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Como os limites tecnológicos empacam investigação sobre óleo na costa do NE

Voluntários e operários fazem limpeza de mancha de óleo que chegam às praias de Itapuama e praia de Xareu, em Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco - Ademar Filho/Futura Press
Voluntários e operários fazem limpeza de mancha de óleo que chegam às praias de Itapuama e praia de Xareu, em Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco Imagem: Ademar Filho/Futura Press

Carlos Madeiro

Colaboração para Tilt, em Maceió

28/10/2019 08h00Atualizada em 30/10/2019 17h48

Resumo da notícia

  • Há quase dois meses, autoridades e pesquisadores tentam achar origem do óleo
  • Nem satélite, radar, recurso de engenharia, análise de maré ou vento resolveram
  • A Marinha investigou1.000 navios e monitorou acusticamente área até 800 milhas
  • Satélite somado a supercomputador e modelo matemático apontou área 700 km da costa
  • Imagem do mar feita por satélite é de baixa qualidade e clicada com grande intervalo
  • Medir vento e correnteza não ajuda, porque petróleo pode ter submergido depois

Há quase dois meses, autoridades e pesquisadores de todo o país se debruçam para tentar descobrir quem derramou e de onde partiram as toneladas de óleo que chegam à costa da região desde o fim de agosto. Até agora, a única coisa que se afirma saber é que se trata de óleo venezuelano (informação contestada pelo país vizinho). Os investigadores também sabem que será preciso vencer limites, entre eles tecnológicos, para se chegar ao desfecho do caso.

Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), 238 praias já foram atingidas em 88 cidades do Nordeste. Mesmo passados mais de 50 dias, não há qualquer indício que aponte se há mais óleo chegando ou se o volume no mar está acabando.

Mas por que com satélites, radares, recursos de engenharia, análise de marés e ventos não avançamos nas investigações da origem do óleo? Especialistas ouvidos por Tilt revelam que a falta de informações torna os recursos tecnológicos ineficazes.

Monitoramento feito pela Coppe da mancha de petróleo no Nordeste - Divulgação
Monitoramento feito pela Coppe da mancha de petróleo no Nordeste
Imagem: Divulgação

Monitoramento acústico não deu conta

O primeiro dos limites vem por não se saber o dia e o local do vazamento. Isso fez a Marinha se debruçar sobre uma infinidade de navios que passaram pelo litoral do Nordeste nas semanas anteriores a chegada do óleo. Foram buscadas informações de cerca de 1.000 navios, que agora se afunilaram em 30 de 10 países diferentes.

A Marinha informou que há uma área hoje de 500 por 800 milhas —cada milha equivale a aproximadamente 1,8 km— sendo monitorada para tentar achar vestígios de onde veio ou vem o óleo. Nessa região, estão sendo feitos estudos acústicos que visam encontrar algum sinal vindo do fundo do mar que ajude a detectar se há algumas fonte jogando petróleo na região. Mas, até pela dimensão da área, ainda não houve qualquer sucesso.

A pista mais próxima de localização veio de um estudo feito pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que aponta que o vazamento "ocorreu em uma área entre 600 km e 700 km da costa brasileira, numa faixa de latitude com centro na fronteira entre Sergipe e Alagoas." O trabalho foi realizado por meio de imagem de satélite, computação de alto desempenho e modelo matemático.

"Há muita incerteza com relação à trajetória de óleo, porque ele correu abaixo da superfície. Não sabemos quanto tempo esse óleo demorou para 'intemperizar', ou seja, sofrer processos de mudanças da características físico-químicas para entrar abaixo na coluna d'água", afirmou o professor Luiz Assad.

Ainda não conseguiram achar a origem da gigantesca mancha de óleo que afeta centenas de praias do Nordeste - Divulgação/Adema
Ainda não conseguiram achar a origem da gigantesca mancha de óleo que afeta centenas de praias do Nordeste
Imagem: Divulgação/Adema

E os satélites?

O professor Humberto Barbosa, chefe do Lapis (Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), tem feito uma análise de imagens de satélite retroativa de agosto para cá, mas tem uma série de dificuldades e limites, como imagens feitas em um intervalo maior de tempo e com baixa qualidade.

