PUBLICIDADE
Topo

Epidemias já nos levaram a soluções como coleta de lixo e ecommerce

Times Square esvaziada em Nova York, nos EUA, durante a pandemia de coronavírus - Lev Radin/Pacific Press/LightRocket via Getty Images
Times Square esvaziada em Nova York, nos EUA, durante a pandemia de coronavírus Imagem: Lev Radin/Pacific Press/LightRocket via Getty Images

Bárbara Nor

Colaboração para Tilt

03/04/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Na Idade Média, Peste Negra acelerou estudos e testes médicos
  • Peste bubônica no século 19 levou a cimentação de pisos e melhor coleta de lixo
  • Recentemente, gripe Sars na Ásia ajudou a impulsionar comércio eletrônico
  • Com novo coronavírus, atenção se volta à infraestrutura da internet e telemedicina

O mundo pode não ser mais o mesmo depois do coronavírus - mas isso não é necessariamente ruim. Apesar da perspectiva sombria por causa do isolamento social, o momento pode render algo positivo. Devemos muitos dos avanços sociais e científicos às grandes epidemias do passado. Medicina moderna, coleta de lixo, adoção massiva de tecnologia, comércio eletrônico... tudo isso foi decorrência de crises como a atual.

Para alguns historiadores, a Peste Negra, que assolou a Europa na Idade Média no século 14, foi importante para avanços na medicina. Um de seus efeitos, de acordo com o livro "The Black Death and Men of Learning", de Anna Campbell, foi um enorme volume de escritos sobre a doença, baseados na experiência dos médicos da época.

Isso fez com que eles percebessem o quanto era importante privilegiar a observação e prática para produzir conhecimento. Até então, eles dependiam do que diziam os primeiros médicos da antiguidade, muitas vezes sem questionamento.

Também devemos à Peste a criação de práticas sanitárias e regras de funcionamento para hospitais. Até mesmo a invenção da tipografia de Gutenberg teria vindo graças à epidemia. James Belich, da Universidade de Oxford, diz no artigo "A peste negra e a expansão da Europa" que a morte de tanta gente reduziu a mão de obra e obrigou as pessoas a desenvolverem inovações capazes de suprir essa demanda.

Foi por conta da epidemia que os europeus passaram a se aventurar mais no mar —algo antes evitado por causa do perigo. Mas, entre ficar na Europa assolada por doenças e navegar, a segunda opção já não parecia mais tão perigosa. A Peste teria sido o empurrão para que a Europa se espalhasse pelo mundo.

Na Croácia, Lazareto (acima) era construção usada para manter as pessoas em quarentena  - Divulgação/Wikimedia Commons - Divulgação/Wikimedia Commons
Na Croácia, Lazareto (acima) era construção usada para manter as pessoas em quarentena
Imagem: Divulgação/Wikimedia Commons

Tratamento do lixo

Até meados do século 19, os ratos eram vistos como meros ladrões de comida. A relação deles com sujeiras e doenças só viria depois, na chamada terceira pandemia da peste bubônica daquele período.

O pesquisador Matheus Duarte, doutorando e bolsista da Capes na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), em Paris, conta que antes, acreditava-se que a transmissão tinha a ver com o contato direto entre as pessoas. Foi por isso, aliás, que foi criada a quarentena, na atual Dubrovnik, na Croácia.

Charge de Oswaldo Cruz combatendo febre amarela e peste bubônica em 1911 - Museu da Funasa - Museu da Funasa
Charge de Oswaldo Cruz combatendo febre amarela e peste bubônica em 1911
Imagem: Museu da Funasa

"No final do século 19 que se começa a associar a peste aos ratos", diz Duarte. Essa descoberta aparentemente simples mudou para sempre a forma como casas e cidades são construídas. Até então, no Rio de Janeiro, um dos focos da doença, as casas tinham o soalho simples, sem cimento. O problema era que isso era ideal para ratos se abrigarem e proliferarem. A solução foi passar a cimentar todas as casas.

Da mesma forma, as cidades não contavam com coleta de lixo organizada. "Esses são exemplos clássicos das mudanças sociais causadas por doenças", diz Duarte.

Na ciência, a corrida para criar uma vacina é um dos principais motivadores para que pesquisadores e médicos unam esforços. O Brasil se destacou por ter sido um dos primeiros a aplicar vacinação de forma ampla. Dessa mesma época veio a fundação dos institutos Butantan, em São Paulo, e Fiocruz, no Rio de Janeiro, até hoje referências na pesquisa e desenvolvimento de vacinas.

