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Boicote? Huawei anuncia aumento de 24% na receita e ganha apoio da Europa

O fundador e CEO da Huawei Ren Zhengfei, na sede da companhia em Shenzhen (China) - Xinhua/Liang Xu
O fundador e CEO da Huawei Ren Zhengfei, na sede da companhia em Shenzhen (China) Imagem: Xinhua/Liang Xu

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

16/10/2019 11h01

Sem tempo, irmão

  • Ofensiva de Trump à Huawei, com direito a boicote, não está funcionando
  • A companhia chinesa registrou aumento de 24% receita e de 8% no lucro
  • Em meio a uma disputa geopolítica, a empresa recebeu apoio da Europa
  • EUA aumentaram a lista de chinesas que não podem comprar ou vender dos americanos

A ofensiva de Donald Trump contra a Huawei não parece estar funcionando. A chinesa anunciou nesta quarta-feira (16) um aumento de 24,4% em sua receita durante os nove primeiros meses do ano, que chegou a 610,8 bilhões de yuanes (US$ 86,2 bilhões). A margem de lucro subiu 8,7%.

Em paralelo, as operadoras de telefonia móvel da Europa fazem fila para comprar seus equipamentos para redes 5G, apesar da fiscalização mais rígida por conta das alegações dos EUA. Dos 65 acordos comerciais que a Huawei assinou, metade foi com clientes europeus que estão construindo redes sem fio de quinta geração ultrarrápidas, disse a líder de mercado de redes globais nesta terça-feira (15) em uma conferência de clientes em Zurique.

"Isso mostra a confiança consistente e de longo prazo dos clientes europeus na Huawei - estamos realmente gratos por sua confiança neste momento difícil", disse Yang Chaobin, chefe do negócio 5G da Huawei, à Reuters. "Do ponto de vista técnico, segurança é algo que podemos resolver", afirmou ele em comunicado à imprensa. "Mas se você encarar a segurança como uma questão política e julgar a segurança de um fornecedor com base em sua origem, será muito difícil resolver."

A Alemanha, a maior economia da Europa, também divulgou uma proposta de um conjunto de regras sobre segurança de redes 5G que não menciona a China ou a Huawei como ameaças; em vez disso, exige que todos os fornecedores e operadores atendam a critérios comuns.

Ou seja, não adiantou prender a diretora financeira da Huawei, filha do fundador, nem divulgar vídeos contra a empresa ou pressionar países aliados a aderir ao boicote --a companhia está desde maio na lista de empresas com acesso vetado ao mercado americano e à compra de componentes cruciais. A Huawei segue ganhando mercado.

Washington teme que os equipamentos da Huawei contenham brechas de segurança que permitam a Pequim espionar as comunicações globais, o que o grupo chinês nega. Por trás desta alegação, existe uma disputa geopolítica entre China e EUA, que ganhou novos contornos na semana passada, quando Trump determinou que outras oito empresas chinesas se juntassem à Huawei no grupo que é impedido de comprar componentes americanos sem a aprovação governamental.

O Reino Unido ainda está ponderando se deve seguir as recomendações de seu Conselho de Segurança Nacional de proibir a Huawei nas redes do país —um passo já dado por Austrália e Nova Zelândia.

Entenda a disputa

Pelo seu tamanho e área de atuação, a Huawei virou um bode expiatório. O grupo chinês domina segmentos de infraestrutura de telecomunicações, inclusive no Brasil, já é o segundo maior fabricante de celulares do mundo, e desponta como o principal fornecedoras de redes 5G do planeta.

Os EUA temem que os laços da empresa com o governo chinês possam significar a instalação de redes de telefonia móvel com "portas dos fundos", brechas de segurança que poderiam permitir que a China interceptasse dados nos locais onde o 5G for providenciado por equipamentos da Huawei.

Google, Qualcomm e Intel, entre outras empresas americanas, confirmaram que iriam aderir às ordens governamentais, interrompendo a venda de componentes à Huawei. O caso do Google foi o mais crítico, já que os celulares da marca chinesa utilizam o sistema operacional Android.

