariante: afinal a quarentena havia começado para muitos de nós há pouquíssimos dias, e talvez ninguém estivesse com muita cabeça para me desejar parabéns.

Mas ficou claro também que algumas coisas seriam ligeiramente diferentes. Primeiro: se você é daqueles que fazem a festa na sua casa, não iria gastar um centavo com comidas e bebidas. Segundo: o local seria algo fundamental. Não o local físico, que seria minha casa mesmo mais a casa de todos os participantes. Mas a plataforma que eu deveria escolher para abrigar todo mundo.

WhatsApp, que é uma unanimidade no Brasil mas que só aceita em vídeo quatro pessoas ao mesmo tempo? O Google Hangouts, que há alguns anos era onde quase todos nós falávamos em texto mas que pouca gente ligou para seus recursos em vídeo? O Skype, sucessor do também muito popular MSN, e para muitos um dos melhores para videochat? O Instagram, que quase ninguém sabe que permite isso? Ou apelar para os emergentes Microsoft Teams, Zoom, Houseparty e afins?

Resolvi esse dilema matando dois coelhos com uma cajadada: deixei o horário livre para a escolha dos participantes, e a plataforma também. Foi em um domingo, onde em tese muitos já estavam com agendas mais livres. Na prática, isso queria dizer que meus amigos poderiam me ligar a qualquer hora do dia, e com qualquer programa ou app proposto por eles. Afinal, eu tinha quase todos instalados mesmo. Em resumo, seria uma festa de aniversário não só virtual, mas também on demand.

Quando avisei por WhatsApp da ideia com alguns dias de antecedência, recebi elogios. Para minha surpresa, o maior imprevisto foi que alguns grupos de amigos quiseram fazer a ligação no mesmo momento. Por mim tudo bem: era só avisar antes e "reservar o horário". Poderia rolar desencontros com as outras pessoas que iriam ligar na mesma hora? Sim, mas nada que não desse para resolver. Mais uma tradição pintou aqui: produzir aniversários virtuais também requer improvisos.

Chegou o domingo, e quase ninguém falou comigo pela manhã. Novamente o drama de aniversariante bateu e já comecei a achar que ninguém mesmo se importaria. Mas passou rápido e tive um choque de realidade: quase ninguém acorda cedo no domingo com ou sem quarentena. Eu precisava ser paciente.

À tarde, as coisas evidentemente melhoraram. Como eu previa, o WhatsApp acabou sendo mesmo o mais usado. Ele seria a pior escolha de plataforma se a ideia fosse juntar todo mundo ao mesmo tempo. Mas foi a melhor no esquema "um por vez".

Como quase todo país latino, o Brasil tem um povo efusivo, de encontros olho no olho, beijos e abraços. O isolamento por epidemias é algo inédito para quase todos nós, e talvez por isso, os usuários brasileiros tampouco até então não eram muito interessados no modelo "frio" do videochat. Mas foi óbvio: se todo mundo usava bem mais o WhatsApp para conversar em texto antes disso tudo acontecer, seria mais fácil também usá-lo para vídeos ao vivo: era só clicar no ícone de câmera da conversa e deixar rolar.

Precisei usar programas diferentes em apenas duas ocasiões, e justamente nas conversas em grupos: ambas foram no novo querido de todos, o Zoom. A empresa diz que o programa aceita até 1.000 participantes, algo que definitivamente era bem além do que eu precisava. Claro que foi antes das polêmicas envolvendo a privacidade do programa.

Tudo rolou muito bem, tecnicamente falando. No WhatsApp, todo mundo sabia o caminho das pedras. No Zoom, no primeiro grupo nos enrolamos rapidamente no começo com a coisa de instalar um programa novo e criar um link para a sala de vídeo, mas em menos de cinco minutos foi resolvido. Já quanto a fluidez da conversa, o atraso era mínimo - coisa de um ou dois segundos nos piores momentos. Muito bem, operadoras de banda larga.

E no final do dia, senti a missão cumprida. Recebi uma quantidade de pessoas me dando parabéns não muito diferente do que rolou em outros anos com festas físicas. As conversas foram boas, embora infelizmente —como previsto— o coronavírus e as nossas experiências de isolamento tenham sido o principal tópico. O que tudo bem. Desde o convite, eu havia sido claro que meu aniversário também era só mais um pretexto para amigos se reverem e trocarem experiências sobre esse novo trauma da civilização mundial.

Faria assim mais vezes, quando/se o isolamento acabar? Sim, até porque moro em São Paulo mas muitos de meus amigos e familiares estão no Recife, minha cidade natal. A situação forçada acabou sendo o melhor pretexto para tê-los comigo no aniversário, de longe. Isso foi positivo.

É claro que encontros físicos são melhores em quase tudo. Beber, comer e rir junto, abraçar, apertar mãos. Ainda não fizeram tecnologias que substituam 100% tudo isso —talvez só o teletransporte, que se vir, será mais para facilitar do que substituir essas coisas. Mas não vou negar que o aniversário-videochat teve lá sua poesia, comodidade e desconstrução de modelos. Mesmo diante do maior desafio deste século até agora, com quase todo mundo enclausurado —pelo menos na bolha classe média que me encontro— ainda somos pessoas com empatia e grande necessidade de comunicação.

Até o ano que vem?

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