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Controlar máquinas com o pensamento parece um sonho, mas pode ser pesadelo

Marcel Lisboa/Arte UOL
Imagem: Marcel Lisboa/Arte UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

01/11/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Interface cérebro-máquina é visada por empresas como Facebook e Neuralink, de Musk
  • Técnica já existe na saúde para ajudar na locomoção, como visto na Copa de 2014
  • Mas um possível implante craniano tem potencial de comunicação e até controle de drones
  • Há implicações éticas e técnicas a debater, como ameaça hacker e responsabilidades

Adeus, teclado, mouse e até celulares. Se depender do interesse de empresas de tecnologia, nossa relação com computadores está prestes a sofrer uma transformação gigantesca. Diversos grupos investigam como criar uma interface cérebro-máquina para controlarmos o mundo só com a força do pensamento. Mas como tudo que parece saído da ficção científica, essa história é cheia de superlativos e tem alguns "mas" preocupantes.

O tema ficou quente a partir do meio do ano, quando o Facebook e a Neuralink, empresa de Elon Musk, anunciaram avanços na área. No Facebook, a ideia é desenvolver uma espécie de dispositivo como um bracelete que permitiria aos usuários da rede digitar com o pensamento.

Em paralelo, a gigante financia um grupo de pesquisadores da Universidade de Califórnia que tenta obter resultados semelhantes, mas com controle preciso, com implantes intracranianos. Algo parecido com o objetivo da Neuralink, que vai ainda além e vislumbra a integração da mente com inteligências artificiais em uma espécie de simbiose.

"Nós estamos vendo um 'boom' no mundo, é a área do momento nas pesquisas de empresas de tecnologia", diz Edgard Morya, pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra. Uma interface cérebro-máquina é um sistema que permite a uma máquina reagir aos sinais elétricos disparados pelo cérebro de determinada pessoa.

Não é tão novo quanto parece: desde a virada do milênio esse campo é muito visado na saúde para o controle de cadeiras de roda, por exemplo. Nessa área, uma das pesquisas mais midiáticas é a do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que permitiu a um paraplégico andar com um exoesqueleto controlado pelo pensamento na abertura da Copa do Mundo em 2014.

É preciso treinar sua "telepatia"

De qualquer forma, hoje já é possível controlar, com certas limitações, um mouse de computador e até um drone. Isso é feito com auxílio da eletroencefalografia (EEG), um sistema de eletrodos colocados na cabeça que capturam diversos sinais elétricos. Aqui, a parte de "ler a mente" é desmontada; o EEG identifica uma correspondência dos sinais gerados pelo cérebro.

"O EEG pega sinais do escalpo que, do ponto de vista espacial, estão ligeiramente distante de onde foram gerados", explica o neurocientista, professor da Unifesp e blogueiro de Tilt Álvaro Machado Dias. "Mas sempre há um nível de limitação", diz ele, que já criou uma instalação artística com interface cérebro-máquina por meio de EEG para Inhotim, assim como diversos jogos com a mesma tecnologia.

Além disso, não é só grudar meia dúzia de eletrodos na cabeça e sair brincando de telepata com o computador. Sistemas desse tipo demandam treinamento: é necessário que a máquina entenda qual estímulo do cérebro correspondem à determinada ação.

Comandos mentais são acompanhados de leves movimentos físicos. A ação de franzir a testa, por exemplo, pode significar um desejo de rolar a tela do computador para cima. Daí o computador aprende que este é o resultado certo para a atividade cerebral gerada quando você franze a testa. Ou seja: a máquina não "lê" a mente, mas responde a estímulos pré-estabelecidos.

"A inteligência artificial está embutida nisso. Afinal, seu cérebro varia todos os dias, e algoritmos vão entender quem é você, vão te acompanhar", diz Morya. Para ele, há uma falta de pesquisadores especializados em aprendizado de máquina e big data voltados para o cérebro.

Implante no crânio: a fronteira final?

Mas vale dizer que essa história mudará caso os dispositivos para registrar a atividade cerebral sejam intracranianos, isto é, dentro das nossas cabeças. Não só o nível de precisão do controle seria muito maior, como teríamos saltos maiores, como uma espécie de interface cérebro-cérebro, com dois implantes cerebrais se comunicando por uma espécie de telepatia.

"Seria a fronteira da pesquisa. Tecnicamente, nós já demonstramos que é possível", fala Edgard. "Imagine que, no lugar de mandar uma foto para alguém e falar 'olha que legal esse lugar', você pudesse enviar não só a imagem, mas a emoção dentro dela?", continua o pesquisador. "Consegue imaginar como a comunicação vai mudar no mundo?".

Antes disso, é claro, seria necessário que as pessoas que queiram experimentar essa tecnologia topassem fazer implantes cerebrais. Edgard não duvida que isso aconteça nas próximas décadas. Dias, no entanto, é cético quanto a essa possibilidade.

"Uma medição intracraniana permitiria controlar uma máquina com precisão grande, mas eu vou operar a cabeça de alguém para fazer isso", afirma. O caminho para atingir esse objetivo, acredita ele, passa por novas tecnologias. "Acho que vamos desenvolver módulos que sintetizam proteínas, que dentro delas carregam espécies de chips que se conectam, mas não colocar uma placa de silício lá dentro."

De olho no perigo

A Darpa, Agência de Pesquisa em Projetos de Defesa Avançados dos Estados Unidos, lançou um projeto para criar novas tecnologias não-invasivas para interfaces cérebro-máquina. Na avaliação de Edgard Morya, não seria impossível supor que alguns anos surja algo que poderia substituir o EEG.

Mas o programa da Darpa, chamado N³, levanta algumas preocupações. Há a possibilidade, por exemplo, de usar as interfaces cérebro-máquina para que pessoas controlem "enxames de drones, operando na velocidade do pensamento", como disse o diretor do N³ Al Emondi, em entrevista ao Technology Review. Sim, inclusive drones militares.

Da mesma forma, se o sucesso na empreitada vier de uma empresa como o Facebook, quais seriam os limites para o uso dos pensamentos das pessoas? A falta de privacidade subiria a novos níveis. Além disso, interfaces cérebro-máquina abrem novas possibilidades para se hackear uma pessoa, e criam um campo cinzento para entender quem é o responsável por determinada ação: o homem ou o computador.

"É lógico que a ideia de perder a individualidade é preocupante, mas isso não é o pior", diz Dias. Para ele, o X da questão é como tecnologias como esta se tornarão mais um fator desequilibrante em um mundo onde a desigualdade já é gritante.

"O que a gente tem visto, e isso não vai demorar 50 anos, é uma nova eugenia. As pessoas que tiverem acesso a isso terão uma superioridade violenta sobre os outros. Estamos caminhando para uma forma de desigualdade cujo paralelo mais próximo é o nazismo", argumenta.

De repente é uma boa ideia continuar com o mouse.

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