Mas, com o balanço de hoje, fica cada vez mais claro que as chinesas não precisam tanto assim da simpatia americana.

A autossuficiência da Huawei

Embora esteja com a licença temporária para comprar o que for necessário de empresas americanas e "atender clientes existentes", a Huawei está bem posicionada para diminuir sua dependência a fornecedores estrangeiros. Ao contrário da maioria de seus concorrentes no mercado de smartphones, a marca não depende de processadores terceiros, já é proprietária e utiliza os processadores da chinesa HiSilicon.

Em agosto, a empresa chinesa também revelou o HarmonyOS, seu próprio sistema operacional. Com ele, o Android deixa de ser essencial, embora ainda existam questões sobre de onde virão os aplicativos compatíveis - o acesso à Play Store, do Google, está na lista de restrições impostas pelo governo americano.

Certo é que a Huawei continuará tocando seus negócios, com ou sem os parceiros dos Estados Unidos. O executivo-chefe Ren Zhengfei sente que sua empresa é subestimada por americanos e afirmou que, aos preocupados, assinará acordos de não-espionagem com governos e clientes dos equipamentos de 5G da marca.

Quanto aos celulares, o mercado chinês bastou para a Huawei vender mais que a Apple no segundo trimestre de 2019 e o HarmonyOS alivia o impacto da restrição ao uso do Android. Para quem esperava um conflito, Ren e sua empresa aguentaram bem os primeiros socos.

Quem são as outras empresas chinesas boicotadas

  • Hikvision

Empresa de maior destaque do grupo, ela é a maior fornecedora de produtos de vigilância em vídeo do mundo, tendo 22 subsidiárias uma delas no Brasil. A Hikvision foi fundada em 2001 e tem sede na cidade de Hangzhou. Apesar de ser uma empresa da capital aberto, seu maior acionista é um braço estatal.

  • Dahua

A Dahua é uma concorrente da Hikvision, atuando exatamente no mesmo campo. Também é uma empresa de capital aberto, fundada em Hangzhou em 2001. As semelhanças não param por aí: o governo chinês é um dos principais acionistas dela. Junto com a Hikvision, a Dahua controla cerca de um terço do mercado mundial de vigilância em vídeo.

  • SenseTime

Mais jovem que as empresas do ramo vigilância em vídeo, a SenseTime foi fundada em 2014 em Hong Kong. É um "unicórnio", ou seja, uma startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão, que trabalha com o fornecimento de serviços de inteligência artificial. Seus produtos são comprovadamente avançados, com destaque para seu algoritmo de reconhecimento facial DeepID.

  • Megvii

Três anos mais velha que a SenseTime, a Megvii também trabalha com inteligência artificial. Sediada em Pequim, ela desenvolve programas de reconhecimento de imagem e aprendizado profundo (deep learning). Também é um "unicórnio" chinês (nome dado a empresas startups que valem mais de US$ 1 bilhão), com recursos tecnológicos que rivalizam com grandes empresas americanas.

  • iFlytek

Outra que faz pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial, a iFlytek foi fundada em 1999 e é uma empresa de capital aberto. Em vez de trabalhar com reconhecimento de imagem, sua especialização está em softwares de reconhecimento de voz.

  • Yitu

De Xangai, fundada em 2012, a Yitu tem é uma concorrente de SenseTime e Megvii: é um unicórnio que atua com inteligência artificial e reconhecimento de imagem.

  • Meiya Pico

Mais antiga, com 20 anos de mercado, a Meiya Pico se especializa em cibersegurança e na ciência forense digital. Seus produtos são soluções vendidas a "forças da lei e organizações governamentais em todo o mundo", como diz o site oficial.

  • Yixin Science and Technology

Exceção do grupo e a que tem menos informações disponíveis na internet. Assim como Yitu, Megvii e SenseTime, trata-se de uma startup, mas de uma área completamente diferente: nanotecnologia. (Com AFP e Reuters)

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