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Last of Us: zumbis são inspirados em fungo real que existe no Brasil

Cena do jogo The Last of Us - Divulgação
Cena do jogo The Last of Us Imagem: Divulgação

Felipe Germano

Colaboração para Tilt

12/04/2020 00h00Atualizada em 13/04/2020 15h39

Sem tempo, irmão

  • Gênero de fungo é capaz de controlar as atitudes de suas vítimas
  • A maioria dos fungos-zumbi descobertos estão aqui no Brasil
  • As vítimas são pequenos animais como formigas, besouros e vespas
  • O fungo usa propriedades químicas para controlar os bichinhos
  • Ele não ataca humanos, mas não estamos imunes a parasitas capazes de "controlar mentes"

Assim como no coronavírus, tudo começa com o simples ato de encostar em algo. A vítima começa a agir estranha, e pouco a pouco começa a estourar, de fora para dentro. Pode parecer uma cena do popular game "Last of Us", que está perto de virar série, mas tem um pouco a ver com um fungo da vida real.

O Ophiocordyceps é uma ameaça desconfortável para animais como formigas, besouros e vespas. Trata-se de um gênero (grupo de espécies) de fungo capaz de controlar as atitudes de suas pequenas vítimas, deformando-as no processo. Exatamente como os zumbis fazem na ficção do game.

O game "Last of Us" mostra a humanidade atacada por um fungo que zumbifica pessoas. Na vida real, no entanto, zumbis estão longe de Hollywood. Na verdade, a maioria dos fungos-zumbi estão aqui mesmo, no Brasil.

A concentração deles por aqui se deve em parte à diversidade dos nossos biomas, mas o principal talvez seja simplesmente mérito de um mineiro de Juiz de Fora.

Parasita se desenvolve em insetos - Arquivo pessoal/ João Araújo - Arquivo pessoal/ João Araújo
Parasita se desenvolve em insetos
Imagem: Arquivo pessoal/ João Araújo

"Existem cerca de 27 'fungos-zumbis' catalogados. E eu descobri 18 deles. Meu trabalho focou mais na Amazônia brasileira, por isso os registros no país são maiores", conta ao Tilt João Araújo. Pesquisador, Araújo estuda fungos desde 2006, fez mestrado sobre os Ophiocordyceps na Universidade Federal do Amazonas e se tornou doutor na Universidade da Pensilvânia (EUA) ao detalhar a diversidade da espécie.

A maioria deles está na Amazônia, mas mesmo quem vive longe da nossa principal floresta, pode encontrar alguns desses seres. "Eu e colegas já os coletamos em RS, SC, MG, RJ, CE, AM, AC, RR, RO... mas eles devem estar nos outros estados também", diz João. "As estimativas apontam que existem cerca de 600 espécies ainda não descobertas. Isso no mundo todo, mas principalmente em regiões tropicais", completa.

Walking Dead + National Geographic

Apesar de serem banhados nessa aura Zé do Caixão, os Ophiocordyceps não são diabólicos. Eles querem simplesmente sobreviver. Seu ciclo da vida é extremamente inteligente, e zumbificar formigas é a maneira que ele encontrou para continuar existindo.

Um belo exemplo é o Ophiocordyceps unilateralis, espécie que afeta diretamente as formigas. Seu trabalho começa com um fungo maduro espalhando esporos pelo chão da floresta. Essa partícula germina, e ai de quem encostar nela. "Funcionam como armadilhas e as formigas são obrigadas a circular por este campo minado", afirma João.

Os esporos penetram o exoesqueleto dos animais, e passam a crescer dentro delas. "Duas semanas depois o inseto já está totalmente infectado, e passa a ser controlado pelo fungo", completa.

A partir daí as coisas ganham um tom mórbido para a formiga. O parasita faz com que ela abandone sua colônia, suba no alto de uma planta e encontre os locais ideais para que o fungo cresça. É a última coisa que o inseto fará. O fungo a faz tirar sua própria vida ao fincar suas presas na planta que escalou.

A morte chega em poucas horas, para o inseto, claro —para o parasita, ela só começou. O fungo cresce dentro do corpo já sem vida, estoura ele de dentro para fora e cresce uma haste que lançará novos esporos - dessa vez, próximos à colônia de seu antigo hospedeiro, pronto para infectar ex-companheiras de sua vítima.

Formiga vítima do parasita Ophiocordyceps unilateralis - Arquivo pessoal/ João Araújo - Arquivo pessoal/ João Araújo
Formiga vítima do parasita
Imagem: Arquivo pessoal/ João Araújo

A engenhosidade do fungo se destaca entre outros parasitas. "As formigas tendem a morrer cerca de 25 cm acima do chão da floresta, no fundo das folhas e no lado norte das mudas", conta Kelly Weinersmith, pesquisadora da Universidade de Rice.

A precisão não é à toa. "Mais alto que isso, o fungo não cresceria bem, e no chão da floresta parece que a formiga e o fungo seriam comidos por pequenos predadores. É incrível que um fungo possa conduzir uma formiga para esse local por 'controle remoto'", afirma.

Diferentemente dos zumbis de filmes (e dos de The Last of Us), o Ophiocordyceps não atinge o cérebro. Pelo menos não diretamente. Um estudo feito em 2017 pela Universidade Washington mostrou como o parasita age: nos músculos de suas vítimas. O fungo usa propriedades químicas para controlar os bichinhos. O GIF abaixo mostra como o processo acontece.

Mas o fungo não é o único capaz de fazer esse tipo de lavagem cerebral. "A manipulação é algo que encontramos ocasionalmente, quando a morte de seu hospedeiro é benéfica para o ciclo de vida do parasita", afirma Kelly.

"Um exemplo é o Euhaplorchis californiensis, que faz seu peixe hospedeiro começar a nadar de maneira chamativa, atraindo a atenção de aves predadoras. O parasita se reproduz dentro dos pássaros, então faz com que o peixe seja comido, para completar seu ciclo", afirma.

Nem o Ophiocordyceps nem o Euhaplorchis podem atacar humanos. Isso não significa que estamos imunes a parasitas controladores.

"Eles podem definitivamente mudar nosso comportamento, mas nem sempre é manipulação. Por exemplo, passamos muito tempo na cama quando estamos gripados. Outro exemplo é o vírus da raiva: quem tem a infelicidade de ser infectado por ele geralmente começa a morrer de medo da água", conta Weinersmith —na verdade, o vírus causa dor e espasmos a quem tenta beber água, e seria pelo fato do sistema respiratório ficar protetivo, causando engasgos na ingestão de líquidos.

A manipulação humana mais estudada seria por meio do Toxoplasma gondii. "Esse parasita parece tornar os roedores menos medrosos e mais atraídos pelo cheiro da urina dos felinos. Já ele pode passar de ratos para gatos se o roedor for comido pelo predador. Os seres humanos também são infectados, mas somos becos sem saída, já que raramente somos comidos por gatos hoje em dia", brinca Kelly.

Alguns pesquisadores clamam que o gondii também nos muda. Pesquisas mostram que humanos infectados se envolvem mais em acidentes de carro —a tese é que perdemos a noção do medo, assim como os ratos.

Seja como for, ainda estamos longe de começarmos a atacar uns os outros, como os zumbis da série que vem por aí. Para as formigas, o nosso boa sorte. Mas elas que lutem.

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