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Dona do iFood adia sonho de ser grande e foca na saúde do mercado, diz CEO

Helton Simões Gomes

De Tilt, em São Paulo

08/04/2020 04h00Atualizada em 09/04/2020 15h59

Depois de passar por Google e Facebook, Patrick Hruby assumiu o cargo de executivo-chefe da Movile, dona de iFood, PlayKids e Sympla em uma situação complicada: o isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus. Isso esvaziou os eventos ao vivo, atingindo em cheio a plataforma de eventos Sympla, e comprometeu restaurantes e expôs entregadores do iFood.

Hruby diz ao Tilt que o plano de longo prazo "está na gaveta, guardado". Neste momento, as prioridades são a saúde de funcionários e colaboradores, manter a empresa de pé nesta crise e garantir a sobrevida financeira de parceiros dos apps da Movile, como artistas, entregadores e restaurantes.

Não estamos preocupados só com a nossa saúde e sustentabilidade. Queremos que a cadeia inteira sobreviva também
Patrick Hruby, CEO Movile

O executivo conversou com Tilt antes de uma decisão da Justiça do Trabalho de São Paulo decidir que os serviços de entrega online Rappi e iFood paguem assistência financeira de ao menos um salário mínimo (R$ 1.045) aos entregadores infectados, suspeitos ou em grupos de risco do covid-19.

Antes disso, o iFood havia criado dois fundos no valor de R$ 2 milhões para custear auxílios a esse grupo. Mas o valor pode ficar abaixo do mínimo, já que é uma média dos repasses feitos pela plataforma nos últimos 30 dias. Segundo Hruby, nenhum entregador foi contemplado ainda.

Na decisão liminar, a Justiça do Trabalho ainda determinou a entrega de álcool gel com concentração de 70%. O iFood começou a distribuição por São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Porto Alegre e Curitiba e chegou nesta semana a 18 cidades. Nesta terça-feira (7), a empresa conseguiu derrubar as decisões preliminares na Justiça.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Patrick Hruby:

Tilt - Você assume a Movile enquanto passamos por um momento sem precedentes na história do país. Como é assumir uma empresa de tecnologia numa situação tão delicada quanto essa?

Patrick Hruby - Eu me considero um otimista. Passamos por um momento difícil, mas tenho certeza que sairemos diferentes, mudados, como empresa e sociedade. As decisões que tomamos agora vão impactar o mundo novo que estamos criando.

As decisões são muito, muito críticas não só para a Movile, mas para o nosso ecossistema como um todo. Comuniquei aos funcionários as nossas prioridades agora. Primeiro, a saúde dos funcionários, de seus familiares e dos nossos parceiros, mas também a do entregador e do consumidor que recebe comida de restaurante. Segundo: garantir a sustentabilidade dos nossos negócios. Vamos atravessar essa crise, mas precisa sobreviver como empresa para criar esse novo mundo.

Não estamos preocupados só com a nossa saúde e sustentabilidade. Queremos que a cadeia inteira sobreviva também. Quando o iFood lança o fundo de R$ 50 milhões para os restaurantes, está garantindo que eles também sobrevivam. Quando pensa na saúde do entregador, está preocupado com uma parte importante da cadeia, normalmente negligenciada.

Patrick Hruby, CEO da Movile, dona do iFood, Playkids e Sympla - Divulgação/Movile
Patrick Hruby, CEO da Movile, dona do iFood, Playkids e Sympla
Imagem: Divulgação/Movile

Tilt - Dá para dizer quanto tempo vai durar o impacto da crise sobre a economia, a Movile e os negócios da empresa?

Patrick Hruby - Pelo tempo que a crise durar, vamos tomando ações e se adaptando. Honestamente, não sei quanto mais tempo isso vai levar. Vai depender da evolução da crise de saúde. Se essa curva vai achatar ou não, e qual vai ser o impacto das ações do governo, das empresas e da sociedade como um todo.

Hoje, não temos planos de longo prazo. Eu tenho um, mas ele está na gaveta, guardado. Hoje, nosso plano é de curto prazo. Estamos lidando com isso dia a dia, semana a semana.

Tilt - Muitos negócios analógicos estão sendo afetados. Vocês são uma empresa de tecnologia com muitos pés no ambiente digital. De que forma essa crise está afetando o negócio da Movile?

Patrick Hruby - Nosso ecossistema é formado por várias empresas. Elas operam de forma independente, mas temos esse guarda-chuva que as auxilia a atingir o seu potencial. Quando uma empresa está indo bem e outra com mais dificuldade, conseguimos ser um amortecedor para essas dificuldades.