Corrida pela cura

No caso do coronavírus, a busca por inovações e soluções vem acontecendo em tempo recorde. Em um artigo do site The Conversation, Ignacio López-Goñi, professor de microbiologia da Universidade de Navarra, na Espanha, compara com a Aids, que teve seus primeiros casos descritos em junho de 1981, mas o vírus só foi identificado mais de dois anos depois. Com o coronavírus, esse prazo caiu para menos de um mês. E para isso, até o Brasil ajudou.

Embora não seja tão letal quanto alguns vírus já conhecidos —como o da Gripe Espanhola e o Ebola— o coronavírus tem preocupado principalmente pela rapidez com que se espalha. A necessidade de se isolar já fez com que muitos procurem se consultar com os médicos através de aplicativos de mensagem ou vídeo, o que pode dar impulso à chamada telemedicina, ainda pouco adotada pelos médicos.

"Se você pensar na realidade do Brasil, com várias áreas isoladas e dificuldade de reter os médicos, a telemedicina pode ser um ótimo recurso", diz Vera Coelho, pesquisadora e coordenadora do Grupo de Cidadania, Saúde e Desenvolvimento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). "Acho que vai se reforçar a importância desse tipo canal e quebrar a resistência a essas formas de atendimento".

Plataformas como HealthMap.org coletam dados em tempo real para identificar epidemias - Divulgação - Divulgação
Plataformas como HealthMap.org coletam dados em tempo real para identificar epidemias
Imagem: Divulgação

Dados a favor da saúde

Uma tecnologia que vem despontando é a de uso de IA e big data (análise de grandes volumes de dados) para a saúde.

John Browstein, líder de inovação na Harvard Medical School, nos Estados Unidos, está por trás do HealthMap, um sistema que vasculha notícias, dados de saúde pública e posts em redes sociais que mencionem sintomas ligados a epidemias atuais. Segundo reportagem na Wired, a ideia é conseguir identificar possíveis focos de epidemias e surtos com mais rapidez.

A própria Organização Mundial da Saúde também tem seu programa de inteligência epidemiológica: o EIOS, que combina os dados de plataformas como o HealthMap e tecnologias de código aberto (de uso e licença gratuitos) para monitorar o avanço de epidemias.

No caso do coronavírus, o sistema da OMS detectou os primeiros sinais do novo surto em 31 de dezembro de 2019, quando um artigo sobre diversos casos de pneumonia em Wuhan, epicentro da epidemia na China, foi coletado. No meio de março, já eram pelo menos 120 mil artigos sobre o surto agrupados pela plataforma por dia.

Um app chamado Private Kit:Safe —produção conjunta de universidades de MIT e de Harvard, mais Facebook e Uber— compartilha dados de localização criptografados e informa aos usuários se entraram em contato com alguém infectado, sem informar a identidade. Na China, um aplicativo do governo realiza a mesma função. Se o usuário se aproximou de infectados, o app recomenda que o usuário fique em casa.

"É uma tentativa de criar parâmetros e tecnologias globais para atuar em dimensões locais", diz Jean Segata, professor do programa de pós-graduação em antropologia social da Ufrgs e coordenador do Neaat (Núcleo de Estudos sobre Animais, Ambientes e Tecnologias). Ele, que estuda a prevenção de epidemias como zika e dengue, já vê esse movimento. "São empresas correndo para prestar serviços de inteligência para políticas públicas".

Nem sempre monitorar a internet é algo confiável, pois muitos dos que buscam ou falaram sobre os sintomas na rede não estão necessariamente doentes. "Isso pode gerar isolamento e preconceito entre áreas e pessoas identificadas como de risco", diz Segata.

Por outro lado, o momento pode ser a oportunidade para acelerar mudanças. "Quando tem uma crise, algumas inovações que estão ali correndo são de fato colocadas na agenda", diz Vera Coelho. Para o SUS, tecnologias de mapeamento de dados poderiam facilitar e ampliar o alcance à população.

Estouro da bolha imobiliária em 2008 ajudou a impulsionar adoção do bitcoin - Getty Images - Getty Images
Estouro da bolha imobiliária em 2008 ajudou a impulsionar adoção do bitcoin
Imagem: Getty Images

Home office, ecommerce e bitcoin

Longe dos hospitais, o coronavírus tem acelerado a adoção em massa do home office. A crise pode colocar à prova os sistemas de rede e de processamento das empresas.

