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Não aprendeu nada? VP do Facebook esnoba impacto da Cambridge Analytica

Andrew Bosworth, vice-presidente de realidade virtual e aumentada do Facebook - Christian Charisius/picture alliance via Getty Images
Andrew Bosworth, vice-presidente de realidade virtual e aumentada do Facebook Imagem: Christian Charisius/picture alliance via Getty Images

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

08/01/2020 19h30

Sem tempo, irmão

  • Em carta interna, Andrew Bosworth minimizou o impacto do escândalo de dados de 2018
  • Executivo assumiu erros, mas disse que Cambridge Analytica fez propaganda enganosa
  • Ele defende que Trump foi eleito por causa do Facebook, mas de forma limpa
  • Para ele, campanha não se beneficiou de desinformação, anúncios direcionados e ação russa

Sabe todo aquele drama envolvendo a manipulação que a consultoria Cambridge Analytica fez com dados de 87 milhões de usuários do Facebook, em 2018? Bem, não foi nada de mais. Pelo menos foi esta a opinião no mínimo polêmica de Andrew Bosworth — Boz, para os íntimos — vice-presidente de realidade virtual da rede social.

O New York Times obteve um longo artigo escrito por Bosworth para divulgação interna na empresa, no qual fez uma autocrítica sobre o cuidado com dados pessoais, desinformação e interferência externa em debates democráticos. Por outro lado, criticou a cobertura da imprensa sobre o escândalo Cambridge Analytica e admite: Donald Trump ganhou a eleição nos Estados Unidos por causa do Facebook — e sem jogar sujo.

Ele está certo? A gente destrincha, a seguir, os argumentos do executivo.

Repercussão de Cambrige Analytica não foi exagerada

Em termos práticos, Cambridge Analytica é totalmente um não-evento. Eles eram vendedores de propaganda enganosa. As ferramentas que eles usavam não funcionaram e a escala que eles as utilizaram não foi significativa. Toda reivindicação que eles fizeram sobre eles mesmos é um lixo.
Andrew Bosworth, VP de RV e RA do Facebook

Responsável pela publicidade do Facebook quando a Cambridge Analytica abusou da plataforma de anúncios da rede social, Bosworth claramente não lembra da empresa britânica com carinho. O executivo entende que a consultoria atuou de maneira irregular ao obter os dados de milhões de pessoas e até considera justa a má repercussão ao Facebook por isso.

Mas, ele diz que os detalhes sobre o caso estão quase todos errados. O executivo minimiza o impacto que os serviços de "direcionamento psicográfico" oferecidos pela Cambridge Analytica tiveram e diz até "lamentar deixar que eles continuassem" em um programa de parceiros de marketing do Facebook.

Fato é que o próprio Facebook disse que a Cambridge Analytica obteve, indevidamente, dados de 87 milhões de usuários da plataforma, a maioria deles americanos. Bosworth defende que não houve um vazamento, já que a plataforma de desenvolvedores de apps para Facebook permitiu, de 2012 a 2014, que aplicativos acessassem dados de amigos de usuários.

Bosworth talvez esteja "correto": a plataforma da rede social permitia o acesso a essas informações, não as vazou. Ele até assume o erro, mas daí a chamar o caso Cambridge Analytica de um "não-evento" é um desrespeito ao usuário.

Facebook foi chave para eleição de Trump

Efetivos ou não, os serviços da Cambridge Analytica foram vendidos para a campanha de Trump, que foi bem sucedido ao usar o Facebook como plataforma de propaganda política em sua campanha para as eleições de 2016. Mas, segundo o executivo, a empresa britânica não deu resultados melhores que outros "parceiros de marketing" do Facebook.

Bosworth também minimiza o impacto da atuação de russos na plataforma. Ele admite que houve intervenção externa na rede social, mas que ela foi irrisória em termos de propaganda, assim como os conteúdos polarizantes lançados pelos russos.

Outro tema abordado pelo executivo foi a desinformação disseminada nos meses que antecederam a eleição. Embora Bosworth também assuma esta falha do Facebook, ele argumenta que o interesse em divulgar boatos não tinha interesses políticos, mas econômicos.

Pessoas sem interesse político algum perceberam que podiam dirigir audiência para sites bancados por propaganda ao criar manchetes falsas e faziam isso para ganhar dinheiro
Andrew Bosworth

Assim como Cambridge Analytica e a atuação russa, a desinformação foi outra peça que contribuiu para a eleição de Trump —fosse ou não parte da campanha oficial do então candidato.

"Então o Facebook foi responsável pela eleição de Donald Trump? Eu acho que sim, mas não pelos motivos que qualquer um pensa", escreveu Bosworth, relativizando o papel que os três erros do Facebook (Cambridge Analytica, interferência russa e desinformação) tiveram no processo.

O executivo elogia — com razão, afinal trata-se de um caso incontestável de sucesso — o trabalho de Trump e seu gerente de campanha, Brad Parscale. "Ele foi eleito porque ele fez a melhor campanha digital eu já vi de qualquer anunciante", defende.

Na sequência, Bosworth nega a realidade ao dizer que Trump não espalhou desinformação e boatos em sua campanha, assim como não fez propaganda direcionada a pequenos grupos.

Trump abusou da "pós-verdade" em sua campanha atacando os rivais democratas, e o uso da propaganda direcionada no Facebook foi fundamental para ecoar suas declarações. E até hoje a plataforma permite posts políticos com dados falsos, sob a bandeira da "liberdade de expressão".

Analogia com vícios e futuro

Bosworth também refutou a comparação de redes sociais como o Facebook ao vício em drogas e álcool: "ofensivo não a mim, mas aos dependentes". Para ele, a analogia mais compatível é o açúcar, delicioso e especial, "mas como tudo, precisa de moderação".

Redes sociais são capazes de gerar dependência, pois contribuem na liberação de dopamina, hormônio que passa a sensação de bem-estar. Especialistas dizem que uma reeducação para um uso consciente dá conta de limitar o uso de serviços como o Facebook e o Instagram, mas as próprias plataformas têm introduzido ferramentas que ajudam neste controle. Nesta, o executivo acertou.

Ele ainda olhou adiante, pensando no que a rede social terá que melhorar para não cair em novas polêmicas. Bosworth acredita que os problemas da eleição americana de 2016 estão bem controlados e não serão um fator relevante em 2020, quando os Estados Unidos elegerão seu novo presidente.

Os novos desafios, para o executivo, são lidar com polarização e transparência de algoritmos, dois problemas interligados e de difícil resposta. Ele cita pesquisas internas do Facebook que indicam que a rede social apresenta mais conteúdos de pontos de ideologias diversas do que outros meios, o que derruba a lógica das "bolhas digitais".

O que acontece quando você vê 26% mais conteúdo de pessoas com quem você não concorda? Te ajuda a criar empatia com elas, como todos sugerem? Não. Te faz desgostar delas ainda mais
Andrew Bosworth

Qual a resposta? Bosworth não sabe, mas acredita que mais transparência sobre algoritmos contribuiria para ajudar na compreensão geral de quais tipos de publicação polarizam e geram atividade virtual. "O que espero que as pessoas encontrem é que algoritmos estão, primariamente, expondo os desejos da humanidade, para o bem ou para o mal", concluiu.

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