O caso principal é a Sympla. Ela trabalha com apoio e ingresso para eventos que acontecem principalmente no mundo físico. É uma plataforma tecnológica, sim, mas quando os governos proíbem eventos, a fonte de receita é enxugada. Entretenimento e turismo foram os ramos mais impactados no início e provavelmente serão os ramos que mais demorarão para voltar.

Temos a Playkids, que é entretenimento infantil online e assinatura de livros. Se tem mais crianças por bastante tempo em casa e os pais preocupados com o tipo de conteúdo elas estão consumindo, Playkids é uma alternativa saudável e educativa. É o outro lado dessa moeda.

PlayKids - Reprodução
PlayKids
Imagem: Reprodução

Tilt- O principal negócios da Movile é o iFood. Com tanta gente em casa, é de se esperar que serviços de delivery cresçam. Mas os entregadores reclamam que o nível de trabalho tem caído. O que acontece na prática?

Patrick Hruby - É cedo para dizer. Temos o impacto de saúde e o econômico, e muitos fatores que vão se equilibrando. Por exemplo: o iFood tem um negócio de marmita, que é popular para as pessoas no trabalho. Como elas estão em casa, imagino que esteja saindo menos marmita e elas estejam pedindo mais comida à noite.

Para ser sincero, estamos mais preocupados em garantir a sustentabilidade do ecossistema. O nosso foco está em dar liquidez para o restaurante. Estamos antecipando todo o dinheiro que o restaurante recebe no cartão de crédito para ele ter fluxo de caixa. Geralmente teria um custo muito alto, mas a gente está fazendo isso sem custo.

Tem muito dinheiro que tiramos da nossa margem. Tem tanta coisa acontecendo que eu não quero dizer, 'nossa, está sendo bom ou ruim'. A gente está tentando fazer o nosso melhor, sentindo que o iFood tem um papel importante nesse ecossistema.

Tilt - O iFood criou um fundo de R$ 2 milhões para auxiliar entregadores que não puderem trabalhar por causa do coronavírus. Quanto desse dinheiro já foi gasto?

Patrick Hruby - Tem R$ 1 milhão para entregadores doentes e R$ 1 milhão para entregadores do grupo de risco evitarem que fiquem doentes, porque o risco para essas pessoas é muito maior. Se eu não me engano, não tínhamos nenhum colaborador que tenha sido infectado.

Temos hoje entregadores nas categorias de risco, com asma ou acima de 65 anos. Essas pessoas, às vezes, são a única renda da família. A pessoa se sentiria na obrigação de seguir trabalhando. O fundo é fundamental para essa pessoa ficar em casa e receber a mesma renda de acordo com seu histórico de receita no iFood nos últimos meses.

Tilt - O iFood criou um fundo de R$ 50 milhões para ajudar restaurantes com problemas. Esse dinheiro vai ser suficiente com tanta gente atrás de fluxo de caixa neste momento?

Patrick Hruby - Estamos ajudando o fluxo de caixa de diversas formas. Os R$ 50 milhões são uma delas. As pessoas podem retirar comida no restaurante sem pagar entrega e sem o restaurante ter um custo. A gente está liberando o adiantamento de recebíveis no cartão de crédito sem custos. Vai ser o suficiente? Cada semana a gente está lançando novas medidas para se adaptar ao momento.

Tilt - Há cerca de 130 mil restaurantes cadastrados no iFood. Alguns deles podem ir à falência no final dessa pandemia?

Patrick Hruby - Quem tiver certeza do que vai ocorrer ao final dessa situação está mentindo. Seria leviano ao dizer que vai falir A, B ou C ou um percentual X. O nosso papel é fazer de tudo para que isso não aconteça.

Ao final dessa crise, seja lá quando ela acabar, gostaria muito que nenhum deles viessem à falência, mas que possam reconhecer na parceria do iFood um dos pilares que os ajudaram a passar por isso. Sou otimista, não futurólogo.

Patrick Hruby, CEO da Movile, dona do iFood, Playkids e Sympla - Divulgação/Movile
Patrick Hruby, CEO da Movile, dona do iFood, Playkids e Sympla
Imagem: Divulgação/Movile

Tilt - O governo federal vai pagar R$ 600 a trabalhadores informais, e muitos são colaboradores de vocês. Acha que é suficiente?

Patrick Hruby - Eu fico feliz que eles estejam oferecendo algo, porque é uma categoria que historicamente não recebe muitos recursos e não tem sido o foco de muita atenção de governos. É o suficiente? Não sei. Eu prefiro pensar que é melhor do que nada. Se daqui a dois, três meses precisar de mais, que redobrem esses esforços. Longe de mim querer saber o que o governo faz, se tem espaço para mais ou pra menos. Tem gente mais qualificada que eu no governo tomando essas decisões. Espero, pelo menos, que tenha.