Ele explica que a apuração de imagens captadas dos oceanos é pouco avançada, porque o mar apresenta uma série de especificidades:

No monitoramento dessa superfície, várias correções são feitas para realçar o objeto observado e para eliminar os ruídos nas imagens. Há uma homogeneidade da superfície do mar. Do ponto de vista do sensoriamento remoto, a água absorve boa parte da radiação refletida, dificultando a detecção segura de vazamento de óleo por satélite

Segundo ele, a interpretação de imagens orbitais, nos casos de derramamento de óleo nas águas, pode levar a vários equívocos. Mesmo que o satélite venha a encontrar algo suspeito, imagens sozinhas não são capazes de resolver —seria necessária a observação in loco para validar a observação por satélites.

Por isso, ele está olhando agora para a imagem de radar de abertura sintética, que é um radar colocado em um satélite.

Usar geotecnologias para identificar a existência e movimentação de manchas de vazamento de petróleo no mar não é das tarefas mais simples. Elas avançaram muito para detecções na superfície terrestre, o que infelizmente ainda não ocorreu para detecções no mar

Uma das principais dificuldades para o uso de sensoriamento é a falta do local do acidente. O NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA) fez buscas, mas não usou o sonar, um dos mais valiosos instrumentos que poderia ajudar nessa procura. O órgão diz que o aparelho só é indicado para áreas menores, delimitadas, nunca para áreas tão extensas e de mar aberto, especialmente sem pistas de local.

Ainda há outro agravante: por conta do embargo dos EUA à Venezuela, muitos navios desligam seus sistemas de localização para poderem atuar comercialmente na região sem serem notados. "Isso impede que eles sejam rastreados", disse o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Se foi um desses, ele não deve ter comunicado o derramamento por medo de sanções previstas por esse embargo, como a proibição de fazer negócios com qualquer empresa americana.

Professor da Coppe, Luiz Landau mostra a simulação das correntezas no oceano Atlântico - Divulgação
Professor da Coppe, Luiz Landau mostra a simulação das correntezas no oceano Atlântico
Imagem: Divulgação

E pelas correntes e ventos?

Outra pergunta comum é: sabendo-se das correntes marítimas e dos ventos, não seria possível saber exatamente onde foi o acidente? "Não, não é possível", ressalta a doutora em oceanografia biológica e professora da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), Célia Rocha:

O óleo pode ter submergido a princípio e aflorado à superfície depois, após mudança de densidade pelo contato com a água salgada. Isso explica o fato de as manchas surgirem inesperadamente

"A tecnologia para isso seria uso de imagens feitas por satélites de uns dois meses para cá, mas isso também daria só uma noção, pois só seriam visíveis as manchas superficiais", afirma.

Analisar o petróleo?

Uma possibilidade seria analisar quimicamente o óleo encontrado nas praias e saber o tempo que ele tem no mar. O professor Alberto Wisniewski Junior, do Laboratório de Petróleo e Energia da Biomassa da UFS (Universidade Federal de Sergipe), analisou materiais achados no litoral do Estado e afirma que não há formas de se precisar o tempo que o petróleo tem de retirado do poço profundo.

"Sobre o tempo desde a retirada não existe atualmente uma forma de estimar isso. Não é o caso de tecnologia, e sim de parâmetros. Após a elevação do óleo do subsolo ele não sofre nenhuma transformação significativa que pudesse ser usado como uma referência", explica.

No caso, também não como saber o tempo que está derramando no mar. "É possível se fazer uma estimativa quando se conhece o produto original o que não é este caso", explica.

Vai para onde?

Até mesmo o destino final do óleo retirado das praias ainda é incerto. Em nota, o Grupo de Acompanhamento e Avaliação, ligado a Marinha, Ibama e ANP (Agência Nacional de Petróleo), diz que ainda busca "soluções definitivas para essa destinação."

"Esse trabalho tem sido feito por meio de uma interlocução direta com os Estados afetados, articulações com o Sindicato Nacional das Indústrias de Cimento (SNIC) e com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)."

Segunda a nota da Marinha, "nas tratativas realizadas, foram identificados possíveis recebedores para esses resíduos coletados, a fim de realizar a destinação final de forma sustentável. O objetivo é que o material recolhido possa ser reaproveitado em coprocessamento [no caso, da indústria do cimento]."

Ao Tilt, a Petrobras informou que desde o fim de semana atua com barcos equipados com radar para localização de manchas de óleo e recursos para contenção e recolhimento do material que se encontra na superfície. A companhia também disse que está utilizando drones para a inspeção das praias.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que o texto disse, a milha usada como padrão pela Marinha é a milha náutica, que equivale a 1,8 km, e não 1,6 km, como é o caso da milha terrestre. O texto foi corrigido.

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