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Menino emociona ao traduzir história para amigo surdo: "para ele entender"

Bruna Souza Cruz

De Tilt, em São Paulo

06/12/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Ygor Ferreira, 5 anos, decidiu ajudar o amiguinho e começou a traduzir a história da Chapeuzinho Vermelho em Libras
  • Surpreso com a inciativa, o professor da turma começou a gravar os dois
  • O professor achou que o gesto de amizade deveria servir de exemplo para mais gente e o vídeo com as cenas viralizou

Era uma vez, um garotinho de 5 anos todo esperto e comunicativo. Um certo dia, ao ouvir o professor contar a história da Chapeuzinho Vermelho, decidiu por ele mesmo que o amiguinho deficiente auditivo precisava de mais detalhes sobre o conto de fadas. Começou então a traduzir em Libras (Língua Brasileira de Sinais) cada palavra que ouvia.

O gesto de amizade, protagonizado pelos pequenos Ygor Ferreira e Carlos Henrique em uma escola em Rolim de Moura (RO), rendeu uma explosão de fofura na internet depois que o professor da turma, Edilson dos Santos, compartilhou o momento em seu perfil no Facebook.

Segundo o pedagogo, que atualmente faz pós-graduação em Libras, esse foi um dos maiores presentes que ganhou durante quase 9 anos de sala de aula.

"Estou muito feliz, muito realizado. Naquele dia, li a história em voz alta e sinalizava [em Libras] para ele entender o que estava acontecendo. Terminei e virei para o quadro para escrever a atividade do dia. Quando retornei para a turma, vi o Ygor tentando traduzir a história de novo para ele", contou Santos, que atua no pré-II da escola Balão Mágico.

"Foi como se ele [Ygor] estivesse contando os detalhes da história. Fiquei muito surpreso. Peguei o celular, pois queria mostrar para os pais dos dois. O Ygor estava ali, fazendo a inclusão, estava tendo a empatia pelo amiguinho. Fiquei muito emocionado", acrescentou.

Muita gente tem uma visão de educação infantil, que a gente só brinca, que as crianças não aprendem. Os dois deram uma aula para a gente. Ensinaram que é possível incluir, que é possível aprender também. A escola está fazendo o papel dela
Edilson dos Santos

O professor conta que no início Carlos ficava isolado na sala de aula por não conseguir se comunicar (ele possui dificuldades de fala) com os colegas. Ninguém da turma sabia Libras, diferentemente de Carlos, que havia aprendido um pouco em sua casa.

Por já ter conhecimento na língua, Santos atualizou o currículo escolar da turma e começou a ensinar as crianças em sala de aula. Isso aconteceu ao longo de todo o ano e o resultado, claramente, surtiu efeito. Ygor foi um dos estudantes que sempre mostrava interesse em aprender.

"Ele ficava excluído porque nenhum aluninho sabia falar. Hoje vejo a diferença. Embora o Ygor tenha mais afinidade com o Carlos, a turma toda disputa a atenção, a amizade dele. Todo dia eu chego na sala e vem um me perguntando 'como fala isso em Libras? Como faz aquilo em Libras?'", destaco:

A escola [em geral] abre as portas e acredita que está fazendo parte da inclusão. Mas vejo que é diferente. Incluir é mais do que abrir vagas, é mais do que colocar na sala de aula. Incluir é abrir de fato o coração. É estar preparado profissionalmente. Ter conhecimentos e estar preparado para auxiliá-los

Kelma Jaqueline Ferreira e família - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ygor com seus pais e o irmão de 9 anos
Imagem: Arquivo pessoal
"Fiz para ele entender a história"

Os familiares de Ygor estão super orgulhosos do gesto do pequeno. Mas ainda estão sem saber o que pensar sobre a quantidade de pessoas que já assistiram as cenas —até o momento ele já ultrapassou 781 mil visualizações e mais 15 mil compartilhamentos.

Segundo Kelma Jaqueline Ferreira, 32, mãe do aluno, dá um pouco de medo ver a proporção que tudo está tomando.

"Fico muito orgulhosa. Já pequenininho falando assim. Fico tão encantada. O Ygor sempre foi muito comunicativo, brinca com todos. E ele é encantado pelo Carlos, desde o começo do ano. Eu nem sabia que ele gostava e sabia tanto de Libras até ver o vídeo", contou Ferreira. "Mas não vou falar que não fiquei assustada. Como mãe, a gente sempre tem um pouco de medo."

Agora que descobriu a afinidade do filho pela língua, Ferreira está pensando em estimular mais esse aprendizado. Talvez até pesquisar um curso extra para ele se aperfeiçoar.

Com ajuda dela, perguntamos para o Ygor o motivo dele ter começado a contar a história em Libras. A resposta não podia ter sido mais fofa: "Decidi traduzir porque ele é surdo e não escuta o que o professor está falando. Fiz para ele entender a história", disse. Para ele, o fato de Carlos ser surdo é exatamente o motivo dos dois serem amigos.

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