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Está isolado? Astronauta que passou um ano no espaço diz como usar o tempo

O astronauta norte-americano Scott Kelly - Joel Kowsky/Nasa/AP
O astronauta norte-americano Scott Kelly Imagem: Joel Kowsky/Nasa/AP

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

23/03/2020 17h25

Se você já está no auto-isolamento após o coronavírus, o tédio e a saudade dos amigos já deve estar batendo forte, certo? Se está ruim para você, imagina como deve ter sido para o astronauta norte-americano Scott Kelly, 56, que passou exatos 340 dias contínuos no espaço, entre 2015 e 2016, confinado dentro da Estação Espacial Internacional (ISS, sigla em inglês).

Ele foi a pessoa que passou mais tempo em uma única missão na estação, intitulada "One Year Mission" (Missão de Um Ano, em tradução livre). Ela tinha como objetivo ajudar os pesquisadores a entenderem melhor como o corpo humano se adapta a voos espaciais de longa duração. Em um artigo publicado nesta segunda-feira (23) no The New York Times, Kelly falou sobre como se sentiu durante o confinamento.

"Quando eu ia dormir, eu estava no trabalho. Quando eu acordava, eu ainda estava no trabalho", disse. Parece ou não parece com o que você sente do alto do seu home office?.

Scott Kelly disse ter aprendido bastante nessa experiência e deu algumas dicas preciosas de como lidar com o isolamento.

Planeje o seu dia

Kelly contou que durante o tempo em que ele passou na ISS, todas as suas atividades eram planejadas na hora que ele acordava até o momento em que ele ia dormir.

"Às vezes, isso envolvia uma caminhada espacial que poderia durar até oito horas. Outras vezes, envolvia uma tarefa de cinco minutos, como verificar as flores experimentais que eu cultivava no espaço", disse.

Em outras palavras, planeje como será o seu dia e siga esse planejamento. É preciso ter hora para acordar, hora para começar o home office, hora para compartilhar com a família, etc.

"Quando voltei para a Terra, senti falta dessa estrutura planejada e achei difícil viver sem ela", conta. Scott Kelly voltou à Terra no dia 2 de março de 2016.

Cumpra um expediente

O desafio de se trabalhar em casa quando se está confinado é não saber a hora de parar de trabalhar. Kelly disse que a bordo da ISS ele se forçava a parar e ter momentos de lazer.

"Eu encontrava meus colegas de tripulação para assistir a filmes, comer lanches, e assistir compulsivamente aos episódios de 'Game of Thrones' — duas vezes", conta.

Ele também aconselha a ter hora para dormir. Segundo ele, cientistas da Nasa que estudam os astronautas descobriram que dormir bem tem implicações na cognição, humor e nas relações interpessoais, o que é essencial para tempos de confinamento.

Tenha um hobby

Leia livros, desenhe, pinte, toque um instrumento. A quarentena pode ser um bom momento para praticar antigos hobbies ou descobrir outros novos.

Kelly conta que durante o tempo que passou na estação espacial ele leu bastante. "O silêncio e a absorção que você pode encontrar em um livro físico —que não envia notificações ou o tenta abrir uma nova guia— não tem preço", diz.

Com muitas livrarias fechadas por causa da pandemia, há no mercado algumas opções de aparelhos de leitura digital, como o Kindle. Você consegue comprar o livro que quer ler sem sair de casa.

Comece um diário

No seu artigo, Scott Kelly encoraja os leitores a escreverem sobre o seu confinamento transpondo essas experiências em um diário.

"Tente descrever o que está experimentando ou escreva sobre suas memórias. Mesmo que você não termine escrevendo um livro com base em seu diário, como eu escrevi, escrever sobre seus dias ajudará a colocar suas experiências em perspectiva e a rever mais tarde o que significou esse momento único na história", acredita.

Depois que voltou à Terra, Scott Kelly escreveu um livro sobre os seus dias de confinamento, com o título de "Endurance: A Year in Space, a Lifetime of Discovery" (Resistência: um ano no espaço, uma vida inteira de descoberta, em tradução livre), publicado em 2017.

Conecte-se

Kelly diz que isolamento pode ser prejudicial não apenas à nossa saúde mental, mas também à saúde física, principalmente ao nosso sistema imunológico.

"Com a tecnologia, manter contato ficou mais fácil do que nunca, por isso vale a pena reservar um tempo para se conectar com alguém todos os dias", diz.

Além dos mais conhecidos Skype e WhatsApp, há vários aplicativos disponíveis no mercado para que você faça chamadas de vídeo com seus familiares e amigos.

Tente se conectar com a natureza

A orientação geral para proteger-se do covid-19 é sempre não sair de casa e manter a distância social de dois metros. Mas se você der a sorte de morar ao lado de um parque ou em uma área florestal, Kelly aconselha a aproveitar a natureza para sair um pouco do confinamento —mas de novo, fique longe das pessoas neste período!

"Você não precisa se exercitar duas horas e meia por dia, como fazem os astronautas na estação espacial, mas se mover uma vez por dia deve fazer parte do seu cronograma de quarentena. Fique a pelo menos um metro e meio de distância dos outros", aconselha.

Ele diz que durante o ano que passou isolado na estação espacial, estar do lado de fora vivenciando a natureza terrestre foi uma das coisas que ele mais sentiu falta.

"Depois de ficar confinado em um espaço pequeno por meses, comecei a almejar a natureza —a cor verde, o cheiro de sujeira fresca e a sensação de sol quente no rosto. Aquele experimento com flores se tornou mais importante para mim do que eu jamais poderia imaginar", disse.

Ainda segundo ele, a missão mostrou que se conectar com a natureza é benéfico para nossa saúde mental, assim como a atividade física.

Fuja das fake news

Em tempos de crise, é preciso confiar nas palavras de especialistas, de pessoas que dedicaram suas vidas e carreiras à pesquisa. Corra das informações que não têm fonte confiável, que geralmente chegam por meios das redes sociais.

"Viver no espaço me ensinou muito sobre a importância de confiar nos conselhos de pessoas que sabiam mais do que eu sobre seus assuntos, sejam ciências, engenharia, medicina ou o design da estação espacial incrivelmente complexa que me mantinha viva", disse o astronauta.

Seja solidário

Por último, ele diz que a disseminação do coronavírus está mostrando à humanidade que todo mundo está inevitavelmente interconectado e que "quanto mais pudermos nos unir para resolver nossos problemas, melhor estaremos".

"Por mais desamparados que possamos nos sentir presos em nossas casas, sempre há coisas que podemos fazer —eu vi pessoas lendo para crianças por videoconferência, doando seu tempo e dinheiro para instituições de caridade e executando pequenas tarefas para idosos ou vizinhos imuno-comprometidos", finaliza.

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