Tilt - Que espaço você acha que terão os apps de entrega daqui pra frente?

Patrick Hruby - Acho que é um caminho em que a gente está apenas no começo. Anos atrás, as pessoas costuravam as suas próprias roupas. Quem ainda faz roupa em casa hoje em dia? Poucas pessoas.

Hoje, o espaço para a cozinha é menor nos lançamentos imobiliários. Já se assume um comportamento de pedir comida, de comer fora ou pegar no restaurante e comer em casa. As pessoas estão descobrindo agora esses aplicativos, o iFood entre eles, mas provavelmente vão usar mais. Talvez acelere, mas acho que a gente já estava nessa tendência antes disso.

Tilt - A pandemia mostra também que os eventos de entretenimento podem ser digitais. A crise ajudou vocês a redefinir o modelo de negócio do Sympla?

Patrick Hruby - Em tempo recorde, o time da Sympla lançou o beta do streaming de vídeo. Acho fantásticas todas as lives que os artistas estão fazendo no Instagram, no Facebook, no YouTube, onde quer que seja. Mas isso não paga o salário de ninguém. Eles precisam de renda. A Sympla já estava trabalhando nisso [streaming de shows], mas acelerou por causa disso [pandemia]. Estou otimista que isso vai acontecer mais rápido do que aconteceria antes.

Tilt - Show online deixou de ser uma coisa bizarra, mas ainda não enche a barriga de ninguém? É isso?

Patrick Hruby - Assistir à live do seu artista favorito no Instagram de graça não enche a barriga de ninguém. Como o músico está recebendo receita? Não recebe. Eles acharam que teriam doações que resolveriam isso, mas, até onde eu sei, não teve. Todo mundo está preocupado com seu próprio desemprego, com segurar dinheiro, e as doações estão baixas.

Eu acho supernecessário cobrar um ingresso para assistir em casa do seu sofá o show do seu artista predileto ou uma peça da sua casa de show favorita. Estou otimista de que a Sympla será um dos líderes em trazer isso para a realidade. Eles [os artistas] veem isso como uma necessidade, não somos só nós.

Sympla - Reprodução
Sympla
Imagem: Reprodução

Tilt - O que vocês aprenderam sobre a vulnerabilidade dos entregadores? Eles não podem parar e aderir ao isolamento social.

Patrick Hruby - Eu acho que não só nós, mas a sociedade como um todo está vendo os entregadores sob uma outra luz. Está vendo a importância deles para o momento em que estamos passando. Tinha uma antipatia maior em relação a eles do que se tem hoje. Eles são uma categoria que está na linha de frente, que tem de estar lá para garantir serviços que sejam prioritários.

Estamos fazendo de tudo para que eles possam fazer de uma forma segura. Estamos fazendo chamada para distribuir álcool em gel aos entregadores, passando instruções de como fazer entrega sem contato, reduzindo entrega por dinheiro e incentivando o pagamento online. Estamos tomando todas as medidas para que eles possam fazer esse trabalho superimportante.

Tilt - O que tem no plano de longo prazo que está na gaveta? Quais são os desafios a serem vencidos daqui para frente?

Patrick Hruby - Eu trabalhei sete anos no Vale do Silício, lá no Google, depois sete anos no Facebook na América Latina e tive a sorte de vê-las crescerem e terem impacto em diversos países. Acredito que esse é o momento de empresas brasileiras de tecnologia assumirem esse papel de protagonismo na nossa sociedade.

A ambição é que a Movile se torne uma empresa global e alcance um valor de mercado de US$ 100 bilhões, o mesmo das grandes empresas de tecnologia do mundo. Por que o Brasil não pode ter uma empresa global nesse patamar? Eu acredito que vai ter e que a Movile vai ser uma delas.

Para chegar lá, vamos trabalhar em três frentes. Um: trabalhar para as empresas que estão no grupo hoje crescerem. Dois: vamos explorar novos verticais, observando que empresas de tecnologia estão crescendo e resolvendo problemas para investirmos em novas áreas.

Por último, vamos trabalhar para a Movile criar empresas mais justas, mais diversas. Já vimos de um ano para cá a mudança no percentual de mulheres em cargos de liderança, no percentual de negros no volume total da empresa.

Não é só um diferencial competitivo importante, mas também queremos liderar com o exemplo, para mostrar qual é o futuro da inteligência artificial e a importância das novas relações de trabalho criadas com entregadores e restaurantes. Queremos que todos entendam que há um ganha-ganha, que ninguém está tirando proveito de ninguém.

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