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Brasil manda para o espaço novo satélite para monitorar desmatamento

Satélite Cbers para monitoramento de desmatamento - Divulgação/Inpe
Satélite Cbers para monitoramento de desmatamento Imagem: Divulgação/Inpe

Carlos Madeiro

Colaboração para Tilt, em Maceió

19/12/2019 04h00

Em breve, o Brasil terá um novo equipamento para melhorar do espaço o monitoramento da Amazônia e do Cerrado feito pelo Inpe (Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais). Isso porque o satélite brasileiro CBERS 4A vai decolar na madrugada desta sexta-feira (20).

O satélite vai reforçar os dois sistemas que o país já tem: o Deter, que emite alertas de desmatamento em tempo real; e o Prodes, que faz o levantamento detalhado de áreas desmatadas dos biomas. O novo satélite levará a bordo duas câmeras: uma de tecnologia WFI, similar à que existe no CBERS 4, que está no espaço desde 2014, e outra WPM pancromática, que tem 900 vezes mais capacidade de resolução. A primeira faz imagens mais abertas, enquanto a segunda consegue aproximar sem perder a definição.

Cobertura mais ágil

Ao Tilt, o coordenador Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas do INPE, Cláudio Almeida, afirmou que a duplicidade de satélites vai reduzir pela metade o tempo de envio de imagens dos biomas.

"Com o CBERS 4A, vou passar a ter duas câmeras WFI no monitoramento. Hoje, tenho uma imagem a cada cinco dias. Com o par de satélites, serão duas câmeras em paralelo, e vou reduzir esse tempo para entre dois e três dias", diz.

Isso ajuda a driblar obstáculos atmosféricos. "Por exemplo, o satélite passou, fez uma imagem, mas havia uma nuvem. Hoje, tenho de esperar cinco dias para ele passar de novo pelo mesmo local. Com o CBERS 4A, diminuo esse tempo e aumento a chance de encontrar uma boa imagem, de ter um bom dado", pontua.

Imagens mais potentes

Outro avanço importante vem com a segunda câmera WPM pancromática, que faz imagens em altíssima resolução. Com a WFI, cada pixel (menor unidade de tamanho de uma imagem) equivale a 3.600 m² de área. Na tecnologia WPM, esse pixel será de 4 m².

"É como uma câmera normal: se você tira uma foto de perto, o pixel é pequeno, e a imagem tem vários detalhes. Se você afasta, aquele pixel tem mais informações, mas muito menos detalhe", compara. "Com isso, o Prodes poderá tirar uma dúvida se aquela imagem é desmatamento, agricultura ou área de reflorestamento."

Por observar áreas de forma muito mais detalhada, a câmera terá um espaço temporal de passagem bem maior: serão três meses para retornar a uma mesma área. "Mas o importante é que não será uma ou outra: eu vou trabalhar com as duas, cada uma para uma finalidade, se complementando", explica Almeida.

O responsável conta ainda que o CBERS 4 tinha uma vida útil prevista de três anos, mas como está em perfeito funcionamento seguirá mandando imagens ao INPE, "tudo indica que por uns dois ou três anos".

Sistema brasileiro é referência

Antes mesmo de ganhar reforço, o atual sistema brasileiro já era considerado um exemplo mundial de monitoramento. Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe exonerado pelo governo Bolsonaro por divulgar dados de desmatamento da Amazônia, foi inclusive escolhido um dos dez nomes mais importantes da ciência pela revista científica Nature, ao lado da ativista Greta Thunberg.

A publicação deu destaque aos números alarmantes sobre o desmatamento divulgados pelo Inpe e contestados por Bolsonaro.

"Os últimos números do Inpe, divulgados em 18 de novembro, mostram que foram destruídos 9.762 quilômetros de terra — uma área maior que Porto Rico — entre agosto de 2018 e julho de 2019. Isso representa um aumento de 30% em relação ao ano anterior e mais de duas vezes a área foi limpa em 2012. Cientistas e conservacionistas afirmam que a retórica antiambiental de Bolsonaro enviou um sinal aos fazendeiros, agricultores e grileiros de que eles podem mais uma vez limpar a floresta na Amazônia com impunidade", diz o texto.

Após pôr em dúvida os dados do Inpe, demitir Galvão da presidência do órgão e anunciar a contratação de uma empresa para fazer o monitoramento de satélite da Amazônia, Bolsonaro anunciou no Twitter o projeto que vai justamente fortalecer o sistema que ele atacou.

Parceria com a China está ameaçada

Para o professor doutor de Engenharia Aeroespacial da UFABC (Universidade Federal do ABC), Luiz Martins, o lançamento do CBERS 4A consolida o sucesso da parceria Brasil-China. No entanto, ele teme pela continuidade do programa por conta do acordo de salvaguarda tecnológica com os Estados Unidos para uso do Centro de Lançamento de Alcântara.

"Por motivos de geopolítica e ideológicos, a China ganha um status de país perigoso pelo parceiro agora preferencial, os EUA. A entrega do controle do centro para os estadunidenses significa veto às tecnologias chinesas nos veículos lançados dali", afirma.

O professor em astrofísica da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) José Dias do Nascimento Júnior afirma que a manutenção da parceria com a China é crucial para o monitoramento ambiental do país e interessa a vários institutos.

"Ela foi muito comemorada quando iniciada, e até hoje continua sendo uma das poucas atividades perenes na parcela espacial", diz.

O Programa CBERS (Programa Sino Brasileiro de Recursos Terrestres) foi firmado em 1988 para desenvolvimento em conjunto de satélites pelos dois países, que resultou em seis equipamentos produzidos até agora. Com eles, o Brasil consegue ter dados ininterruptos de desmatamento há mais de 30 anos.

"É crucial ter ferramentas que avaliem, em tempo real, o desmatamento. Isso vai ajudar vários grupos de pesquisa", afirma o pesquisador.

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