"Com todas as escolas e empresas usando comunicação online, é uma demanda inédita de conexão de qualidade em massa", diz Eduardo Correia, professor de economia do Insper, em São Paulo. Ou seja, é um bom momento para testarmos o quanto a atual estrutura de rede pode suportar, principalmente no tráfego de vídeo ao vivo.

"Vários setores que oferecem serviços online despontam. Espera-se um incremento da internet das coisas e de serviços remotos, e que as pessoas tenham esse hábito cada vez mais depois da quarentena", diz Leonardo Paz Neves, analista de inteligência internacional do NPII-FGV (Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas), no Rio de Janeiro.

Segundo Duncan Clark, autor do livro "Alibaba: The House that Jack Ma Built" [Alibaba: A Casa que Jack Ma Construiu], um dos efeitos na China do surto da Sars —síndrome respiratória aguda grave, ou gripe aviária, causada por uma variante do coronavírus—entre 2002 e 2003, foi um boom em seu comércio eletrônico. Na época, a doença também resultou em lojas vazias e quarentenas forçadas de milhões de pessoas.

A adoção de tecnologias também pode acelerar em outros setores: em Hong Kong, por exemplo, o órgão que administra o transporte de trilhos (MTR) contratou robôs para fazer a limpeza interna dos vagões do metrô para mitigar os riscos de contágio. Já outras usadas há mais tempo, como torneiras e descargas automáticas em banheiros públicos para evitar o contato com as mãos, ainda economizam água.

Isso também vale para outras crises que já enfrentamos, como o estouro da bolha imobiliária em 2008. Foi naquele momento que o bitcoin foi criado. "A lógica era criar uma moeda sem governo, que pudesse servir para fugir da ingerência dos governos", diz Paz Neves. "Cada crise puxa as pessoas para pensarem novas soluções".

Imagens da Nasa mostram queda na poluição na China - Reprodução/Nasa Earth Observatory - Reprodução/Nasa Earth Observatory
Imagens da Nasa mostram queda na poluição na China
Imagem: Reprodução/Nasa Earth Observatory

Como será o amanhã?

Ao mesmo tempo, a epidemia nos convoca para olhar de forma mais crítica para a forma como vivemos.

"Não apenas a sociedade é impactada pelas epidemias, mas as epidemias são criadas pela sociedade e pelas transformações históricas", diz Matheus Duarte. Para ele, um dos primeiros impactos do coronavírus é justamente colocar em xeque alguns pressupostos da globalização —ao mesmo tempo em que ela é fruto disso.

O mundo nunca pareceu tão pequeno. Qualquer coisa que aconteça em um país chega até o outro lado do globo em pouco tempo. E as perspectivas para a economia global não são das mais animadoras.

"É a sensação de que não tem para onde ir, não há mais escape", diz Matheus. Para ele, a divisão de estados-nações deixa de fazer tanto sentido: o conjunto de atitudes de todos os países vai determinar realmente o curso dos eventos.

Um dos efeitos mais comentados, aliás, tem sido a queda nos níveis de poluição. Na China, as emissões de CO2 teriam caído 25% entre janeiro e fevereiro em relação ao mesmo período em 2019 por conta da quarentena. Na Itália, a Comissão Europeia e a Agência Espacial Europeia (ESA) também já apontam diminuição dos níveis de poluição. O recado é claro: nossa cultura de consumo e produção impactam bastante o nosso planeta.

Por outro lado, para Leonardo Paz Neves, da FGV, dificilmente essa situação vai mudar em pouco tempo. "A globalização já está completa. No caso do vírus, é um problema compartilhado por todos os países", diz. ME outros fatores, como um terremoto ou um desastre em um país como a China podem novamente afetar a cadeia global.

Ainda assim, o momento agora pode servir para políticas internacionais mais firmes. Por exemplo, a dependência de matéria-prima ou a produção de certos produtos podem deixar de vir só de alguns países. "Talvez isso tenha sido um bom ensaio geral para ver como conseguimos olhar para inovações que ajudem a ganhar tempo e aprender com nossa descoordenação", diz Paz Neves.

SIGA TILT NAS REDES SOCIAIS