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Por que raios caem 2 vezes mais em rotas de navios? Cientistas descobriram

Raios são mais comuns em rotas de navios do que em áreas correlatas - Dirceu Portugal/ Estadão Conteúdo
Raios são mais comuns em rotas de navios do que em áreas correlatas Imagem: Dirceu Portugal/ Estadão Conteúdo

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

13/10/2019 11h55

Sem tempo, irmão

  • Pesquisa de cientistas mostra que raios são mais comuns em rotas de navios
  • Ação humana é a grande causadora: combustíveis incentivam raios
  • Estudo comparou rotas de navios com números de quedas de raios
  • Pesquisa mostra impacto indesejado que ação humana pode causar na Terra
  • Novo acordo internacional pode diminuir número de raios em rotas de navegação

Pesquisadores descobriram recentemente que raios caem duas vezes mais sobre rotas de navios do que em áreas correlatas próximas. E agora, de acordo com a Wired, finalmente o motivo para esse número diferente de descargas elétricas foi descoberto: a ação humana.

O estudo sobre as quedas de raios rolou durante anos e foi feito por pesquisadores da Universidade de Washington e da Nasa. Tudo começou com um estudo de 2017 sobre a quantidade de raios em grandes rotas oceânicas de navios.

A pesquisa foi focada no nordeste do Oceano Índico e no sul da China, incluindo áreas no entorno de Singapura e Indonésia. O trabalho começou quando Katrina Virts, então uma estudante de graduação da universidade, criou um método para extrair mais resolução dos dados disponíveis sobre descargas elétricas.

Em parceria com Joel Thornton, um cientista atmosférico também da Universidade de Washington, ela aplicou o método a 11 anos de dados sobre raios para fazer um mapa de áreas com taxas de ocorrência especialmente altas. E aí foi notado o padrão das rotas de navios.

Reconhecemos na hora que essas eram rotas de navegação Joel Thornton, cientista atmosférico da Universidade de Washington

Entendendo chuvas e raios

A princípio isso parece sem sentido, mas basta entender o funcionamento de chuvas e raios para sacar que esse padrão não é algo sobrenatural. Em condições normais, o que ocorre é isso:

  • gotículas microscópicas de água no ar agarram-se ao núcleo de condensação das nuvens, que são partículas de aerossol maiores que 50 nanômetros, como um pouco de poeira ou dióxido de enxofre
  • quando poucas partículas estão presentes, cada uma capta mais gotículas e se fundem em nuvens relativamente curtas a baixas altitudes, que fazem chuva
  • quando muitas partículas de aerossol estão presentes, cada uma recebe menos gotículas e podem flutuar alto o suficiente na atmosfera para congelar
  • nas nuvens altas, pedaços de gelo e "lama aquosa" se chocam e transferem cargas elétricas
  • as diferenças de cargas criam um campo elétrico, o que resulta em raio

Sendo assim, mais partículas significam mais raios.

Por que navios incentivam raios

O grande problema das rotas de navegação é o combustível utilizado por barcos. Queimar combustíveis fôsseis é um meio bem eficaz de liberar essas partículas no ar, o que aumenta a probabilidade de descargas elétricas.

Gráfico mostra comparação entre quedas de raios e rotas de navios - American Geophysical Union
Gráfico mostra comparação entre quedas de raios e rotas de navios
Imagem: American Geophysical Union

Os navios carregam uma culpa maior nisso pelo tipo de combustível usado. Normalmente, ele é feito do material viscoso e escuro deixado no fundo do barril após a destilação de outros combustíveis como gasolina. Ele contém cerca de 3.500 vezes mais enxofre do que o diesel automotivo, por exemplo.

Para o estudo, os cientistas compararam dados das quedas de raios com uma base de dados de emissões atmosféricas. Depois, usaram uma simulação computacional para medir o efeito de emissões de navios no Oceano Índico para a criação de nuvens.

Outas atividades humanas, como a agricultura, também têm este efeito nas nuvens - fertilizar o solo aumenta o número de bactérias, produzindo mais emissões de nitrato. Mas o resultado é mais observável nos oceanos porque são locais em que os efeitos de outras atividades humanas são mais limitados.

Apesar de raios não serem uma grande ameaça para os navios enormes ou pessoas em geral pela relativa "baixa" quantidade de mortes, a pesquisa é mais um lembrete sobre como os hábitos humanos podem ter consequências difíceis de serem previstas para a Terra.

A boa notícia da história é que as partículas não ficam por muito tempo no céu - se parássemos de poluir hoje, os resultados não demorariam décadas para aparecer. No ano que vem, um novo acordo internacional para diminuir a queima de combustíveis fósseis entra em ação. Para os pesquisadores, poderemos ver, então, uma reversão na tendência de raios.

Ciência