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Ouvir o coração não é só sofrência! Ciência diz que pode evitar acidentes

Entender as batidas do coração ajudaria também a evitar acidentes - hidesy/iStock
Entender as batidas do coração ajudaria também a evitar acidentes Imagem: hidesy/iStock

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

31/10/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Estudo contou com jogo de simulação em estrada para testar reações a objetos na pista
  • Alguns surgiam na "pista" entre batimentos cardíacos; outros, durante as batidas
  • Reação dos motoristas era mais lenta quando os objetos coincidiam com os batimentos
  • Gigantes da tecnologia apostam cada vez mais nos gadgets que medem batimentos cardíacos
  • Isso pode ter aplicações surpreendentes nos próximos anos

Ouça o seu coração para não se machucar. Parece refrão de sertanejo sofrência, mas é bom ouvir a professora de neurociência clínica e afetiva da Universidade de Sussex (Reino Unido) Sarah Garfinkel quando ela diz isso.

Eleita pela revista "Nature" como uma "estrela em ascensão" da ciência, ela mostrou em um dos seminários do evento New Scientist Live, realizado em Londres no começo de outubro, que entender as batidas do nosso órgão vital é fundamental não apenas para evitar quebrar a cara no amor, mas também para evitar acidentes na direção.

O tema da palestra de Garfinkel era "O que o coração sabe?", uma pergunta que tem reunido esforços de especialistas pelo mundo em busca de uma nova métrica universal a partir do batimento cardíaco —que é único, assim como a digital, a íris e a face.

No evento, ela apresentou os resultados de um estudo que contou com um jogo de realidade virtual em que diversos objetos apareciam em uma estrada fictícia. Alguns surgiam na "pista" entre batimentos cardíacos; outros, durante as batidas.

A partir deste experimento, Garfinkel e sua equipe notaram que o tempo de reação dos motoristas era mais lento quando o surgimento dos objetos coincidia com os batimentos. O motorista ficava, assim, mais propício a "travar".

Uma das conclusões possíveis do estudo é que, se alguém dirigir um automóvel em um estado alterado de excitação, com o coração batendo forte e rápido, menor será o tempo de reação e a capacidade de se desviar de objetos na pista; maior, portanto, a possibilidade de acidentes.

A revelação vai ao encontro do interesse de gigantes da tecnologia. Por meio de pulseiras, relógios e celulares que monitoram e produzem informações sobre os batimentos cardíacos de seus usuários, essas empresas tentam usar esse dado para identificar anomalias e contatar a emergência médica, sugerir serviços e outras coisas.

Eco Moliterno, diretor-executivo da Accenture Interactive, falou em março sobre "Como os batimentos cardíacos estão redesenhando as experiências humanas" no festival SXSW, nos EUA. Ele aposta que, em breve, usuários poderão saber o estado emocional do motorista ao pedir o serviço por aplicativos.

As pessoas também poderão avaliar filmes e séries através de um "rating cardíaco", que vão substituir as notas de zero a dez para dar lugar às emoções proporcionadas pelas produções. Quanto mais ação, maior a intensidade da atividade cardíaca informada. O mesmo vale para videogames.

De acordo com a New Scientist, a pesquisa da professora Garfinkel se soma a uma série de estudos que mostram como as sístoles —movimento em que os ventrículos do coração se "apertam"— têm um efeito inibitório na capacidade do cérebro de processar estímulos.

Pelos estudos, é possível concluir que a ocorrência de eventos e estímulos pode ser determinante para a reação se ocorrerem no momento "certo". Sorte e azar, portanto, dependem de um espaço entre a contração do coração. Os estudos apontam, por exemplo, que estímulos dolorosos são percebidos como menos dolorosos se coincidirem com um batimento cardíaco.

Segundo Garfinkel, o ritmo de batimento também é determinante para a memória. Assim, quando certas palavras são mostradas, é mais provável que elas sejam esquecidas mais tarde quando aparecem durante o batimento, e não entre batimentos.

Uma das hipóteses para que isso aconteça é a influência dos barorreceptores, como são chamados os sensores de pressão arterial localizados nas principais artérias. Esses receptores, diz a publicação, disparam cada vez que o coração se contrai. Só que, além de ajudar a regular a pressão sanguínea, eles podem inibir determinadas funções cognitivas.

O processamento sensorial, porém, é apenas um evento de uma série que pode levar a um acidente. "Muitas outras coisas precisam dar errado para levar a um acidente", ponderou Michael Gaebler, do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas Humanas e do Cérebro, na Alemanha, que também foi ouvido na reportagem.

Os estudos da professora de Sussex têm ajudado também a compreender o alto grau de ansiedade, sobretudo em pessoas com autismo. A especialista encontrou evidências de que a chamada interocepção —capacidade de sintonizar a atividade de órgãos internos— está ligada à capacidade de identificarmos nosso próprio estado emocional e até de desenvolvermos empatia.

Em entrevista ao Guardian, Garfinkel disse acreditar que a interocepção alterada pode ser um fator no motivo pelo qual as pessoas autistas experimentam o mundo de maneira diferente. Seu trabalho mostrou que as pessoas autistas tendem a ter dificuldade em detectar seus próprios batimentos cardíacos —e quanto maior essa dificuldade, maior a ansiedade.

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